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    500 anos da Reforma | Lady Jane Grey e "Bloody Mary" – A rainha sanguinária .





    Nesses 500 anos da Reforma - há tantas histórias não conhecidas ou então esquecidas de parte importante dela. Principalmente de mulheres como Lady Jane. Lady Jane Grey (1536 / 1554) é uma filha da Reforma cuja história de fidelidade ao evangelho e graça merece ser mais conhecida e amada em nossos dias.


    Para explicar por que esta menina de 18 anos foi decapitada depois de um reinado de 9 dias como Rainha da Inglaterra, primeiro temos de oferecer um breve resumo sobre o pano de fundo político da Inglaterra dos Tudor até aquele momento.


    A avó de Jane Grey era Mary Tudor, Rainha da França e irmã mais nova do rei Henrique VIII da Inglaterra.


    A primeira esposa de Henrique, Catarina de Aragão, não lhe deu um filho que sobrevivesse, mas apenas uma filha, Maria, nascida em 1516 (um ano antes de Lutero pregar suas 95 teses na porta do castelo de Wittenberg). Quando o Papa não sancionou uma anulação do casamento entre Henrique VIII e Catarina de Aragão, Henrique rejeitou a jurisdição Papal sobre casos eclesiásticos na Inglaterra e fundou a igreja de Inglaterra – Anglicana, tornando a Inglaterra protestante.



    Em 1537, a terceira esposa do rei Henrique, Jane Seymour, deu à luz um filho, Edwardo. Após a morte de seu pai em 1547, o menino de 9 anos tornou-se rei Edwardo VI. Seu Conselho de Regência, projetado para ajudá-lo a governar em uma idade jovem, era totalmente ligado a Reforma emergente Inglesa. Pela primeira vez a Inglaterra tinha um rei realmente protestante.


    Pouco antes da morte do rei Eduardo VI, em 6 de julho de 1553, ele e o Conselho alteraram o  "Plano de Sucessão" - para impedir que a Inglaterra voltasse ao governo católico sob sua meia-irmã mais velha, a Princesa Maria. Edwardo nomeou Lady Jane (sua prima primeira,) para ser a próxima Rainha da Inglaterra.


    Maria, no entanto, acreditava que ela era a rainha legítima e foi capaz de reunir o apoio popular e militar da Inglaterra.


    O reinado de Jane de nove dias como rainha terminou assim em 19 de julho de 1553. Maria entrou em Londres duas semanas depois, no início de agosto.


    Em 13 de novembro de 1553, um tribunal legal determinou que ela era culpada de alta traição, condenando ela e Guildford a morte.


    A rainha Maria - mais tarde conhecida como "Bloody Mary" -  Maria a Sanguinária – pensou a princípio  que Jane era uma vítima de seu sogro, John Dudley, primeiro duque de Northumberland, juntamente com outros. É possível que, se a Rebelião de Wyatt ( A rebelião de Wyatt de janeiro e fevereiro de 1554 contra os planos da rainha Maria I de casar-se com Filipe da Espanha Católica) contra a rainha não tivesse ocorrido no final de janeiro de 1554, Jane e Guildford pudessem ter permanecido sob custódia na Torre de Londres indefinidamente.


    Maria permitiu que um de seus conselheiros católicos visitasse Jane, tentando persuadi-la da fé católica para salvar sua alma (mesmo que uma conversão não salvaria sua vida terrena).


    Você pode ter uma visão da teologia de Jane e sua piedade ao ler uma carta que ela escreveu a sua irmã de 14 anos, Katherine, um dia ou dois antes de sua morte. Nele escreve:


    “Viva para estar pronta morrer, para que, pela morte, você possa entrar na vida eterna, e depois desfrutar da vida que Cristo ganhou por você pela Sua morte na cruz. Não pense que só porque você é agora jovem sua vida será longa, porque jovem ou velho, como Deus determinar, partimos desse mundo.”


    Parte do que conhecemos verdadeiramente sobre ela devemos agradecer ao historiador Dr. J. Stephan Edwards. A dissertação de doutorado do Dr. Edwards era "Jane the Quene": uma nova consideração de Lady Jane Grey, a Rainha dos Nove Dias da Inglaterra."


