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    O que o Halloween tem a ver com a Reforma?





    Dia das Bruxas – Halloween e a Reforma Protestante são coisas tão díspares. Mas são comemorados ou celebrados no mesmo dia – 31 de outubro. Então podemos fazer uma pergunta: O que o Halloween tem a ver com a Reforma? A resposta implícita é óbvia: Nada!


    Na mente de um protestante piedoso o Reino dos Cinco Solas e o Dia das Bruxas são opostos completos. São pólos opostos e completamente separados. Mas a convergência dessas duas coisas serem celebradas no mesmo dia, pode nos dar um momento apropriado para refletirmos sobre um dos Solas da Reforma, o Solus Christus, de uma maneira que não o fazemos muito.


    O Halloween, ou Dia da Bruxa, fala de horror, terror, paganismo, bruxaria... não só na nossa mente, mas na alma do homem... como também na realidade sombria dos filmes de bruxa que povoam o imaginário de nossas mentes infantis e o horror verdadeiro do paganismo e mergulho do homem em sacrifícios a deuses da fertilidade... bruxas da Idade Média... e todas as coisas que mostrar a escuridão dentro do homem.


    Mas será que os horrores do Halloween ( Do Dia das Bruxas ) e a recuperação que a Reforma trouxe não colidem na cruz de Cristo de alguma forma?


    No Credo dos Apóstolos, muitas vezes há pouca atenção dada a uma cláusula no segundo artigo sobre a pessoa e obra de Cristo, uma linha que alguns desejavam ver ser apagada da história textual do credo: "Ele desceu ao Inferno"


    Houve debates consideráveis sobre esta declaração concisa. Mas o Reformado, amplamente falando, entendeu a descida ( Como a Bíblia mostra)  se referindo à apoteose da humilhação e do sofrimento de Cristo debaixo da ira infinita de Deus na Cruz e apenas na cruz.

    Foi dito:

    “Nas minhas maiores dores e tentações, posso ter certeza e consolação de que meu Senhor Jesus Cristo, por sua inefável angústia, dor, terror e agonia, que ele suportou em todos os seus sofrimentos, especialmente na cruz, me libertou da angústia e tormento do inferno.”

    Calvino também afirma:

    “Se Cristo tivesse morrido apenas uma morte corporal, teria sido ineficaz. Não, era conveniente, ao mesmo tempo, sofrer a severidade da vingança de Deus, apaziguar sua Ira e satisfazer seu juízo justo. Por esta razão, ele também deve lidar diretamente com os exércitos do inferno e com os medos da morte eterna.” - ( Institutas da Religião Cristã , II.xvi.10)


    Calvino entende assim a descida no inferno como uma visão dogmática da qualidade invisível ( para todos que estavam vendo ele morrer ali ) dos sofrimentos de Cristo na cruz. Afinal, as profundidades do trabalho do mediador são opacas no nível da história humana apenas. Para a multidão reunida para zombar da vítima sendo torturada até a morte, Jesus de Nazaré era simplesmente um vago pretendente messiânico recebendo o devido castigo por sua blasfêmia. Mas mesmo para os discípulos de Jesus, os tormentos de Jesus teriam sido compreensíveis apenas como a agonia e a vergonha da crucificação. Como eles poderiam saber o que estava acontecendo de fato ali? Como eles poderiam verificar a enormidade do Calvário além do testemunho de Jesus? A escuridão daquela tarde correspondia à escassa compreensão por parte dos seguidores de Jesus.


    A cláusula de descida no inferno salvaguarda a confissão da igreja de que Jesus Cristo suportou ao máximo o julgamento de Deus sobre o pecado e sua ira infinita na Cruz – e o que é o inferno senão estar debaixo da Ira infinita de Deus e sob seu completo abandono? Mas, enquanto examinamos a vida de Jesus Cristo desde o nascimento até sua morte e sepultamento, nós só podemos ver toda sua vida como três décadas de debilitação e destituição. Não é que Jesus Cristo experimenta uma única noite sob o domínio do medo e horror do Cálice - reconhecemos que a obra da redenção é realizada através de uma vida inteira de sujeição à degradação e sofrimento. Não limitamos as trevas da vida de Cristo a um único dia: confessamos que, ao descer e ser tornar um homem,  e em todo caminho da nossa salvação, ele desceu ao Horror. (Um mundo sombrio que o Halloween tão bem retrata).


