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    Que comunhão há entre a luz e as trevas? – João Calvino (1509-1564)






    “Pois o que têm em comum a justiça e a maldade? Ou que comunhão pode ter a luz com as trevas?
    Que harmonia entre Cristo e Belial? Que há de comum entre o crente e o descrente?
    Que acordo há entre o templo de Deus e os ídolos? Pois somos santuário do Deus vivo. Como disse Deus: "Habitarei com eles e entre eles andarei; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo".
    Portanto, "saiam do meio deles e separem-se", diz o Senhor. "Não toquem em coisas impuras, e eu os receberei"
    "e lhes serei Pai, e vocês serão meus filhos e minhas filhas", diz o Senhor Todo-poderoso”. (2Co 6.14-18)

    Pois, que participação...? Paulo faz sua exortação ainda mais forte ao mostrar quão absurda e desnaturai é a tentativa de harmonizar coisas que, por sua própria natureza, são opostas, porquanto o cristianismo e a idolatria não podem conviver, como a água e o fogo não o podem. Se o cristão deseja impedir que tudo se precipite em total confusão, então deve ele abster-se das contaminações do mundo ímpio. Daqui podemos inferir que aquele que se condena por causa de práticas supersticiosas em seu coração, significa que ainda está contaminado por elas, a menos que pare de fingir, e assim, publicamente e sem pretexto, tome uma posição definida contra elas.

    15.    E que acordo há entre Cristo e Belial? Nem mesmo os hebreus, entre eles, encontram concordância sobre a derivação etimológica do termo belial; no entanto, o seu significado é plenamente óbvio. Pois Moisés fez com que uma palavra ou um pensamento de belial significasse um pensamento ímpio e aversivo; e em muitas passagens, os criminosos, ou homens que se precipitavam no mal, são chamados filhos ou homens de belial. Isto é o que levou Paulo a fazer, aqui, uso do termo, aplicando-o ao diabo, o principal de todos os praticantes do mal. Desta comparação entre dois cabeças, ele passa imediatamente aos membros, ou seja: "Assim como existe inimizade irreconciliável entre Cristo e Satanás, também deveis manter-vos livres de toda e qualquer conexão com a impiedade." Porém Paulo, ao dizer que o cristão não tem nada em comum com o descrente, não se refere a coisas tais como comida, vestuário, terra, sol, ar, como já ficou esclarecido anteriormente, senão que se refere àquelas coisas que pertencem particularmente à vida dos incrédulos, e das quais o Senhor nos separou.

