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    Confrontando duramente, amando profundamente!





    Vivemos numa época em que a confrontação é vista como uma dureza que não combina com o amor. Mas o primeiro mártir da igreja nos ensina exatamente o oposto. "Nós devemos Paulo", diz Agostinho, "a morte de Estevão” – Confrontação dura e amor profundo não ficam claro na vida de Estevão?


    Esse deve ser um padrão para nós. Estevão a uma geração dura para com a Verdade de Deus sobre seus pecados de forma clara e dura. Hoje isso seria visto como uma estratégia falha, mas na verdade, a confrontação contra o pecado sempre é abandonada quando o objetivo é a aceitação e não a glória de Deus. Mas Estevão não foi treinado nos nossos “seminários de crescimento” – talvez se fosse, jamais teria sido um mártir.


    Estevão diz: “Vocês são homens de dura cerviz” – Isso é duro! Mas ele também diz: “Senhor Jesus, não lhes imputes o pecado de me assassinar!” – Ah! Isso é amor!


    Para Estevão,  o primeiro mártir da igreja, perdão e confronto não estavam em desacordo de forma alguma. Isso nos ensina a verdadeira natureza do amor com clareza absoluta. Mostra que a dureza na confrontação do pecado, quando flui da visão da glória de Deus que o pecado “rouba”, é grande demonstração de amor.


    Como questionar o amor de um homem que ora por seus assassinos no momento em que está sendo assassinado? E esta é uma oração por perdão verdadeira. Estevão está com seus olhos fixos em Cristo. E perdão verdadeiro envolve tantas coisas. Envolve nós resistirmos todo pensamento de vingança: “Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: "Minha é a vingança; eu retribuirei", diz o Senhor.” - Romanos 12:19. Envolve não ter pensamento de retribuição do mal: “Tenham cuidado para que ninguém retribua o mal com o mal” - 1 Tessalonicenses 5:15 – Envolve desejar o bem como retribuição ao mal recebido: “abençoem os que os amaldiçoam, orem por aqueles que os maltratam.” - Lucas 6:28 – Envolve em jamais se alegrar quando alguém que nos fere sofre: “Não se alegre quando o seu inimigo cair, nem exulte o seu coração quando ele tropeçar” - Provérbios 24:17 – Envolve verdadeira oração de tal maneira que Deus veja a profundidade dos sentimentos verdadeiros que clamam a Ele: “Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem” - Mateus 5:44 – Envolve buscar a reconciliação com o ofensor. Ou seja, que nós não sejamos de forma nenhum o que impede a reconciliação: “Façam todo o possível para viver em paz com todos.” - Romanos 12:18 – Envolve sempre que possível estar envolvido no alívio dos dores que o ofensor sofrer: “Se você encontrar perdido o boi ou o jumento que pertence ao seu inimigo, leve-o de volta a ele.” - Êxodo 23:4 – Esse é o retrato do coração que perdoa.


    Fica óbvio em toda a bíblia que o perdão não é a ausência do desprazer    contra o pecado, ou achar que ele não tem importância. Não é se sentir bem sobre o que é ruim. Estevão não estava minimizando seu assassinato. Nem tentando diminuir o horror que ele é diante de Deus, nem o quanto Deus se ira contra ele em Sua justiça perfeita.


    Quando olhamos o retrato do verdadeiro perdão, podemos ver a face de Estevão nele. No entanto era um homem que confrontou durante aquela geração. Naquele conselho de notáveis, no dia em que Estevão morreu, ele estava de pé e seu discurso gerou um amargor intenso contra ele. A confrontação foi verdadeira e dura. O face dos homens eram a própria expressão do ódio e da raiva, mas a confrontação era tão verdadeira que eles não tinham argumentos para rebater. E eles eram homens instruídos na Lei. Seus corações estavam, portanto, cheios de raiva e fúria.


    Estevão os confrontou duramente – mas quão diferente é a descrição de sua face. “Era como a de um anjo” – nos é dito. Calmo e tranquilo. A paz de Deus estava em seu coração – o que não está em contradição com a dura confrontação. Estevão era mantido e fortalecido por uma confiança  que nada poderia abalar. “Todos os que estavam sentados no Sinédrio olharam fixamente para Estevão e viram que a sua face era como a face de um anjo” – Enquanto ele os confrontou duramente! Como é a face de um anjo? Não sei! Mas nós sabemos que os anjos vivem na presença de Deus e que a luz do amor de Deus reflete em suas faces. Assim era a face de Estevão. E ele os confrontava duramente.


    A face de Estevão sem dúvida brilhava, e o segredo desse brilho estava em seu coração – e não em palavras politicamente corretas, ou bajulações para agradar o “público” – publico esse que acabaria por apedrejá-lo.

