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    Quem nos separará do amor de Cristo? - John Stott (1921-2011)




    Quem nos separará do amor de Cristo? (Rm 8.35a) "Aqui nós estamos escalando uma enorme escadaria", e esta última questão é o degrau mais alto. Ao atingi-lo, o próprio Paulo faz agora aquilo que nós vínhamos tentando fazer com relação a suas outras perguntas. Primeiro ele indaga o que irá separar-nos do amor de Cristo e depois olha em volta, em busca de uma resposta. A seguir apresenta uma lista, uma espécie de amostragem, de adversidades e adversários que poderiam ser considerados como algo capaz de interpor-se entre nós e o amor de Cristo. Ele menciona sete possibilidades (35b): começa com tribulação (thlipsis), angústia (stenochoria) e perseguição (diõgmos), que juntos parecem denotar as pressões e aflições resultantes de um mundo ímpio e hostil. Depois cita fome, ou nudez, ou seja, a falta de comida ou vestimenta adequada. Já que Jesus, no Sermão do Monte, prometeu estas coisas aos filhos do Pai celeste, não poderíamos concluir que a ausência delas significa que ele na verdade não se importa conosco?

    Paulo conclui sua lista com perigo, ou espada, provavelmente uma referência ao risco de vida, por um lado, e à experiência da morte, por outro, seja "espada" "o golpe final da espada do bandido ou do soldado inimigo ou do executor". A disposição para o martírio é certamente o teste definitivo da fé e da fidelidade cristã. Para reforçar isso, o apóstolo cita um salmo que descreve a perseguição de Israel pelas nações. O sofrimento deles não era em virtude de haverem esquecido Javé ou se voltado para um deus estranho. Pelo contrário, estavam sofrendo por amor a Javé, justamente por terem sido fiéis a ele:
    Mas, por amor de ti, somos entregues à morte continuamente, somos considerados como ovelhas para o matadouro.

    Mas então, o que dizer destas sete aflições, para não falar de tantas outras? Afinal, a lista poderia ser muitíssimo mais comprida! E claro que são sofrimentos reais — desagradáveis, aviltantes, dolorosos, difíceis de suportar e um desafio à fé. E Paulo sabia do que estava falando, pois ele mesmo havia experimentado todos eles, e piores ainda. É provável que os cristãos romanos também estivessem vivendo provações similares. Com efeito, alguns deles haveriam de passar por isso poucos anos depois, ao serem queimados como tochas vivas para o sádico entretenimento do imperador Nero. Aqueles que, dentre nós, nunca tiveram de experimentar sofrimentos físicos por causa de Cristo talvez devessem ler os versículos 35-39 deste capítulo de Romanos junto com os versículos 35-39 de Hebreus 11; ali se encontra uma lista de pessoas anônimas que foram torturadas, ridicularizadas, açoitadas, acorrentadas, apedrejadas e até serradas ao meio por causa de sua fé. Diante de tal heroísmo, nenhuma demonstração de volubilidade ou complacência é capaz de subsistir.

    Mas será que o sofrimento, a miséria e a perda podem separar de Cristo o seu povo? Não! Pelo contrário, longe de afastar-nos dele, em todas estas coisas (mesmo enquanto as estamos suportando) Paulo ousa afirmar que somos mais que vencedores (hypernikõmen). Pois nós não apenas as suportamos com firmeza e coragem como também triunfamos sobre elas, e assim "estamos ganhando uma vitória gloriosíssima" (BAGD) por meio daquele que nos amou (37). Esta segunda referência ao amor de Cristo é muito importante, e o tempo aoristo demonstra que é uma alusão à cruz. Pelo que parece, Paulo está dizendo que, já que Cristo provou seu amor por nós com os seus sofrimentos, também os nossos sofrimentos não podem de maneira alguma separar-nos do seu amor. No contexto, que iniciou com uma referência ao fato de nós participarmos dos sofrimentos de Cristo

    (17), eles "deveriam ser uma prova da nossa união com o Crucificado, não um motivo para duvidarmos de seu amor".
    Chegamos ao clímax do argumento de Paulo. Ele começou com sabemos (28); agora termina com um tom mais pessoal, ao dizer que estou convencido. O uso deliberado que ele faz da expressão verhalpepeismai, que significa "fui convencido e permaneço convencido", denota a sua convicção firme, consciente e irremovível. Antes ele perguntou se haveria alguma coisa capaz de separar-nos do amor de Cristo (35-36); agora ressalta que nada nem ninguém jamais o fará (37-39). Então seleciona dez itens que, segundo alguns, teriam o poder suficiente para estabelecer uma barreira entre nós e Cristo; ele os menciona de dois a dois, deixando apenas os dois últimos isolados um do outro.

    A expressão nem morte nem vida é, presumivelmente, uma alusão à crise da morte e às calamidades da vida. Já nem anjos nem demônios é mais discutível. Demônios é uma tradução de archai, que em outras passagens é uma referência clara às "forças espirituais do mal". Era de se esperar, portanto, que o oposto, anjos, fosse uma referência ao bem. Mas como é possível imaginar que anjos não caídos ameacem o povo de Deus? Consequentemente, é provável que esta parelha seja mais indefinida, significando simplesmente uma inclusão de todos os agentes cósmicos e sobre-humanos, sejam bons ou maus. Já que Cristo triunfou sobre todos eles e, por isso, estão "sujeitos a ele", é certo que eles não podem nos fazer mal algum.

    Os dois próximos pares, expressos em linguagem moderna, têm a ver com "tempo" (nem o presente nem o futuro) e "espaço" (nem altura nem profundidade), se bem que entre estas duas parelhas haja uma referência a quaisquer poderes; quem sabe "as forças do universo". Algumas destas palavras, no entanto, eram termos técnicos usados para denominar "as forças astrológicas por meio das quais (conforme acreditavam muitos do mundo helênico) o destino da humanidade era controlado". Por outro lado, pode ser que a linguagem de Paulo fosse mais retórica do que técnica, pois ele afirma, à semelhança do Salmo 139.8, que "nem a altura mais sublime, nem a profundidade mais profunda", nem os céus, nem a terra, nem o inferno, nada pode separar-nos do amor de Cristo. Concluindo, ele diz que nem qualquer outra coisa na criação, como se quisesse certificar-se de que a sua lista é suficientemente abrangente e que nada foi deixado de fora. Tudo o que existe na criação está sob o controle de Deus Criador e do Senhor Jesus Cristo. É por isso que nada será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus nosso Senhor (39b).