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    Se amamos apenas aqueles que nos amam... - John Stott (1921-2011)




    O amor humano, até o mais elevado, o mais nobre e o melhor, está até certo ponto contaminado pelas impurezas do interesse próprio. Nós, os cristãos, somos especificamente chamados para amar os nossos inimigos (amor no qual não há interesse próprio), e isto torna-se impossível sem a graça sobrenatural de Deus. Se amamos apenas aqueles que nos amam, não somos melhores do que os vigaristas.

    Se cumprimentamos apenas os nossos irmãos e irmãs, apenas os nossos companheiros cristãos, não somos melhores do que os pagãos; eles também se cumprimentam uns aos outros. A pergunta de Jesus foi: O que vocês estão fazendo mais do que os outros? (v. 47). Esta simples palavra, mais, foi o ponto culminante do que ele estava dizendo.

    Não basta aos cristãos parecer-se com os não-cristãos; nossa vocação ê para ultrapassá-los em virtude. Nossa justiça tem de exceder (perisseusê . . . pleion) a dos fariseus (v. 20) e o nosso amor deve ultrapassar, ser mais do que (perisson) o dos gentios (v. 47). Bonhoeffer explica bem isso: "O fator especificamente cristão consiste no 'extraordinário, no perisson, no invulgar, não natural . . . É o muito mais, o muito superior. O natural é to auto (a mesma coisa) tanto para gentios como para cristãos; o especificamente cristão começa com o perisson ... O essencialmente cristão consiste no 'extraordinário'."


    E o que é o perisson, este "mais" ou "extra" que os cristãos devem exibir? Bonhoeffer responde assim: "É o próprio amor de Jesus Cristo, o amor que sofrendo e obedecendo vai à cruz . . . A essência, o extraordinário do cristianismo é a cruz."  O que ele escrever é verdade. Mas, para sermos mais precisos, a ma¬neira como Jesus o expôs declara que este "super-amor" não é o amor dos homens, mas o amor de Deus que, pela graça comum, concede o sol e a chuva aos ímpios. Portanto, sede vós (o "vós" é enfático, fazendo a distinção entre os cristãos e os não-cristãos) perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste (v. 48). O conceito de que o povo de Deus deve imitar a Deus e não aos homens não é novo. O livro de Levítico repete cerca de cinco vezes este mandamento como um refrão: "Eu sou o Senhor vosso Deus: portanto . . . sereis santos, porque eu sou santo."  Mas, aqui, Cristo nos chama para sermos "perfeitos", não apenas "santos".

    Alguns mestres que ensinam a santidade têm erigido sobre este versículo grandes sonhos quanto à possibilidade de se atingir nesta vida um estado de perfeição sem pecado. Mas as palavras de Jesus não podem ser forçadas para significar algo assim sem provocar discordância no Sermão, pois ele já indicou nas bem-aventuranças que a fome e a sede de justiça são uma característica perpétua dos seus discípulos  e, no capítulo seguinte, ele nos ensina a orar constantemente "perdoa-nos as nossas dívidas". 

    A fome de justiça e a oração pelo perdão, sendo contínuas, são indicações claras de que Jesus não esperava que seus seguidores se tornassem moralmente perfeitos nesta vida. O contexto mostra que a "perfeição" à qual ele se refere relaciona-se com o amor, esse perfeito amor de Deus que é demonstrado até mesmo àqueles que não o retribuem. Na verdade, os mestres nos dizem que a palavra aramaica que Jesus teria usado significava "tudo-abrangente". O versículo paralelo da narrativa de Lucas sobre o Sermão confirma isso: "Sede misericordiosos, como também ê misericordioso vosso Pai."  Somos chamados para ser perfeitos em amor, isto é, para amar até os nossos inimigos com o amor misericordioso e abrangente de Deus.

    O chamado que Cristo nos faz é novo, não apenas porque é uma ordem para sermos "perfeitos", mais do que "santos", mas também por causa da descrição que faz do Deus que devemos imitar. No Velho Testamento encontramos sempre: "Eu sou o Senhor, que vos faço subir da terra do Egito, para que eu seja vosso Deus; portanto vós sereis santos, porque eu sou santo." Mas, agora, nos dias do Novo Testamento, não é mais ao único Redentor de Israel que somos chamados a seguir e obedecer; mas ao Pai celeste (vs. 45, 48). E nossa obediência virá dos nossos corações como manifestação de nossa nova natureza; pois somos filhos de Deus, através da fé em Jesus Cristo, e podemos de¬monstrar de quem somos filhos apenas quando exibimos a semelhança familiar, somente quando nos tornamos pacificadores como ele é (v. 9), apenas quando amamos com um amor todo-abrangente como o seu (vs. 45, 48).

    As duas últimas antíteses da série revelam uma progressão. A primeira é uma ordem negativa: Não resistais ao perverso; a segunda é positiva: Amai os vossos inimigos e procurai o seu bem. A primeira é um chamado para uma não-retaliação passiva, a segunda para um amor ativo. Ou, nas palavras de Agostinho: "Muitos têm aprendido a oferecer a outra face, mas não sabem como amar a pessoa que os esbofeteou."  Portanto, temos de ir além da paciência, até o serviço; além da recusa de retribuir o mal, até a determinação de vencer o mal com o bem. Alfred Plummer resumiu as alternativas como admirável simplicidade: "Retribuir o bem com o mal ê demoníaco; retribuir o bem com o bem é humano; retribuir o mal com o bem é divino."

    Através de toda a sua exposição, Jesus apresenta-nos os modelos alternativos com os quais contrasta a cultura secular à contracultura cristã. Arraigada na cultura não-cristã está a noção de retribuição, a retribuição tanto do mal como do bem. A primeira é óbvia, pois significa vingança. Mas a segunda, às vezes, é sobrelevada. Jesus expressou-a com a frase "fazer o bem aos que vos fazem o bem".  Portanto, a primeira diz: "Você me prejudicou, e eu vou lhe fazer o mesmo", e a segunda: "Você me fez um benefício, e eu lhe farei outro", ou (mais coloquialmente) "amor com amor se paga". Portanto, a retribuição é o método do mundo; a vingança, de um lado, e a recompensa, de outro, devolvendo injúrias e devolvendo favores. Então ficamos quites, nada devendo a ninguém, e acertamos as nossas contas. É o expediente do orgulhoso que não suporta ficar devendo nada a ninguém. É uma tentativa de ordenar a sociedade através de uma justiça dura e imediata que nós nos administramos, de modo que ninguém consegue, de forma alguma, ser melhor do que nós.