    O segredo estava no coração de Estevão, a paz de Deus estava lá, e mesmo quando cresceu a excitação de seus opositores, com os inimigos enfurecidos se levantando para arrebatá-lo, ele não tinha medo – nem tentou uma nova abordagem, uma nova estratégia para “ganhar” o coração do público – Isso é comprometimento com a Verdade que gera a confrontação regida por verdadeiro amor. Um “rosto” de um anjo deve ser gentil e amoroso – pois anjos eleitos jamais conheceram sentimentos de amargura, ódio... Estevão tinha aprendido de seu Mestre a lição de paciência em meio a injustiça, de tal maneira que elas não traçaram linhas escuras em sua face. A “face de um anjo” mostra a força de quem está na presença de Deus. Mesmo com todos contra ele, ele não tinha medo. Ele era forte em Deus.


    Que contraste entre Estevão que confrontava duramente e o Sinédrio. Sua tranquilidade e doçura enfureceu ainda mais os que eram confrontados com a verdade penetrante de suas palavras: “Quando eles ouviram isso, ficaram furiosos e rangeram os dentes contra ele!” – Enquanto aqueles homens, membros da suprema corte dos Judeus, estavam enfurecidos, Estevão estava cheio de paz. Estevão encontrava refúgio certo da contenda das línguas – que tende trazer amargura – na presença de Deus. O segredo está no que o livro de Atos diz: “cheio do Espírito Santo” – quando Deus está enchendo um homem, o espaço  para o medo ou amargura e raiva está ocupado, então não pode ser preenchido por paixões terrenas.


    Estevão “fixando os olhos no céu” – Ah! Isso faz toda a diferença – Se ele não estivesse com olhos fixos aí, em cima, ele não teria visto a glória de Cristo como estava vendo. Olhando para baixo teria visto o perigo e cresceria o sentimento de medo, de conformar seu discurso ao gosto daquele público. Onde nossos olhos estão fixados definem se confrontaremos o pecado e o abandono da Palavra de Deus sem temer o mundo. Os olhos de Estevão não estavam fixos na raiva e fúria dos homens, mas na doce paz do céu acima dele. Como Moisés, ele “ficou firme como quem vê o invisível!”


    Não é maravilhoso que mesmo em meio a circunstâncias terríveis Estevão tenha seus olhos fixados em Cristo? Enquanto as pedras o estão matando, seus olhos estão em Cristo e não nas pedras. É assim, é assim que se sofre bem. Isso é sofrer bem! É assim que ele perdoa. Ele, o primeiro mártir, de certa forma se torna o protótipo para todos os servos sofredores de Cristo. Quando sofremos precisamos ter olhos fixos em Cristo. Não podemos estar fixados em nossas circunstâncias ( nossas “pedras”) – nem se for o caso – naqueles que as jogam. Assim se vence o poder que qualquer sofrimento tem de gerar amargura. Olhos fixos no céu nos faz ver o reino celestial com os olhos da fé. Esta é a única forma de experimentar a alegria que em toda parte o Novo Testamento nos chama a experimentar em meio a dor.


    Samuel Rutherford (1600 – 1661), em uma linda citação que amo, nos lembra de como ver Jesus pode transformar a nossa perspectiva sobre o nosso sofrimento:

    “Meu Senhor Jesus tem recompensado totalmente minha tristeza com suas alegrias e as minhas perdas com sua própria presença. Acho que a coisa infinitamente doce e rica traçar tristezas pelas alegrias do que Cristo é para mim, minhas aflições pela paz doce que tenho nele, por tudo que ele é e será para sempre”.

    Em um mundo que odeia a verdade, devemos ser homens que amam e confrontam duramente. E o segredo de um coração assim é ter olhos treinados para olhar para frente, para o futuro eterno, para o céu... não algumas vezes, mas ter os olhos fixos nisso. Em Deus que é nossa benção, em nossa meta, em nossa casa que não está aqui...


    “Então caiu de joelhos e bradou: "Senhor, não os consideres culpados deste pecado". E, dizendo isso, adormeceu.” - Atos 7:60


    Eu gosto do retrato da morte de Estevão – “Adormeceu” – Não é uma licença poética aqui. Este é a Palavra inspirada de Deus. “Caiu no sono!” – Que imagem de verdadeira paz a palavra sugere – aqui, no meio da fúria e violência da multidão! No meio de toda cena de selvageria Estevão adormeceu. Nós dormimos quando estamos cansados e então acordamos revigorados. Estevão foi enterrado, mas eles não podiam enterrar sua influência. Seu martírio não destruiu sua vida. Sem qualquer sombra de dúvida, ele fez mais morrendo do que poderia ter feito se tivesse vivido por anos pregando a Cristo. O que nos faz lembrar as palavras de Paulo, um dos seus algozes naquele dia – na verdade o principal algoz: “Aguardo ansiosamente e espero que em nada serei envergonhado. Pelo contrário, com toda a determinação de sempre, também agora Cristo será engrandecido em meu corpo, quer pela vida quer pela morte” - Filipenses 1:20


    Dura confrontação, verdadeiro amor e paixão por Cristo não são coisas contraditórias – são verdades que andam juntas.