    Terror não é inato para Deus. No repouso de seu Ser em si – o grande “Eu Sou!” -  ele é a tranquilidade em sua essência. Mas, em sua eleição como o representante dos eleitos que o Pai lhe deu, Ele se liga à humanidade, e algo mais entra na imagem. Deus, ao eleger homens para si mesmo, se despoja de sua “imperturbação” ou posição imperturbável e vai em direção ao horror. Deus em Si mesmo mesmo e Deus por nós são um e o mesmo Deus, e seu ato de se voltar para o homem ( os Eleitos)  em Jesus Cristo, é uma auto-ordenação para o horror, para o terror.  Talvez aqui vejamos uma “licença poética” do dia da Reforma e o Dia das Bruxas ( o horror ) serem celebrados no mesmo dia.


    A escolha de Deus ao nos eleger, a escolha para ser nosso Deus, é a escolha dele pelo Getsêmani e Gólgota. A determinação de Deus em nos nomear para a comunhão com ele, sempre implicou esse movimento descendente, um caminho inevitável para o sofrimento inimaginável em favor do parceiro da aliança.


    Deus, ao assumir a humanidade para si mesmo, se despoja da impermeabilidade ao horror e terror, que como eu disse, é tão bem representado pelo Dia das Bruxas. Pois, ao se tomar carne, Ele assume a radical vulnerabilidade ao sofrimento e ao horror que é nossa herança em Adão. A partir do momento de seu nascimento, ele se entrega completamente à disposição do mundo, adotando as nossas imensas limitações ( Ele sendo um Deus infinito, eterno, ilimitado...) e habitando nossa fragilidade. Pela primeira vez, o Filho experimenta subjetivamente a futilidade e o sofrimento da “derrota” ao longo da vida nas mãos de poderes intratáveis, anti-humanos, anti-Deus, o terror. Aqui, é interessante a Reforma e o Dia das Bruxas colidirem no dia 31 de Outubro. Tornar-se homem significa abandonar a invulnerabilidade e, a partir do seu primeiro suspiro, é inundado com o desapontamento e a disfunção do nosso mundo.


    Ele vem para o que era seu, mas o que era seu  não o recebe. Mas é particularmente em seu movimento do batismo em que ele "se submete mesmo como o acusado", nas palavras de Calvino. Seu batismo no Jordão é uma entrada em total solidariedade com os portadores da imagem rebelde que ele veio para resgatar. Lá, o Filho de Deus é consagrado a ir ao Gólgota como homem pecador, o representante da raça de Adão que o Pai elegeu para mostrar sua Graça e manifestar a glória da sua graça na eternidade.


    Em nome daqueles que ficaram malditos pela Lei, ele se tornou maldição; Para todos sob a escravidão da tirania do pecado, ele se tornou pecado.


    Todos tememos nos tornar alguém, nos tornando algo reprovável, algo que detestamos, mas com o tempo, a maioria de nós descobre que simplesmente sermos nós mesmos já é o horror e terror suficiente – a vida humana caída é um verdadeiro Dia das Bruxas, um verdadeiro Halloween. Pois bem, Jesus veio a ele. Nós mesmos somos o principal combustível de nossos pesadelos. Nós assombramos nossas próprias vidas com mil horrores diferentes: o caminho da esquerda que não deveríamos ter tomado, o fruto que não devíamos ter roubado, o prestígio e posição que não devíamos ter desejado, aquele que não devíamos ter “pisado”. Todas as nossas cobiças, todas as nossas crueldades inúteis tornam visível o horror em que estamos todos sujeitos neste mundo caído e os horrores que abraçamos como antídotos que trazem mais horror – não foi tentando controlar o horror que nos cerca que apelamos para deuses que acabaram na comemoração como o Halloween?


    Jesus Cristo, o infinito Deus vivo, se curvou em nossas dores para sofrer a angústia totalmente absurda desse nada, com os pecadores e como se pecador fosse. Nascido para morrer, sim, mas mais do que isso: nascido para ser pisoteado; nascido para se dissolver no horror para destruir o horror e terror, para tirar o veneno em si mesmo. Aquele cuja existência era vida inata e luz e amor, agora soprado no fétido ar do túmulo que mundo nosso mundo é, comeu a porção mais rançosa do mercado desse mundo, foi objeto de desprezo e ridículo por cretinos patéticos como você e eu.


    Ao se unir à humanidade na encarnação, o Filho mergulha no que é antitético para Deus. O Filho de Deus, apesar de ser rico (de todas as formas imagináveis e inimagináveis), esvaziou-se e tornou-se pobre por nossa causa. Desprovido do livre exercício de suas próprias habilidades inatas, ele foi assediado pelo horror e terror nas maiores profundidades de seu ser. E, apesar de toda nossa imundice e horror ter sido colocado sobre ele, ele nunca foi contaminado. Mas isso ampliou o seu tormento de forma ainda mais indescritível, pois aquele que é indigno é subordinado à torrente da impiedade que define a era presente. Você e eu sofremos e nos revoltamos sob o peso do pecado, mas nenhum de nós conhece o sofrimento de resistir a sua gravidade até o derramamento de sangue (Hebreus 12: 4).


