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    Mistério, paradoxo ou contradição? – R. C. Sproul





    A distinção entre contradição e paradoxo é clara. Se entendermos a diferença entre as duas palavras, não tropeçaremos nas mesmas dificuldades que muitas pessoas. Infelizmente, existe outro termo que tende a confundir, que é a palavra antinomia.

    Na filosofia clássica, o termo antinomia é equivalente à palavra contradição. Isto é, em filosofia clássica, uma antinomia é uma contradição.

    Contradição vem do Latim. "Contra" é o prefixo, que significa "contra"; literalmente, uma contradição é falar contra alguma coisa. Isso se torna mais claro quando analisamos a palavra antinomia, que vem do Grego. "Anti" é o prefixo, que significa "contra", e a raiz está na palavra grega nomos, que significa "lei". Uma antinomia literalmente é contra a lei. A lei de que se trata, na origem desta palavra, é a lei da não-contradição. Uma antinomia é uma violação da lei da não-contra-dição e, portanto é uma contradição. Esses dois termos, contradição e antinomia, histórica e classicamente significam a mesma coisa. Infelizmente em nossos dias, são usados diferentemente, e geralmente antinomia é usado como substituto ou equivalente a paradoxo.

    Se consultarmos edições recentes de dicionários, veremos que antinomia e paradoxo são dados como sinônimos para contradição. Como isso se explica? A linguagem flui. Ela é alterada ao longo do tempo. Quando um lexicógrafo inicia a tarefa de definir palavras e preparar um dicionário, ele estuda a "etimologia" da palavra, que envolve pelo menos três principais considerações. Primeiro, procura a origem da palavra. No caso de "contradição", teria o original no latim; no caso de "antinomia", no grego. Depois ele observa o uso histórico. Se dermos uma olhada no conjunto de volumes do Dicionário Oxford, veremos referência de como as palavras foram usadas historicamente. Podem existir citações, por exemplo, de Shakespeare, mostrando como ele, em sua época, usava um termo em particular, e então mostrar como as palavras mudaram com o passar dos séculos. Mas o critério final pelo qual os lexicógrafos definem as palavras é o uso contemporâneo. Eles mantêm seus ouvidos atentos e vêem como as pessoas modernas fazem uso do termo. Se muitas pessoas usam a palavra incorretamente, e fazem isso com muita freqüência, esse uso incorreto formalizado do termo torna-se seu significado correto. Não fico surpreso então, quando vejo alguns dicionários modernos chamando paradoxo e antinomia de sinônimos de contradição, mesmo que historicamente exista uma grande distinção entre eles.

    Entretanto, dado que estamos falando filosófica e teologicamente, estou usando esses termos em seu sentido histórico, e não da forma como eles estão misturados em nossa cultura contemporânea.

    Mistério

    Se existe confusão entre esses termos, torna-se maior quando acrescentamos a próxima categoria dentro dessa mistura — a categoria do mistério.

    Quando afirmamos a doutrina da Trindade, apesar de não sermos capazes de definir o que ela não é (ex.: Ela não é uma contradição), somos, entretanto, incapazes de penetrar nas profundezas do que ela realmente é. De maneira parecida, no Concilio de Calcedônia em 451 a Igreja colocou uma cerca em volta da encarnação. O Concilio afir¬mava que Jesus é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, e que essas duas naturezas são distintas, mas perfeitamente unidas; não são confusas, misturadas, separadas ou divididas. A Igreja, entretanto, não ousou definir exaustivamente como se dá a união dessas duas naturezas; isso construiu uma arena virtual na qual o ortodoxo poderia funcionar. O que a Igreja não articula, é mistério. Ninguém pode descrever com certeza o que aconteceu quando o Verbo se fez carne. Não sabemos como a natureza divina e humana coexistiram na Encarnação. Isso permanece um mistério para nós. Um exaustivo co¬nhecimento de Deus está fora de nosso alcance. Sendo finitos não podemos alcançar o infinito.


    É importante compreender, entretanto, que o fato de algo ser misterioso não invalida sua veracidade. Se fosse assim, o próprio estudo da ciência teria colapso. Ainda há muito que aprender em vários campos como a ciência, matemática, estudos sociais e teologia. Enquanto algumas coisas são mais misteriosas para uma pessoa e menos para outro, ninguém, exceto Deus, tem conhecimento exaustivo do passado, presente e futuro. Ao lidar com um problema elétrico, pode ser mistério para uma pessoa qualquer coisa além de checar o filamento e caixa de fusíveis. Para um eletricista, entretanto, existe muito menos mistério. O mesmo se aplica ao cristianismo. As pessoas podem encontrar todas as sortes de mistérios dentro da fé cristã, mas existem teólogos que estudaram e elucidaram o que é mistério para outros. Teólogos, é claro, não compreendem completamente as coisas de Deus. Podem descobrir que o elucidar de um mistério abre portas para outros mais, provando o provérbio de que quanto mais aprendemos, mais percebemos que pouco sabemos.