    16.    E que concordância existe entre o templo de Deus e os ídolos? Até aqui Paulo tem proibido os crentes, em termos gerais, de associar-se com a impiedade. Agora ele cita a principal razão para tal proibição, ou seja, eles tinham cessado de considerar pecado a prática da idolatria. Em sua primeira epístola, Paulo atacara esta atitude licenciosa em Corinto, mas, provavelmente, nem todos eles haviam logrado êxito em levar a bom termo seus conselhos. Esta é a razão por que Paulo se queixa da dureza do coração deles, como a única coisa que os mantém afastados dele. Não obstante, ele não suscita novamente este assunto, mas se contenta com um pequeno lembrete, assim como fazemos com frequência quando tratamos com algo bem familiarizado. Porém, apesar de tudo, sua concisão não o impede de provocar um impacto contundente. Esta frase singular, na qual ele explica que não existe acordo entre os ídolos e o templo de Deus, está entremeada de veemência. Porquanto, é uma profanação sacrílega introduzir um ídolo ou qualquer espécie de culto idolátrico no templo de Deus. Ora, nós somos os genuínos templos de Deus, portanto é sacrilégio macular-nos com qualquer contaminação advinda da idolatria. Eis uma consideração que deveria ser recebida como se tivesse o peso de mil: "Se você é cristão, que interesse o prenderia aos ídolos, uma vez que você é templo de Deus?" Entretanto, Paulo, aqui, está combatendo a idolatria mais a nível de exortação do que de doutrina, como já disse, já que teria sido supérfluo tratar dela em toda a extensão, embora a atitude cristã para com ela sempre foi duvidosa e obscura.
    Como Deus mesmo disse: Habitarei neles. Paulo prova que somos templos de Deus partindo da promessa que uma vez Deus fez ao povo de Israel de que habitaria em seu meio. Notemos, primeiramente, que a única maneira de Deus habitar entre nós é habitando em cada um de nós, e ele nos promete isto como sendo uma promessa muitíssimo especial: "Habitarei no meio de vós." Além disso, essa habitação ou presença não pode consistir meramente na doação de benefícios terrenos, senão que se refere primordialmente à graça espiritual. Portanto, não significa simplesmente que Deus está perto de nós, como se ele estivesse evolando no ar em torno de nós, senão que, antes, ele tem a sua habitação em nossos corações. Se alguém alegar que a preposição 'em' significa simplesmente 'entre', concordo, porém defendo a tese de que, da promessa de Deus de que habitaria entre nós, podemos deduzir que ele igualmente permaneceria em nós. A arca é o símbolo deste fato, a qual é mencionada por Moisés na passagem de onde parece ter Paulo tomado este texto, ou seja, Levítico 26.12. Porém, se alguém presumir que Paulo estava citando, antes, Ezequiel 37.27, o argumento será o mesmo. Porque, na descrição feita da restauração da igreja, o profeta nomeia como sua principal bênção a presença de Deus, a qual, no início, ele prometera através de Moisés. Que esta habitação divina foi prefigurada pela arca, nos foi sobejamente confirmado por Cristo, porquanto ele se nos tornou Emanuel [Deus-conosco]. Minha opinião é que, aqui, quem está sendo citado é Ezequiel, e não Moisés, porque ele não está apenas se referindo ao simbolismo da arca, mas também às profecias de que este simbolismo encontraria seu cumprimento sob o reinado de Cristo. Entretanto, o apóstolo toma por certo que Deus não habita senão num lugar santo. Se você fala de alguém, "ele mora aqui", isto não faz de tal lugar um templo, mas apenas uma casa comum, pois é prerrogativa especial de Deus que qualquer lugar ao qual ele honra com sua presença, igualmente o santifica.

    17. Por esta razão, saí do meio deles. Esta exortação é tomada de Isaías 52.11, onde o profeta, ao predizer o livramento do povo, prossegue falando aos sacerdotes nestes termos. Ele pronuncia estas palavras a "vós que levais os utensílios do Senhor", e isto tem referência aos sacerdotes, pois o cuidado dos utensílios usados nos sacrifícios e outras partes do culto divino foram confiados a eles. Não há dúvida de que o propósito de Paulo é exortá-los a que, enquanto esperavam seu livramento, se pusessem de guarda contra a possibilidade de serem contaminados pelas muitas poluições com que a terra estava dominada. Este fato nos é tão relevante hoje como o foi para os antigos levitas, pois se uma pureza tão grande foi requerida dos guardiães dos utensílios sagrados, quanto mais em se tratando de nós mesmos como vasos de Deus -todos os nossos membros são vasos separados para o culto espiritual de Deus, e nós mesmos somos sacerdócio real. Portanto, visto que fomos redimidos pela graça de Deus, é justo que conservemos a nós mesmos incontaminados de toda e qualquer impureza a fim de não poluirmos o santuário de Deus. Porém, visto que ainda permanecemos neste mundo, ainda que já redimidos e resgatados de suas imundícias, não temos que desistir da vida a fim de desfazermo-nos de toda a impureza, temos, antes, que evitar toda e qualquer participação nele. Podemos sumariar dizendo que, se com um coração sincero lutamos pelas bênçãos da redenção, devemos guar-dar-nos da contaminação por qualquer envolvimento nas poluições morais do mundo.

    18. E serei para convosco Pai. Esta promessa não é feita em apenas uma passagem, mas é frequentemente repetida. Paulo a adicionou aqui a fim de que o conhecimento da grande dignidade para a qual Deus nos levantou possa despertar em nós um maior anseio pela santidade. Pois quando Deus reuniu sua igreja dentre as nações profanas e a restaurou, o resultado desta redenção é para que os crentes sejam considerados como filhos e filhas. Para nós não é uma honra comum sermos reconhecidos entre os filhos de Deus, e devemos, de nossa parte, tomar cuidado para que não nos transformemos em filhos degenerados. Pois para Deus é uma grande afronta quando o chamamos de Pai e ao mesmo tempo nos contaminamos com as abominações da idolatria. A ideia de que Deus nos conferiu grande nobreza deve estimular o nosso anseio por santidade e pureza.