    O vazio da carne do coração do pecado humano começou a inundar os sentidos de Cristo na noite anterior à sua crucificação. Sua visão dessa realidade próxima, o Cálice da Ira, cresceu cada vez mais desde a refeição da Páscoa, cuja partilha abriu a transfusão de transgressão em seu ser, apertando a abertura de sua consciência da proximidade de Deus, mas de Deus Irado.


    Essa distância tornou-se insuportável quando ele clamou ao seu Pai no Getsêmane, mas chegou a sua consumação em sua execução no dia seguinte, onde finalmente se extinguiu. O corpo e a alma de Jesus Cristo tornaram-se um buraco negro absorvendo toda a putrefação do caos do mundo dos eleitos. A escuridão caiu sobre a terra quando a ira de Deus inundou o Cristo crucificado. Era o inferno.


    A luz recuou até que fosse tão negra como a noite, pois Deus estava presente como o único que circunscrevia o pecado dos eleitos ao abismo de seu Filho.


    Mas, na passividade de sua morte, ele anulou o poder da própria morte, desmantelando suas máquinas e revendo sua reciprocidade de ira infinita. Pelo primeiro e único momento, um único ser humano foi ordenado para servir como sacerdote e sacrifício, como juiz e como condenado.


    Em sua vida e morte, o Deus único absorve toda a condenação, toda ira, tudo que o inferno é... lá na cruz. Sua morte é uma explosão de antimatéria que aniquila a Morte de dentro para fora, abolindo o estranhamento eterno em relação a Deus e o nada do pecado e banindo seus horrores da criação a que ele se comprometeu salvar na Aliança eterna. Pois Jesus Cristo é o Filho de Adão, e no entanto ele é simultaneamente o Senhor de Adão, aquele de quem Adão foi criado para ser o ícone, a imagem viva. Sua descida para os horrores e terrores inimagináveis da raça de Adão traz o destino do horror em sua própria cabeça. Pois, ao habitar fielmente a miséria dessa imagem arruinada, ele o transfigurou.


    É uma entrega da tirania e uma entrega de um destino completamente novo, um que é hilariamente desproporcional às capacidades e desejos originais de Adão. É um destino adequado para um novo Adão, o herdeiro final de nosso primeiro pai e o restaurador de sua herança.


    De que os horrores Jesus Cristo foi sujeitos? Na sua morte, todos os horrores estão mortos. Verdade, eles persistem em uma meia-vida macabra e indigna de ser descrita como "vida", mas a entrega de Cristo assegurou sua ruína e está na contemplação do ofício de Cristo como vencedor do horror, que o controle do horror sobre nós é completamente desabotoado . "Jesus! O nome que encanta e espanta nossos medos e terrores, que interrompe as nossas dores e nos faz exultar.


    A teologia da cruz exulta na derrota do horror ao reconhecer a luz que brilha na escuridão, que é mais brilhante por causa da profunda escuridão na qual a luz de nossa liberdade foi forjada, que persiste apesar de estar cercada pela escuridão desse mundo de horror, de terror, do Halloween, do Dia das Bruxas... horrores sem fim.


    Isso porque o amor de Deus é mais forte do que a morte - mesmo a sua própria. Mais forte do que a morte, é mais forte do que a escuridão e transforma a morte e a escuridão e os torna seus servos.


    A descida do Filho aos horrores da existência caída é o primeiro movimento em uma parábola que leva pecadores -  que merecem a escuridão, pois são parte dele e a amam, para um novo domínio, uma nova economia, não mais estrangulada pelos tendões do pecado e seu salário, mas energizada pela própria vida de Deus: luz pura, vida pura, amor puro.



    Para Deus, ao assumir o horror por si mesmo e em si mesmo, resgatou seu parceiro rebelde, sua noiva agora, e garantiu-se por si mesmo. O Cristo em quem confiamos sozinho (Solus Christus ), através da fé sozinha ( Sola Fide),  pela graça sozinha ( Sola Gratia), que se revela nas Escrituras somente ( Sola Scriptura ) e para dar toda a glória a Deus somente ( Soli Deo Gloria) - é o Filho obediente que não recuou diante do horror e terror (Um cemitério sombrio no Dia das Bruxas não é nada para expressar esse verdadeiro horror e terror)  - mas Ele amava os eleitos, os que foram dados a Ele, até o extremo e se entregou ao máximo. O pecado e o inferno estão devastados, porque Cristo nos levou com ele para o túmulo, e nos levou com Ele do túmulo para a direita do Deus Pai. E lá nós estamos.

    Feliz dia da Reforma!!!