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    Os Preceitos da Lei e o Livre-arbítrio – João Calvino (1509-1564)





    Extremamente laboriosos são nossos oponentes em coligir testemunhos da Escritura, e isto fazem zelosamente para que ao menos pelo número nos levem de vencida, já que não o podem pelo peso. Mas, tal como se dá nas batalhas quando a luta vem a ser corpo a corpo, sem importar o que tenha de pompa e ostentação, com uns poucos golpes de imediato se destroça e em debandada se põe a multidão não adestrada para a guerra, assim facílimo nos será desbaratá-los juntamente com sua turba.



    Ora, já que, onde forem distribuídas em suas classes, a pouquíssimos tópicos convergem todas as referências de que usam mal contra nós, uma só resposta será bastante para muitas, nem será preciso aplicar-se a refutá-las uma a uma. A força principal é posta nos preceitos divinos, os quais consideram ser de tal modo ajustados às nossas faculdades, que tudo quanto se prova ser por eles exigido, segue-se necessariamente poder-se cumprir. Portanto, os percorrem a todos, um por um, e deles medem a extensão de nossas forças. Pois, dizem eles, ou Deus está a zombar de nós quando ordena santidade, piedade, obediência, castidade, amor, mansidão, quando proíbe impureza, idolatria, imoralidade, ira, furto, soberba e coisas afins, ou apenas exige aquilo que está em nosso poder.



    Com efeito, quase todos os preceitos que amontoam podem ser distribuídos em três categorias. Uns, em primeiro lugar, requerem a conversão em relação Deus; outros simplesmente falam da observância da lei; outros ordenam perseverar na graça de Deus recebida. Tratemos primeiramente de todas no geral; a seguir desceremos às categorias propriamente ditas.



    Estender as capacidades humanas à medida dos preceitos da lei divina, na verdade começou isto a ser comum já de longa data, e tem alguma consistência, mas afinal provém da mais crassa ignorância da lei. Ora, aqueles que consideram ser grande crime dizer ser impossível a observância da lei, insistem no argumento aparentemente poderosíssimo de que, de outra sorte, a lei foi dada em vão. Pois arrazoam exatamente como se Paulo em parte alguma houvesse falado acerca da lei.



    Pergunto, pois, que lhes significam estas passagens: “A lei foi outorgada por causa das transgressões” [Gl 3.19]; “O conhecimento do pecado é mediante a lei” [Rm 3.20]; “A lei engendra o pecado” [Rm 7.7, 8]; “Sobreveio a lei para que abundasse a ofensa” [Rm 5.20]? A lei deveria limitar-se às nossas forças, para que não fosse dada em vão? Pelo contrário, antes a lei foi posta muito acima de nós, para que nos convencesse de nossa incapacidade. Na verdade, à luz da própria definição do mesmo Paulo, o propósito e cumprimento da lei é o amor [1Tm 1.5]. Com efeito,quando ora para que dele plenifique o coração dos tessalonicenses [1Ts 3.12], confessa sobejamente que a lei nos soa aos ouvidos sem proveito, a menos que Deus nos instile no coração.