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    A Intensidade da Santidade de Deus – J. I. Packer





    O processo de crescimento espiritual abre os olhos do coração do cristão para que ele veja mais claramente, não somente a grandeza do amor de Deus, mas também a intensidade de sua santidade. Já observamos que a "santidade" é a identificação bíblica para tudo que separa Deus da humanidade, com um foco direto no seu poder majestoso e na sua pureza moral. Neste ponto, o nosso foco está direcionado para a questão da pureza moral.

    Uma percepção mais clara da pureza de Deus tem um efeito reflexivo, como se aquela pureza fosse uma luz brilhando dentro dos recônditos do ego e revelando tudo o que está escondido nos meios das trevas que ali existem. Consequentemente, os cristãos conseguem ver, neles mesmos, motivações e atitudes pecaminosas, fracassos, faltas e deficiências, dos quais não se apercebiam antes, simplesmente porque, até agora, sua consciência não tinha acessado suas condutas por meio do brilho da luz de Deus. Dentre as coisas que vêem estão:



            firmes hábitos do pecado;
    •        padrões crônicos de evasão moral;
    •        fraquezas do caráter moral;
    •        desejos que são realmente viciosos;
    •        atitudes que são realmente arrogantes;
    •        falhas comportamentais em virtude do temperamento;
    •        inclinações para agradar-se a si mesmo, acomodar-se e ter autocomiseração;
    •        auto-proteção desenvolvida no interior em razão de feridas passadas;
    •        falhas morais em razão de cicatrizes decorrentes de abusos e da existência do medo.


    Todas estas faltas e muitas outras do tipo são agora intencionalmente liberadas. Temos de confrontá-las. O significado da perfeição moral - perfeito amor, humildade, alegria, paz, bondade, paciência, benignidade, sabedoria, fidelidade, confiabilidade, coragem, e assim por diante - está, agora, mais claro em nossa mente. A distância entre a perfeição e o nosso desempenho, do ponto-de-vista da motivação e da execução, é percebida de forma compulsória. As limitações pessoais, que eram usadas como justificativas, agora parecem indefensáveis. Recuamos e, talvez, até choremos diante da nossa antiga insensibilidade nas questões morais.


    Como aconteceu com Isaías no templo, assim acontece com os cristãos em todos os lugares. Quanto mais claramente eles vêem o quanto Deus é santo, mais dolorosamente eles se convencem do quanto são pecaminosos e corruptos. Uma vez que este tipo de avanço espiritual amplia a percepção da indignidade das nossas próprias falhas, aqueles que se aprofundam na santidade frequentemente pensam que estão retrocedendo. Sua profunda percepção do quanto ainda são pecaminosos, apesar de seu desejo de servir a Deus com perfeição, pesa sobre eles. Como já vimos, isto lhes revela seu próprio lamento na posição do "homem desventurado", ecoando as palavras de Paulo em Romanos 7.24. Muitas vezes, eles ousam imaginar que venceram a inclinação do pecado em algumas das áreas da vida. Repetidas vezes, Deus os humilha, permitindo que descubram que as coisas ainda não são como eles pensam. Sentir que a sua percepção está sempre aquém do seu alcance é angustiante. Embora o conhecimento do evangelho traga alegria em abundância, eles estão, desta perspectiva, angustiados.


    Entretanto, isto não significa que estão em um estado espiritual doentio. O próprio "homem desventurado" de Paulo é o próprio homem dinâmico e espiritu¬almente saudável que está ditando a carta aos Romanos. Sua argumentação levou-o a rever o que a lei diz sobre ele mesmo à medida que trilha o caminho da nova vida em Cristo (Rm 6.1-14; 7.4-6; 8.1-39). Partindo do fato de que ele não conseguia se sentir saudável, ou declarar-se como tal, uma vez que geme diante da realidade de não ser moralmente perfeito como gostaria de ser (Rm 7.22,8.23), alguns inferiram que ou ele realmente não era saudável ou que, em Romanos 7.14-25, ele não estava escrevendo sobre si mesmo, apesar de usar o pronome "eu" e o tempo presente. Segundo eles, nenhuma pessoa espiritualmente saudável poderia ter uma impressão de si mesma como teve Paulo. No entanto, eles estão equivocados.

    A angústia intensa diante das próprias imperfeições, no contexto de um amor intenso pela bondade segundo definição de Deus e um intenso zelo por praticá-la, é o sinal mais evidente possível da santidade de coração, que é o ponto central para a saúde espiritual. O paradoxo -um osso, ao que parece, muito duro de roer - é que o aumento da verdadeira santidade sempre vem acompanhado de um aumento no descontentamento pelo que ainda não foi alcançado. A verdade é que o sentimento de uma expectativa frustrada, expressado pelo coração quebrantado do "homem desventurado", pertence à experiência daqueles que procuram viver no poder do Espírito e, assim, agradar ao seu Deus Salvador.


    Mas esta não é a coisa mais importante a respeito deles, nem também o seu continuado senso de pecado é o melhor indicador do poder do Espírito na vida deles. O sinal mais claro é, simplesmente, o amor por Deus e pelas outras pessoas: amor que, com ou sem muita força de sentimento (porque nem sempre podemos comandar sentimentos fortes), honra a Deus de uma forma ativa por meio de um louvor agradecido e de um serviço constante aos outros, manifesta¬do em forma de uma ajuda útil. O amor que constantemente diz "não" ao que o puritano Richard Baxter chamou de "ego carnal" a fim de constantemente dizer "sim" ao seu próprio chamado generoso é a maior prova do poder do Espírito que alguém pode imaginar.


    Este livro mencionou coisas sobre o amor que tornam qualquer discussão sobre o assunto agora desnecessária. Tudo o que se faz necessário é recordar que o amor, baseado na verdade, é a mais segura manifestação do poder de Deus na vida de uma pessoa. Convém também relembrar que o poder do amor é enraizado na capacidade de receber amor dos outros - em primeiro lugar, do Pai e do Filho.

    Para que (...) sejais fortalecidos com poder (...) a fim de poderdes compreender (...) o amor de Cristo (...). (Ef 3.16-18)

    Pois o amor de Cristo nos constrange. (2Co 5.14)
    (Deus) nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados (...) Amados, se Deus de tal maneira nos amou, devemos nós também amar uns aos outros. (1Jo 4.10,11)
    Nós amamos porque ele nos amou primeiro. (1Jo 4.19)