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    Você está cercado!





    Para nós, todos os sentidos, todos os membros, todas as criaturas, todas as misericórdias e todas as responsabilidades são um laço. Mal podemos abrir os olhos, e já estamos em perigo. Se consideramos os outros acima de nós, corremos o risco da inveja; se os consideramos inferiores a nós, corremos o risco do desdém. Se o que vemos são prédios suntuosos, casas agradáveis, honras e riquezas, corremos o risco de nos deixar levar pelos desejos cobiçosos; se o que vemos são os trapos e a pobreza dos outros, corremos o risco da inclemência e dos pensamentos em que aplaudimos a nós mesmos; se o que vemos é a beleza, essa é uma isca para a cobiça; se o que vemos é a deformidade, essa é uma isca para o desprezo e a aversão.


    Mal podemos ouvir uma palavra, e já ela representa um motivo para a tentação. E, por essa passagem, muito rapidamente relatos difamadores, zombarias vis, falas devassas insinuam-se em nosso coração! Como nosso apetite pela tentação é forte e dominante, e como isso exige vigilância firme e constante! Temos graça e beleza? Que combustível para o orgulho. Temos alguma deformidade? Que oportunidade para o lamento. Temos bom raciocínio e facilidade para aprender? Como é difícil não se orgulhar disso! Impulsionar a nós mesmos; caçar aplauso; desprezar nossos irmãos; desgostar-se da simplicidade que há em Cristo: tanto na essência quanto no estilo das Escrituras, na doutrina, na disciplina, na adoração e nos santos; prestigiar um culto pomposo, carnal e ilusório a Deus e exaltar a razão acima da fé. Somos pessoas cujas mentes são superficiais e incultas e cujos membros são insuficientes? Como somos aptos a desprezar o que não temos e a subestimar o que não conhecemos; e a errar confiantes graças a nossa ignorância: e se a presunção e o orgulho se fizerem presentes, tornamo-nos, com o pretexto da santidade e da verdade, zelosos inimigos da verdade e principal perturbador da paz na igreja.


    Somos homens eminentes e ocupamos cargos de autoridade? Quão forte é nossa tendência de diminuir nossos irmãos, de abusar de nossa confiança, de impulsionar a nós mesmos, de fundamentar-nos em nossa honra e privilégios; de ignorar a nós mesmos, a nossos irmãos pobres e ao bem de todos: como é difícil devotar nosso poder à glória do Senhor, de quem o recebemos; como somos propensos a tornar nosso desejo nossa lei e a eliminar toda a alegria dos outros, tanto religiosos quanto leigos, por intermédio de nossas malditas regras e detestáveis modelos que apenas buscam satisfazer nosso próprio interesse e diretriz! Somos inferiores e vassalos? Como somos propensos a julgar a importância dos outros e tomar a liberdade de apresentar todas suas ações no tribunal de nosso incompetente julgamento; e a censurá-los, e a difamá-los, e a murmurar a respeito das medidas adotadas! Somos ricos e não somos muito exaltados? Somos pobres e não estamos descontentes e tornamos nossas necessidades um pretexto para roubar a Deus em todo seu serviço?



    Mas para sempre seja abençoado o amor onipotente que nos salva disso tudo, e que faz com que nossas restrições e dificuldades resultem nos benefícios da glória de sua graça salvadora. No céu, o perigo e os problemas ficam para trás; não há nada exceto o que promove nossa alegria.


    Descansamos das tentações, como também dos abusos e das perseguições que sofremos nas mãos de homens perversos. Não mais seremos desprezados, escarnecidos, aprisionados, banidos, massacrados; as orações da alma derramadas diante do altar de Deus serão respondidas, e Deus vingará o sangue deles sobre os que habitam na terra. Este é o tempo em que os santos receberão a coroação com espinhos, os tapas e as cuspidas; aquele é o tempo para sermos coroados com glória.

    Agora, devemos ser odiados por todos os homens por causa do nome de Cristo e do evangelho; depois, Cristo será admirado em seus santos que foram odiados desse modo. Agora, por não sermos do mundo, pois Cristo nos tirou do mundo, o mundo, portanto, realmente nos odeia; depois, por não sermos do mundo, pois fomos retirados de suas calamidades, o mundo, portanto, realmente nos admirará.. Agora, da mesma forma que odiaram a Cristo, eles também nos odiarão; depois, da mesma forma que honrarão a Cristo, eles também nos honrarão.

    Quando a onda de perseguições cessar, e a igreja for chamada para sair do deserto, e a Nova Jerusalém descer do céu, e a misericórdia e a justiça forem totalmente glorificadas, então não mais sentiremos a fúria deles. Deixamos tudo isso para trás de nós, assim que entrarmos na cidade de nosso descanso; os nomes lollardista, huguenotes, puritanos não mais serão utilizados; a inquisição da Espanha será ali condenada; os estatutos dos "Seis Artigos" serão ali repelidos; a lei de haereticis comburendis [os hereges devem ser queimados] mais justamente executada; a data do interim [interino] ali se expiará; o consentimento e a obediência não mais serão estimulados; o silêncio e o aprisionamento serão ali mais que suspensos; não há bispos nem cortes do chanceler; não haverá visitas nem julgamentos da Alta Comissão; nem censuras quanto à perda de membros, não haverá a prisão perpétua, nem o banimento. Cristo não será ali vestido com um manto suntuoso nem ficará com os olhos vendados; tampouco a verdade estará revestida com os mantos da mentira, nem será influenciada por aquilo que ela contradiz mais diretamente; não teremos feridas que levem aos cismas, nem se verá um santo sangrando; tampouco nossos amigos nos influenciarão, embora nos confundam com seus inimigos. Ali, não há nada desse trabalho louco e cego.

    Até aquele momento, guarde sua alma com paciência; amarre todo opróbrio como uma coroa para nossa cabeça; considere-o como riquezas maiores que os tesouros humanos; considere motivo de alegria quando enfrentar tribulações. Você, nesses momentos, vê que Deus pode libertar-nos; mas isso não é nada comparado com nossa conquista final. Ele recompensará com tribulação os que lhe causaram problemas; e você que foi atormentado receberá o descanso com Cristo.

    Richard Baxter (1615-1693)