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    O Homem - Um ser Rebelde! - Francis Schaeffer (1912-1984)




    Os cristãos muitas vezes comentam o quanto ficaram "chocados" por terem observado este ou aquele comportamento. Nós nunca deveríamos hesitar em denunciar algo quando está errado. Mas como podemos ficar "chocados" ou surpresos com os pecados dos outros, se nós mesmos somos igualmente corruptos aos olhos de Deus? Se realmente entendemos o quanto todos nós somos pecaminosos aos olhos de Deus, então estaremos em condições de compreender que estamos no mesmo nível que o resto das pessoas. Do ponto de vista da nossa natureza pecaminosa, estamos todos reduzidos às mesmas proporções.

    Paulo fez desta questão da pecaminosidade humana algo pessoal, incluindo-se na discussão. Ele não estava dizendo "Serão os judeus melhores que os gentios?" Ele estava dizendo "Será que somos melhores, do que eles?" (3.9). Ele se identifica a si mesmo com os seus companheiros judeus. "Seria eu, seríamos nós melhores do que eles?" pergunta ele. E a resposta é: "Não. Nós, inclusive eu, não somos melhores do que eles".

    A citação que Paulo faz do Antigo Testamento certamente teria arrasado os seus leitores judeus - e, por extensão, também os leitores cristãos de hoje. Como alguém pode sentir que está em numa posição confortável diante do Deus santo, só pelo fato de ter uma Bíblia, se a Bíblia mesmo diz que ninguém é justo? Todo aquele que tentar se autojustificar acabará levando só pedradas depois do versículo 12. Ninguém está a salvo só porque se escondeu debaixo das asas protetoras do Judaísmo - ninguém está a salvo só por estar debaixo das mesmas asas do Cristianismo. Ninguém é justo, "nem um sequer".

    Será que isto significa que estamos todos além da esperança? Se todos somos assim tão moralmente corruptos aos olhos de Deus, será que resta alguma esperança para nós? Lembre-se de que neste ponto, em sua carta aos Romanos, Paulo ainda está pregando "a primeira metade do evangelho"; ele continua tentando .mostrar que todas as pessoas necessitam de salvação. Não se esqueça do pressuposto disso tudo: "não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação" (1.16).

    "Mas por que eu preciso de salvação?"
    "Porque você está sob a ira de Deus."
    "E por que eu estou sob ira de Deus?"

    Paulo está respondendo a esta questão na primeira metade do seu comentário ao evangelho (1.18—3.20), e ele prossegue em 3.13, traçando um quadro assustador da raça humana.

    A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos. (3.13-18)

    Que terrível quadro Paulo está apresentando da raça humana dos seus próprios dias. E poderíamos supor que a humanidade de hoje esteja de alguma maneira melhor? Será que a humanidade "progrediu" em termos de moralidade - como tantos querem nos fazer acreditar? A Palavra de Deus certamente diria "Não, nem um sequer!" Podemos até estar progredindo em certo sentido, mas não quanto à nossa postura moral diante de Deus. Não devemos ousar tratar o assustador quadro de Paulo como se fosse uma abstração qualquer. É assim que nós, hu¬manos, somos, e é assim que um Deus santo nos vê.

    Ora, sabemos que tudo o que a lei diz aos que vivem na lei o diz, para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus, visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado. (3.19-20)

    Paulo está agora partindo para a conclusão do seu discurso con¬tra os judeus; mas, da mesma forma como ele tem feito desde o versículo 9, ele vai progressivamente estendendo sua análise para incluir toda a humanidade. Uma vez que nem um sequer, não importa se judeu ou gentio, está guardando a lei de forma perfeita, a única conclusão possível é que toda a humanidade apresenta-se culpada diante de Deus e sujeita ao um devido julgamento. "Visto que... por obras da lei..." Paulo está se referindo não apenas à Lei de Moisés, mas a boas obras de qualquer tipo: "visto que ninguém será justificado diante dele por [boas] obras da lei". O sentido do grego original é ainda mais forte.- "Nenhuma carne jamais será... nenhuma carne poderá jamais ser justificada". Todos aqueles que não têm a Bíblia serão julgados de acordo com o padrão perfeito de Deus, com base no juízo que cada um faz dos outros, como vimos em 2.1.

    Ninguém jamais poderá dizer "segui completamente o padrão, de acordo com o qual eu julguei os outros". E, em seguida, vem o judeu e diz "está certo, acontece que nós temos a Bíblia". E Deus responde: "É verdade, mas também é verdade que você não a seguiu". Portanto, a conclusão a que chegamos é que a nossa situação é simplesmente caótica. "Visto que ninguém jamais será justificado diante dele [de Deus] por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado".

    Chegamos assim ao final da apresentação de Paulo da "primeira metade do evangelho". Ele levou a maior parte do primeiro capítulo, todo o segundo capítulo e grande parte do terceiro capítulo para nos mostrar que precisamos da salvação. O que ele ainda não nos contou foi como ser salvo. A palavra salvação ocorreu somente uma vez, em um dos versículos-chave: "Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação" (1.16). Quer seja no mundo grego e romano humanista, quer no humanismo do século 20, por toda parte ouvimos a mesma queixa-. "Por que eu preciso de salvação?" As pessoas podem até ter todo o tipo de opiniões sobre se Deus existe ou como ele é se ele realmente existir, mas quando elas ouvem falar que Deus diz que devem ser salvas, elas geralmente têm objeções.

    É interessante notar que as pessoas não rejeitam o Existencialismo . da mesma forma como rejeitam o Cristianismo. O existencialista diz que todas as pessoas estão perdidas. O existencialista diz que todas as pessoas estão condenadas. O existencialista diz que não há esperança alguma. Cínicos e niilistas de todos os tipos dizem que não há esperança na vida, a vida é complicada, a vida é impossível, o homem é um zero à esquerda. E é aí que o Cristianismo difere radical-mente do Existencialismo e eis porque as pessoas têm uma reação assim tão forte contra o Cristianismo, mas não contra o Existencialismo.

    O Existencialismo diz que o homem é um zero à esquerda e que está irremediavelmente perdido. Já o Cristianismo diz que o homem está perdido sim, não pelo que ele é, mas devido à forma pela qual ele resolveu agir, por livre e espontânea vontade. Se um homem é condenado pelo que ele é, você não poderia dizer que ele está errado - ele é apenas patético. Mas o Cristianismo diz que o homem não é patético. Na verdade, o homem é uma maravilhosa criação de Deus. Acontece que ele também é um ser rebelado contra Deus e merece a ira de Deus. O homem não ê um ser patético, o homem é um ser rebelde.