    Numa série de perguntas respondidas por ele numa entrevista, ele joga luz sobre Lady Jane Grey e sua execução em 12 de fevereiro de 1554.


    O que o levou a fazer sua pesquisa de doutorado e a concentrar tanto do teu interesse profissional em Lady Jane Grey?


    Eu fui atraído para ela originalmente pela natureza das biografias existentes e relatos de sua vida e tempo, praticamente todos os quais foram obviamente manchados por lendas e mitos, até mesmo “adoração do herói”. Minha pesquisa se concentra em recuperar uma narrativa histórica baseada em evidências originais sobreviventes e liberta de tantas lendas e mitos quanto possível. Para termos uma visão real de Lady Jane e daqueles dias.


    Você fez uma extensa pesquisa sobre os retratos que pretendem representar Lady Jane. Mesmo que não tenhamos um retrato genuinamente confiável, se você tivesse que escolher um que se aproximasse mais do que ela realmente parecia, qual você escolheria?


    O Syon House Portrait.
    Eu sou da opinião que o Syon House Portrait  é, provavelmente, o mais próximo que podemos chegar a uma representação autêntica de Jane Grey. Embora tenha sido pintado na década de 1610, sessenta anos ou mais após a morte de Jane, foi encomendado pela família Seymour, que eram filhos e netos da irmã de Jane, Katherine Gray Seymour. Pelo menos um membro mais velho dessa família tinha conhecido pessoalmente Jane e ainda estava vivendo quando o retrato foi criado. Edward Seymour, conde de Hertford (filho de Edward Seymour, primeiro duque de Somerset e Lorde Protetor do rei Eduardo VI) conhecera Jane muito bem, e até mesmo foi considerado (antes de 1551) como um possível futuro marido para ela. Ele viveu até 1621, e pode muito bem ter aconselhado o artista sobre a aparência de Jane. Alternativamente, o retrato de Syon pode ter sido copiado de uma miniatura (agora perdida) já na posse dos Seymours, bem como o retrato grande em Syon da irmã de Jane Katherine.


    Vamos nos concentrar em seus últimos dias. Decapitação com um machado era o castigo habitual por traição?


    Aqueles de status nobre ou real que foram condenados por traição foram muitas vezes decapitados, enquanto os homens de menor posição, foram enforcados, atravessados de forma a demorar a morrer e esquartejados -  e mulheres de menor nascimento foram muitas vezes queimadas na estaca (considerado mais "humano" para o "sexo fraco" do que enforcar, atravessar na estaca e esquartejar). O consentimento do monarca era necessário para a decapitação, mas raramente era retido. Assim Maria consentiu que Jane fosse executada decapitada com um machado.


    O que ela usaria para sua execução? A pintura famosa de 1833 de Paul Delaroche a tem vestida em um vestido branco... Isso é exato?


    Pintura de Paul Delaroche de 1833.
    Não, o vestido branco angelicamente virginal retratado nessa pintura  não está de acordo com a história. Ela se vestiria adequadamente com um vestido simples de cor sombria, geralmente cinza ou preto.





    Poderiam aqueles que seriam executados trazer alguma coisa com eles?


    Muitos carregavam algum tipo de texto religioso com eles para o local de execução, muitas vezes um terço ou Livro de oração (para os católicos) ou um Novo Testamento ou cópias dos Quatro Evangelhos (para os protestantes).


    Sabemos o que Jane carregou?


    Ela carregava um livro copiado das obras de Jerônimo, Ambrósio e Agostinho, cada um deles Pais da igreja do século IV. Os protestantes da Era Tudor reconheceram o valor dos escritos desses homens, embora negassem seu status de santos e intercessores no céu como os católicos.


    O que ela fez com o livro quando chegou lá?


    Naquela manhã, ela cuidadosamente deu o livro para seu carcereiro que estava preparando ela para os seus últimos momentos. Pequenos presentes aos carcereiros, e até aos carrascos, eram considerados sinais de humildade e perdão cristão aos seus executores.


    Sua execução foi aberta?


