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    Encaro o sofrimento nos termos de Deus – Joni E. Tada




    Às vezes, é difícil sentirmos esperança. Como na semana passada, quando visitei minha amiga Gracie Sutherlin no hospital. Gracie foi voluntária em nosso Joni and Friends Family Retreats (Retiro de Famílias Joni e Amigos) durante muitos anos, e a despeito de sua idade, 61 anos, ela sempre era viva e ativa com as crianças deficientes em nossos acampamentos. Tudo isso mudou há um mês quando ela fraturou o pescoço num trágico acidente. Gracie tinha sido sempre alegre e esfuziante, mas quando cheguei à UTI para visitá-la, nem mesmo reconheci a mulher deitada na cama do hospital. Com tubos que entravam e saíam dela, um respirador enfiado em sua garganta e pinças do tipo Crutchfield presas a seu crânio, Gracie parecia completamente prostrada. Ela não podia nem respirar por si. Tudo o que conseguia fazer era abrir e fechar os olhos.

    Sentei-me ao lado de sua cama hospitalar. Li as Escrituras para ela. Cantei para ela: "Descansa, ó alma, eis o Senhor ao lado". Inclinei-me o quanto pude para frente e sussurrei-lhe: "Gracie, Gracie, lembre-se. A esperança é uma coisa boa, talvez a melhor de todas. E uma coisa boa jamais morre". Ela piscou e eu soube que reconhecia a frase. E uma fala que aparece no filme The Shawshank Redemption [título com que foi exibido no Brasil: Um Sonho de Liberdade -N.T.].

    The Shawshank Redemption é a história de dois homens - Andy Dufresne, que é injustamente condenado e sentenciado à prisão perpétua, e seu amigo Red. Após muitos anos difíceis na prisão, Andy abre um caminho promissor para si e para Red. Um dia no pátio da prisão, ele instrui Red para que, se ele algum dia ficasse livre de Shawshank, fosse a certa cidade e procurasse certa árvore, numa certa plantação de milho, retirasse para o lado as pedras para descobrir uma latinha e usasse o dinheiro da lata para atravessar a fronteira do México e chegar até uma pequena vila de pescadores. Não muito tempo depois dessa conversa, Andy fugiu da prisão e Red ganha liberdade condicional. Red, amigo fiel que era, acha a plantação de milho, a árvore, as pedras, a lata, o dinheiro - e uma carta em que Andy escrevera: "Red, nunca se esqueça. A esperança é uma coisa boa, talvez a melhor de todas. E uma coisa boa, jamais morre". Nesse momento Red compreende que ele tem duas escolhas: "Ocupe-se em viver, ou ocupe-se em morrer".

    Infelizmente, agora, parece que minha amiga Gracie está ocupada tratando de morrer. Ela está na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, esperando por uma cirurgia no pescoço e tem uma infecção galopante em seu corpo. Os médicos tentam baixar a contagem de glóbulos brancos, mas o quadro não parece promissor. Agora, quando os visitantes chegam para vê-la, ela lhes fecha os olhos. Oh, Gracie, tenha esperança. Ela é uma boa coisa, talvez a melhor de todas.

    A ESPERANÇA É ALGO DIFÍCIL DE APARECER

    Mas a esperança é difícil de aparecer. Eu devia saber. Lembro-me do tempo em que eu estava ocupada em morrer. Depois de haver quebrado o pescoço num acidente de mergulho, passei uma semana sem esperanças no hospital. Tive de suportar longas cirurgias para remover as saliências ósseas em minhas costas e a recuperação foi longa. Eu havia perdido muito peso. E por quase três semanas fui forçada a deitar-me de bruços sobre uma estrutura chamada esteira de Stryker - um longo sanduíche de lona onde eles nos põem de costas durante três horas e, então, prendem outra peça de lona na gente, virando-nos de bruços, onde ficamos por outras três horas.

    Presa com o rosto para baixo, olhando para o chão, horas a fio, meus pensamentos tornaram-se sombrios e sem esperança. Tudo o que eu podia pensar era: "Grande Deus. Que situação! Sou uma cristã recém-convertida. É assim que o Senhor trata seus novos cristãos? Sou jovem na fé. Pedi em oração para andar bem contigo. É essa sua idéia de como responder à oração? Nunca mais confiarei no Senhor fazendo outra oração. Não consigo acreditar que eu tenha de ficar deitada de bruços e não fazer nada senão contar os ladrilhos do piso neste cavalete de tortura. Odeio a minha existência". Pedi ao pessoal da equipe de enfermagem para apagar as luzes, fechar as persianas, fechar a porta e se alguém chegava - um visitante, meus pais - eu simplesmente grunhia. Eu arrazoava que Deus não se importaria se eu me tornasse amarga - afinal, estava paralisada. Não me importava sobre quanta alegria estava por vir. Aquela era uma cruz que eu não carregaria sem lutar.

    Meus pensamentos tornaram-se mais sombrios porque minha amargura não era mais um pequeno filete. Ela se havia transformado numa torrente rancorosa, e no meio da noite eu imaginava Deus segurando o meu pecado diante da minha face e dizendo de modo amoroso, mas firme: "Joni, o que você vai fazer a respeito disso? O que você vai fazer a respeito dessa atitude? Isso está errado. Esse pecado é errado. Livre-se dele". Mas eu, ferida e teimosa, preferia meus pecados. Preferia os comentários mal-humorados, impostores, intolerantes, mesquinhos, que grunhia para as pessoas quando elas entravam ou saíam, e deixava a comida cair da minha boca. Esses foram pecados que eu tomei para mim mesma.

    Você sabe como é quando toma pecados para si mesmo. Você os adota. Você os domestica. Você os protege do escrutínio do Espírito. Eu não queria me livrar do conforto doentio e estranho da minha própria miséria.

    Então, