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    A porta do inferno é fechada por fora ou por dentro?




    "Deus não manda ninguém para o inferno, as pessoas escolhem ir para lá." - Essa frase revela, mas também esconde muito. É verdade que todos os homens que rejeitam a Deus serão para sempre separados do seu amor após sua morte. Alguns trazem a imagem da porta do inferno trancada por dentro.


    Olhar o inferno assim é uma tentativa de dizer que Deus não manda pessoas para o inferno. Uma tentativa de separar Deus da ideia do inferno. Como se o inferno tivesse se criado sozinho... Que tão somente as pessoas andaram para lá. Mas isso é apenas parte da verdade.


    É comum, e mais palatável, abraçarmos meia verdade por ser mais confortável para nós. É comum então falarmos sobre o inferno como algo que simplesmente os ímpios impuseram a si mesmo, escolhido além de Deus. Ou seja, o inferno não é o lugar para onde Deus envia o ímpio, mas o ímpio simplesmente o escolhe ou cria essa situação para si mesmo, se tranca lá dentro fechando a porta por dentro por toda a eternidade.


    Podemos ver esta visão claramente, por exemplo, numa obra famosa de C. S. Lewis – O Grande Divórcio – Onde vemos o inferno como a nossa própria auto-absorção idólatra por toda a eternidade. Ou seja, é simplesmente Deus dizendo: “Tua vontade será feita”, por termos nos recusado a vida inteira a dizer a Deus: “Seja feita a tua vontade”.


    A porta do inferno então, está fechada por toda a eternidade, mas tão somente por dentro – ao nos recusarmos a desistir do inferno dentro de nós – auto-absorção idólatra, temos o inferno então ao nosso redor.


    Olhar assim nos faz ver verdades importantes e pode ser útil, mas só até certo ponto. Aprendemos por exemplo que ninguém no inferno é verdadeiramente penitente. O que é verdade. Deus não pune pecados cometidos nesta vida, e em seguida mantém essa condenação eterna para homens que possam a eternidade derramando seus corações em genuíno arrependimento e fé. Não, o condenado nunca se converte de sua rebelião. Eles podem se arrepender das escolhas que os levarão até ali – como um assassino preso – mas não da rebelião e “prazeres” que levaram as escolhas. Como o homem rico em Lucas 16, lamenta as escolhas, mas nunca realmente se arrepende da rebelião,  de ser seu próprio deus e do desprezo da glória infinita de Deus.


    Por que ninguém no inferno é penitente? Mesmo aqui na terra, o arrependimento é um dom da graça de Deus -  Deus, por exemplo,não proveu arrependimento, perdão, salvação para os anjos, como diz Hebreus: “Pois é claro que não é a anjos que ele ajuda, mas aos descendentes de Abraão.” - Hebreus 2:16 – Mas aos “descendentes” de Abraão, segundo a graça. Aprouve a Deus ter misericórdia e benevolência tão somente segundo o beneplácito da sua vontade. Se assim desejasse poderia agir com todos os homens como agiu com os anjos, exercendo justiça. Mas nos é dito: “Nele fomos também escolhidos, tendo sido predestinados conforme o plano daquele que faz todas as coisas segundo o propósito da sua vontade” - Efésios 1:11


    A descrição de C. S.Lewis do inferno também é um bom lembrete de que Deus muitas vezes nos entrega totalmente ao nosso desejo pecaminoso. Romanos 1 deixa isso claro. E você pode ver este juízo claramente em nossa cultura. Parte de nossa punição é que Deus diz mesmo aqui no mundo: "Tudo bem, prossigam em seus caminhos pecaminosos. “O inferno é, nesse sentido, Deus nos dando o que queríamos!” – Distância dEle.


    Mas temos que ter grande cuidado para não confundir de forma alguma uma meia-verdade com a verdade inteira – senão, perdemos a verdade.


    Se pararmos aqui sobre o ensino sobre o inferno, estamos construindo uma visão totalmente distorcida da justiça divina, da punição divina. Só esta metade que vimos, nos dará uma visão enganosa. Não é só que a porta do inferno é “fechado por dentro” – O inferno é uma realidade infinita porque Deus, a glória de Deus é ofendida por nossos pecados – Podemos ver em toda a Bíblia que a ira divina é uma maldição sobre o pecado, e não meramente uma consequência poro nossas decisões centradas em nós mesmos. É algo judicial, como Cristo experimento na cruz. É muito mais do que Deus simplesmente deixar o homem experimentar as consequências e os efeitos ruins de suas escolhas. Ou seja, no inferno Deus é ativo, mas apenas em ira santa derramada em sua justiça infinita.

    Todo o tecido das Escrituras demonstra que Deus faz muito mais do que simplesmente abandonar e permitir que as escolhas ruins tomem seu próprio curso e transbordem em más consequências não planejadas. Não, de fato Deus ativa e decisivamente pune os que violam a lei e desprezam a glória do infinito Criador e doador de todas as coisas.

    No Éden, Deus simplesmente não se afastou e deixou as escolhas levarem a consequências ruins e não planejadas – Não, Deus amaldiçoou a serpente, a mulher, o homem e toda a terra. ( Gn 3.15,16; 23,24). Aqui, no primeiro passo da história do pecado neste mundo, a desobediência não resulta apenas em consequências ruins não planejadas, mas resulta em maldição divina.

    Poderíamos mencionar o Dilúvio, Sodoma e Gomorra... mas o passeio por toda a Bíblia seria longo demais para esse breve texto.

    E toda a linguagem que vemos no Velho Testamento, está claramente presente no Novo. E não somente nas epístolas, Mas principalmente na boca de Jesus. Jesus fala mais sobre o inferno do que qualquer outro personagem na Bíblia – “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo.” - Mateus 10:28


    O claro ensino de Cristo é que Deus não apenas deixa o homem colher as consequências... mas que Deus iria punir o pecado. Em Romanos 1 vemos Deus deixando o ímpio colher o resultado dos desejos pecaminosos de seus corações, mas em Romanos 2 vemos claramente a ira sendo guardada, armazenada: “Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus” - Romanos 2:5


    O apóstolo Pedro adverte: “Mas os céus e a terra que agora existem pela mesma palavra se reservam como tesouro, e se guardam para o fogo, até o dia do juízo, e da perdição dos homens ímpios.” - 2 Pedro 3:7 – Essa é uma advertência constante em todas as epístolas. É o claro pensamento sobre  o juízo de Deus.


    O inferno é a separação eterna de Deus, e é passar a eternidade sem Cristo... mas a Bíblia não para aí – Podemos usar isso apenas como eufemismo para esconder a ideia – desagradável para nossa cultura – sobre o juízo eterno de Deus e a maldição de Deus sobre os ímpios.


    Ao falarmos apenas do castigo eterno como uma “eternidade sem Cristo”, ou “estar separado de Deus”, ou o inferno que nós escolhemos e mantemos fechado por dentro, não é ser fiel a todo ensino das Escrituras.


    É óbvio que Adão não “escolheu” ser expulso do Jardim, não “escolheu” morrer, a terra não produzir... Deus amaldiçoou, Deus puniu ativamente e trouxe Juízo...  A ira de Deus não é apenas o resultado, é uma recompensa vinda das mãos onipotentes de um Deus santo. O inferno não é apenas consequência natural... isso se tornou popular para justificar a rejeição da ideia de que Deus envia pessoas para lá. De fato as pessoas fazem escolhas que acabam no inferno – mas essa não é toda a verdade – é por isso que é chamado de castigo eterno – “E estes irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna” - Mateus 25:46 – Não é mera consequência auto-imposta ( como comer gordura leva ao infarto ) – é a pena da ira de Deus como Juiz.


    E se alguém não pode crer em Deus como um Juiz que condena eternamente, não pode crer em Deus como um Juiz que justifica para sempre.

    Portanto, não podemos falar do inferno como uma mera consequência. Muitas passagens bíblicas, como vimos, descrevem Deus ativamente julgando. Não é um Deus impotente dizendo: fiz o melhor que pude... O próprio Cristo dirá: “Nunca vos conheci! Apartai-vos de mim...” (Mt 7.23). Cristo contou parábolas que retratam as pessoas nas trevas exteriores onde “há choro e ranger de dentes”. A história de Lázaro e o homem rico em agonia. É óbvio que na história o rico queria alívio, se pudesse abrir as portas e escapar.

    A verdade assustadora que vemos nas Escrituras é que a condenação eterna não é a AUSÊNCIA de Deus, mas a Sua presença em sua IRA.

    Isso é popular? É claro que não! A própria ideia do julgamento e castigo tem conotação negativa para o homem natural e nossa sociedade. Mas frases de efeito não podem esconder parte da verdade. A ira de Deus manifestada no inferno é algo do qual não podemos e não nos envergonhamos como se isso fosse uma mácula em Deus. Pelo contrário, essa é uma expressão de Sua santidade absoluta. O verdadeiro cristianismo confronta os nossos pressupostos e nos mostra a realidade de um Deus que se revelou em seu amor e misericórdia e em sua ira.

    Da mesma forma que é glorioso e majestoso o retrato no Novo Testamento de ressurreição e da nova criação... é horrível e terrível  o retrato que ele pinta da ira de Deus contra o pecado.

    Por natureza todos os homens nascem não filhos do amor, mas filhos da ira: “Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também.” Efésios 2:3


    A esperança não está em frases de efeito que ocultem parte da verdade: “"Deus não manda ninguém para o inferno. As pessoas escolhem ir para lá."  A única esperança não é esconder a ira de Deus que se revela agora e para sempre no inferno. A esperança está unicamente na verdade sobre a sabedoria infinita de um Deus que estabeleceu um modo, na cruz, de satisfazer sua ira santa, e tornar filhos da ira em Seus filhos.