    Jane foi executada dentro das paredes relativamente privadas ( apesar de muitas pessoas terem acesso)  da Torre de Londres, em vez de em todo o brilho das multidões fora das paredes da Torre. As execuções eram grandes espetáculos públicos que muitas vezes atraíam audiências enormes, de modo que uma execução privada ( Um número consideravelmente menor do que as multidões do povo comum)  era considerada um grande favor para os condenados.


    A Torre de Londres continha um patíbulo de execução permanente?


    Não, patíbulos foram construídos especificamente para cada execução, então imediatamente depois eram desmontados. Os relatos de testemunhas oculares indicam que o patíbulo da execução de Jane foi construído contra a parede da Torre Branca central, no seu canto noroeste (o canto mais próximo da Capela de St. Peter-ad-Vincula).



    Desde que Jane foi abrigada na parte superior do Gentleman Gaoler's (Jailer's) quarters, que ainda está de pé hoje, ela teria visto o patíbulo sendo construído a apenas alguns metros na Tower Green. Ela também teria tido uma caminhada muito curta de seus aposentos para o patíbulo, embora ela tenha ficado exposta a visão de muitos residentes permanentes, trabalhadores e visitantes oficiais dentro da Torre que estavam lá naquela segunda-feira de manhã. É dito por testemunhas oculares que ela fez a caminhada com grande dignidade e sem quaisquer sinais externos de angústia.


    Alguém a acompanhou até o patíbulo?


    Jane foi acompanhada por pelo menos duas de suas damas de companhia e por John de Feckenham.


    Quem era Feckenham?


    Feckenham era John Howman (c.1515-1584), um membro da ordem beneditina de monges católicos romanos. Ele nascera na cidade de Feckingham, no condado de Worcester, e na época era costume que os monges deixassem o sobrenome da família e usassem apenas o nome próprio e o nome da cidade onde haviam nascido - assim " John de Feckenham. "
     Na época da execução de Jane em fevereiro de 1554, Feckenham era um dos capelães e confessores pessoais da rainha Maria. Ele era, na verdade, um dos conselheiros espirituais pessoais da rainha. Ele convenceu Maria a permitir que ele tentasse converter Jane ao Catolicismo Romano no decorrer de três dias antes da execução -  o que o envolveu em  um debate semi-público com Jane sobre questões teológicas. Seu debate foi testemunhado e transcrito e publicado pouco depois da morte de Jane, tornando-se conhecido como o Debate de Feckenham .
    Feckenham.


    Qual foi o objetivo de Feckenham na execução?

    Ele esteve lá por duas razões. Primeiro, ele estava disponível se Jane desejasse se converter ao catolicismo romano em seus momentos finais, e oferecer qualquer conforto espiritual que pudesse se ela preferisse não se converter. Nenhum pastor protestante era permitido. Em segundo lugar, Feckenham serviu como representante pessoal da rainha Maria, pronto para testemunhar os procedimentos e para relatá-los a ela.


    O que Jane fez ao chegar ao patíbulo?


    Jane, como todos os condenados a morte, foi autorizada a fazer um discurso final. Esses discursos foram escritos e memorizados com antecedência, com grande cuidado, pois era prática comum que as testemunhas presentes escrevessem as últimas palavras do moribundo. Os discursos do patíbulo eram frequentemente publicados poucos dias após a execução e circulavam amplamente, às vezes como propaganda política, às vezes como ferramentas educativas ou avisos para outros, e às vezes simplesmente como "notícias do dia". Jane estava bem consciente dessa prática e Seu discurso final, como foi publicado pouco mais de um mês depois, reflete uma cuidadosa escolha de palavras.


    O que ela disse em seu discurso final?

    Aqui estão suas palavras: 
    “Bom povo da Inglaterra, venho aqui para morrer, e por lei estou condenada assim. O fato da minha coroação contra a sua alteza rainha Maria foi considerado ilegal, e o consentimento por mim também: mas, quanto a aquisição e o desejo dessa posição por mim (de rainha), ou em meu nome, eu lavo minhas mãos na inocência diante de Deus, e da face de você, bom Cristãos, neste dia.”


