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    Livre-arbítrio é um termo vazio – Martinho Lutero (1483-1546)




    Depois de responder aos argumentos de Erasmo tendo como base os apelos aos escritores antigos na afirmação de que a Bíblia não é clara nesses assuntos, Lutero voltou-se para o corpo principal da obra de Erasmo. Lutero lida primeiramente com a definição de livre-arbítrío de Erasmo: "um poder da vontade humana pelo qual um homem pode se dedicar às coisas que o conduzem à salvação eterna, ou afastar-se das mesmas".


    Lutero então apresenta o seu próprio entendimento do que Erasmo queria dizer com livre-arbítrio:


    Suponho, então, que este "poder da vontade humana" significa um poder ou faculdade ou disposição ou atitude para desejar ou para não desejar, para escolher ou rejeitar, para aprovar ou desaprovar e para realizar todas as outras ações da vontade. Agora, o que significa para esse mesmo poder "se dedicar" ou "afastar-se" eu não entendo, a não ser que isso refira-se ao real desejar ou não desejar, escolher ou rejeitar, aprovar ou desaprovar - isto é, a exata ação da própria vontade. Assim, devemos supor que esse poder é algo que acontece entre a vontade e sua ação, algo pelo qual a própria vontade produz o ato de desejar ou não desejar e por meio do qual a ação de desejar ou não desejar é produzida. Nada mais é imaginável ou concebível.

    Lutero vê na concepção de Erasmo uma reversão ao ponto de vista de Pelágio, embora com menor sofisticação. Ele condena o entendimento de Erasmo sobre as discussões filosóficas anteriores sobre essa questão. Ele, então, discute as três visões distintas de Erasmo do livre-arbítrio: "De uma visão sobre o 'livre-arbítrio' você desenvolve três! A primeira, aquela dos que negam que o homem pode desejar o bem sem a graça especial, não começa, não progride e não termina, etc. parece a você 'severa mas suficientemente provável'... A segunda, aquela dos que afirmam que o 'livre-arbítrio' não é útil para nada exceto o pecado, e que só a graça trabalha o bem em nós, etc, parece a você 'mais severa'; e a terceira, a visão daqueles que dizem que o 'livre-arbítrio' é um termo vazio e que Deus trabalha em nós tanto o bem quanto o mal, e que tudo o que acontece, acontece por mera necessidade, parece a você 'a mais severa'. É contra essas duas últimas que você declara estar escrevendo".


    Lutero afirma que as três diferentes visões enumeradas por Erasmo fazem distinções que não há diferenças. Todas as três referem-se à mesma coisa mas com palavras diferentes. Lutero pergunta como Erasmo pode chamar a primeira de "suficientemente provável" quando é claramente divergente da sua própria definição? "Você disse", escreve Lutero, "que o 'livre-arbítrio' é um poder da vontade humana pelo qual um homem pode se dedicar ao bem; mas aqui você diz, e aprova que isso seja dito, que o homem sem a graça não pode desejar o bem".


    Lutero diz: "A definição afirma o que a declaração paralela nega! Assim, no seu 'livre-arbítrio' há, ao mesmo tempo, um sim e um não, e no mesmo fôlego você diz que somos tanto certos quanto errados e que você mesmo é tanto certo quanto errado, sobre uma e a mesma doutrina e artigo! Você pensa que se dedicar ao que produz salvação eterna (como sua definição diz que o 'livre-arbítrio' faz) não é bom? Se houvesse bem suficiente no livre-arbítrio para que ele se dedicasse ao bem, não haveria necessidade da graça! Assim o 'livre-arbítrio' que você define é uma coisa, e o livre-arbítrio que você defende é outra".


    A essa altura, Lutero indica que a definição de Erasmo do livre-arbítrio não requer a graça para se virar para o bem ou para Deus. Se a graça não é requerida, mas meramente assiste o homem, então a definição de Erasmo do livre-arbítrio não é essencialmente diferente da de Pelágio. Mas Lutero observou que o livre-arbítrio que Erasmo definiu não era o livre-arbítrio que ele estava defendendo. Erasmo não se dispôs a defender uma visão pelagiana pura do livre-arbítrio. Em outro lugar do The Diatribe, ele declarou que "a vontade humana, depois do pecado, é tão depravada que perdeu a sua liberdade e é forçada a servir o pecado, e não pode retornar para um estado melhor".


    Se essa é a visão que Erasmo está defendendo, Lutero argumenta, então Erasmo está realmente admitindo algo da própria visão de Lutero: "Se, agora, o 'livre-arbítrio' sem a graça perdeu a sua liberdade, é forçado a servir o pecado e não pode desejar o bem, eu gostaria de saber qual é o legado de todo aquele esforço e diligência da primeira visão, a 'provável'. Não pode ser um bom esforço e diligência, porque o 'livre-arbítrio' não pode desejar o bem, como a concepção declara e você concorda".


    Esse é o clássico argumento reductio ad absurdum. Lutero argumenta "para o homem", assumindo as próprias premissas do seu opositor e as conduzindo para a conclusão lógica. Ele chama a visão de Erasmo de um tipo estranho de paradoxo pelo qual Erasmo afirma final e exatamente o que ele se propôs a negar ou nega o que se propôs a afirmar. Lutero diz que todo o Diatribe é "nada além de um ato nobre do 'livre-arbítrio' se condenando em sua própria defesa, e se defendendo na sua própria condenação".


    Lutero, então, compara essa visão com as duas outras que Erasmo ielineou:

    ...A segunda é "mais severa", aquela que defende que o "livre-arbítrio" não serve para nada além do pecado. Esta, certamente, é a opinião de Agostinho, a qual ele expressa em muitos lugares,'especialmente em seu livro Of the Spirit and the Letter [3.5], na qual usa exatamente essas palavras. A terceira visão é "a mais severa", a de Wycliffe e Lutero: que o livre-arbítrio é um termo vazio...


    ...Eu chamo Deus [como minha] testemunha de que pelas palavras das duas últimas visões, eu nada quis dizer e desejei que fosse entendido além do que é declarado na primeira visão. Também não penso que Agostinho pretendia qualquer coisa além disso, nem deduzo qualquer outro significado das suas palavras além do que a primeira visão afirma. Assim... as três visões pormenorizadas no Diatribe são, na minha mente, nada além da visão que defendo. Por essa vez é admitido e estabelecido que o "livre-arbítrio" perdeu a sua liberdade e está obrigado a servir ao pecado e não pode desejar o bem. Nada posso entender dessas palavras a não ser que o livre-arbítrio é um termo vazio cuja realidade está perdida. Uma liberdade perdida, no meu modo de falar, não é liberdade de forma alguma, e dar o nome de liberdade a algo que não tem liberdade é aplicar a ela um termo cujo significado é vazio...