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    O Verbo se fez Carne - As Duas Naturezas de Cristo – João Calvino (1509-1564)




    Lemos em João 1:14 que o Verbo se fez carne. Não devemos entender com isso que o Verbo foi transformado em carne ou misturado com carne, e sim que escolheu para Si mesmo um templo formado pelo ventre de uma virgem, no qual habitar; e que Aquele que era o Filho de Deus ficou sendo o Filho do homem, não pela confusão da substância mas sim pela unidade de pessoa.


    A divindade foi tão juntada e unida com a humanidade que cada uma das duas naturezas retém integralmente tudo quanto lhe pertence, e, mesmo assim, as duas naturezas se constituem em um só Cristo. Se alguma coisa pode ser achada na terra com que possamos comparar tão grande mistério, é o próprio homem, o qual consiste em duas partes distintas, corpo e alma, os quais, porém, não estão misturados a ponto de perderem aquilo que pertence à natureza de cada. Podemos dizer acerca da alma coisas que não poderiam ser ditas sobre o corpo, e a respeito do corpo coisas que não poderiam ser ditas com referência à alma, e em relação ao homem inteiro algumas coisas que são inaplicáveis à alma e ao corpo separadamente. Outrossim, declarações que se aplicam, a rigor, somente a alma, às vezes são aplicadas por um tipo de transferência ao corpo, e vice-versa. E mesmo assim, aquele que consiste nestas duas partes é um só homem, e não mais do que um.


    Exatamente dessa forma as Escrituras falam de Cristo. Às vezes atribuem a Ele coisas que devem ser atribuídas especialmente à Sua humanidade, às vezes coisas que se aplicam especialmente à Sua divindade, e às vezes coisas que abrangem as duas naturezas e que não podem ser atribuídas apropriadamente a nenhuma das duas naturezas quando consideradas à parte. O todo desta doutrina pode ser comprovado através de muitas passagens das Escrituras, e portanto não é uma teoria inventada pelo homem.


    Quando Cristo disse acerca de Si mesmo, "Antes que Abraão existisse, eu sou", arrogou para Si mesmo alguma coisa muito diferente da natureza humana, algo que claramente pertence somente à Deidade. Quando Paulo fala dEle como sendo "o primogênito de toda a criação, que é antes de todas as coisas, e em quem tudo subsiste" (Col. 1:15-17), e quando Cristo fala da glória que Ele tinha com o Pai antes que houvesse mundo, percebemos que tais declarações não se aplicam a um mero homem. Daí fica claro que estas passagens e outras semelhantes, referem-se à Sua divindade. Quando, porém, é chamado de Servo do Pai (Is. 42:1), e quando se diz que cresceu em sabedoria e estatura, como também em graça diante de Deus e dos homens; quando se diz que não procura Sua própria glória, e que não sabe quando será o último dia, que não fala pela Sua própria autoridade nem pratica Sua própria vontade, então fica evidente que isso se aplica somente à Sua humanidade.

    Há, conforme dissemos, passagens onde aquilo que apropriadamente pertence à natureza humana de Cristo é atribuída à divina. Por exemplo, somos informados que Deus comprou a igreja com Seu próprio sangue, e que o Senhor da glória foi crucificado (At. 20:28; 1 Cor. 2:8); e João assevera que tocou na Palavra da vida. Sabemos que Deus não tem sangue, que Ele não sofre, que não pode ser tocado com mãos, mas visto que Aquele que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem derramou Seu sangue por nós na cruz, aquelas coisas que foram realizadas enquanto na natureza humana são, com muita razão, transferidas para Sua divindade, embora, falando com rigor, não pertençam a ela. Temos um exemplo semelhante quando João ensina que Deus deu a Sua vida por nós (1 Jo. 3:16).

    Mas a verdade concernente à pessoa de Cristo é desenvolvida ao máximo naquelas passagens das Escrituras que se referem às duas naturezas simultaneamente, sendo que muitas delas ocorrem no Evangelho segundo João. Por exemplo, lemos que Ele recebeu do Seu Pai o poder para perdoar os pecados, para vivificar a quem Ele queira e para outorgar a justiça, a santidade e a salvação; que foi nomeado Juiz dos vivos e dos mortos, a fim de que seja honrado como o Pai é honrado; que Ele é a Luz do mundo, o Bom Pastor, a única Porta, a Videira Verdadeira. Com estas prerrogativas o Filho de Deus foi dotado quando foi manifestado na carne, pois embora as possuísse com o Pai antes da fundação do mundo, contudo não as possuía da mesma ma¬neira até que fosse manifestado em carne; porém elas são de tal natureza que não poderiam ser dadas a um homem que nada mais fosse do que homem. Da mesma maneira devemos entender aquela declaração de Paulo, a qual diz que depois do julgamento final Cristo entregará o reino a Deus e Pai (1 Cor. 15:24). Pois é fato certo que o reino de Cristo não tendo começo, não terá fim. Cristo reinará, portanto, até que Se tenha assentado no trono do julgamento. Quando, porém, formos glorificados e vermos Deus como Ele é, então Cristo, tendo cumprido o ofício de Mediador, cessará de ser o mensageiro do Pai e ficará satisfeito com a glória que tinha antes da fundação do mundo. Longe de perder qualquer coisa por entregar o reino ao Pai, será mais gloriosamente revelado. Isto porque a Deidade do próprio Cristo, até então velada em certo sentido, brilhará em todo o fulgor da sua própria glória.

    Se os leitores mantiverem em mente e aplicarem judiciosamente estes princípios de interpretação, escaparão a muitos dos laços e erros em que até mesmo expositores cultos têm caído. Evitarão o erro de Nestório, que divorciou as duas naturezas a ponto de inventar um Cristo duplo, e a loucura de Eutiques, que, desejando demonstrar a unidade da pessoa de Cristo, praticamente negou tanto Sua natureza divina quanto Sua natureza humana.