    Em outras palavras, ela declarou que ela era culpada de ter quebrado a lei ao aceitar a coroa, (Mais a lei tinha sido alterada por Eduardo VI ) mas que ela era inocente de ter procurado ou buscado isso. Ela reconheceu a justiça de sua execução ( segundo a interpretação da lei como feita pelos seus acusadores não levando em conta o que Eduardo VI havia feito como Soberano Rei da Inglaterra ), como todos os condenados eram esperados fazer. As manifestações de inocência no momento da execução foram paradoxalmente consideradas sinais de culpa, de falta de humildade e transgressão da vontade de Deus.


    Ela pediu oração também?

    Sim, ela pediu a eles: Peço a todos vocês, bons cristãos, que me dêem testemunho de que morro como uma verdadeira cristã, e que não quero ser salva por outro meio senão pela misericórdia de Deus, no sangue de seu único Filho Jesus Cristo que por mim morreu na cruz. E confesso que, quando conheci a palavra de Deus, negligenciei a princípio a mesma, amei a mim mesmo e ao mundo; e, portanto, esta morte e punição é feliz e dignamente acontece por meus pecados – esse é o salário do pecado -  e ainda assim eu agradeço a Deus, que por sua bondade ele me deu tempo para me arrepender e abraçar a Verdade. E agora, boas pessoas, enquanto estou viva, peço-vos que me ajudeis com as vossas orações.”
     Quando ela pediu ao pequeno público para orar por sua alma "enquanto ainda viva", sua escolha de palavras reflete sua discordância com a prática católica de fazer orações e missas pelos mortos.

    Ela então se ajoelhou e pediu ao público que recitasse junto com ela, enquanto falava, as palavras do Salmo 51 , o “Miserere” , que começa: "Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias"


    O que ela fez em seguida?

    Após a recitação do Salmo 51, Jane voltou a fazer os últimos preparativos para estar pronta para o machado.
     Entregou as luvas e o lenço a uma de suas damas, e entregou o pequeno livro a Thomas Bridges, irmão do Tenente da Torre. ( O livro ilustrado abaixo, sobreviveu e às vezes é exibido como parte da exposição permanente "Tesouros da Biblioteca" na British Library em Londres.)
    Foto do livro original  entregue por Lady Jane ao carcereiro.

    Depois que seus ajudantes a ajudaram a afrouxar o colarinho e laço de seu vestido, o carrasco ajoelhou-se no costumeiro pedido de perdão ao condenado. O verdugo, em seguida, pediu-lhe para ficar sobre a palha espalhada ao redor do bloco para absorver o sangue.
     Quando ela começou a se ajoelhar, ela perguntou ao carrasco se ele a pegaria de surpresa e golpearia antes que ela estivesse pronta. Garantindo que não o faria, amarrou um pano em volta da cabeça para bloquear sua visão.


    É verdade que ela não conseguia encontrar o suporte onde tinha que colocar a cabeça para o machado do carrasco?


    Sim. Ela se sentiu cega para encontrar o bloco, e não o encontrou por causa do pano sobre seus olhos -  ela perguntou: "O que devo fazer?  Cadê?" Era contra o costume ajudar o condenado a encontrar o suporte da decaptação, para que a pessoa que oferece ajuda não fosse acusada de ter uma parte injusta em uma morte. No entanto, alguém - geralmente relatado como Feckenham - aparentemente se abaixou e guiou suas mãos para o suporte. Finalmente encontrando o bloco, ela colocou seu pescoço sobre ele.


    Quais foram suas últimas palavras?

    Ela repetiu as palavras de Jesus na cruz: "Senhor, em tuas mãos entrego o meu espírito". O verdugo usou o machado e ela estava morta. Ponto.  Ela não queira ser rainha, mas queria que o Evangelho trazido de volta com a Reforma, fosse banido da Inglaterra e a escuridão voltasse. Depois desses fatos, muitos e muitos Puritanos foram executados na Inglaterra pela rainha Maria – Por isso ela ficou conhecida como Maria, a sanguinária.


    Lady Jane Grey teve uma excelente educação e uma reputação de ser uma das mulheres jovens mais instruídas de sua época. Protestante comprometida, ela foi postumamente considerada não só uma vítima política, mas também um mártir.


    E aqui está a cena emocionante da execução descrita no belo filme de 1986, Lady Jane , estrelado por Helena Bonham Carter: