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    Nem toda fé traz justificação!




    A verdadeira fé justificadora consiste de três coisas:


    Primeiramente, há a auto-renúncia. Fé significa "sair para fora" do eu, de nossos méritos e enxergar que não temos direitos próprios: "Não tendo justiça própria" (Fp 3.9). É um fio partido, no qual a alma não pode se apoiar. Arrependimento e fé são graças humildes. Pelo arrependimento, uma pessoa abomina a si mesma, pela fé, a mesma pessoa se desloca do seu eu. O povo de Israel saindo do Egito pode nos dar uma comparação. O povo, ao ver faraó e suas carruagens o perseguindo e se aproximando de sua retaguarda, ao mesmo tempo em que diante deles estava o Mar Vermelho pronto para devorá-los, entristeceu-se. Da mesma maneira, o pecador olha para trás e vê a justiça de Deus o perseguindo por causa do pecado e diante dele está o inferno pronto para devorá-lo. E, nessa condição desesperadora, não vendo nada em si mesmo para ajudá-lo, o homem perecerá a menos que possa encontrar ajuda em algum lugar.


    Em segundo lugar há a confiança. A alma se lança sobre Jesus Cristo. A fé é depositada na pessoa de Cristo. A fé crê na promessa, pois tal promessa é a própria pessoa de Cristo. Figuradamente podemos dizer: assim como a esposa "... vem encostada ao seu marido..." (Ct 8.5). Descreve-se a fé como crer em o nome de seu Filho, Jesus Cristo" (1 Jo 3.23), isto é, em sua pessoa. A promessa é como um porta-jóias, Cristo é a jóia dentro dele, o qual a fé envolve. A promessa é somente o prato, Cristo é a comida no prato, que alimenta a fé. A fé se apoia na pessoa de Cristo "crucificado". A fé se gloria na cruz de Cristo (Gl 6.14). Olhar para Cristo coroado com todas as excelências provoca admiração e assombro, mas olhar para Cristo como o ensanguentado e a ponto de morrer é o verdadeiro objeto de nossa fé. A fé é, portanto, chamada fé "no seu sangue" (Rm 3.25).


    Em terceiro há a apropriação, ou aplicação de Cristo em nós mesmos. Um remédio, embora seja muito eficaz, se não for administrado não fará nenhum bem. Um curativo pode ser feito com o próprio sangue de Cristo, mas não curará, a menos que seja aplicado pela fé. O sangue de Cristo, sem a fé em Deus, não salva. Quando aplicamos esse conceito a Cristo, o chamamos de receber a Cristo (Jo 1.12). A mão que recebe ouro enriquece. Assim também a mão da fé recebendo os méritos dourados de Cristo com a salvação nos enriquece.


    A operação da fé salvadora


    Como a fé é trabalhada?


    Pela ação do bendito Espírito Santo de Deus, que é chamado o "Espírito da graça", porque ele é a fonte de toda a graça (Zc 12.10). A fé é a obra principal que o Espírito de Deus opera no coração do homem. Ao fazer o mundo, Deus disse uma palavra, mas ao operar a fé ele estende seu braço (Lc 1.51). O ato de o Espírito trabalhar a fé é chamado: "a suprema grandeza do seu poder" (Ef 1.19). Foi uma ação de poder supremo exercida na ressurreição de Cristo, visto que tamanho obstáculo estava diante dele: eram "os pecados de todo o mundo". Mesmo assim ele foi ressuscitado pelo Espírito. O mesmo poder é exercitado pelo Espírito de Deus ao operar a fé. 


    O Espírito ilumina a mente e subjuga a vontade. A vontade se compara a uma fortaleza que resiste a Deus. O espírito conquista a fortaleza com uma doce violência, ou melhor, ele a transforma fazendo que o pecador deseje Cristo de qualquer maneira, que seja governado por ele, assim como salvo por ele.

    Thomas Watson (1620-1686)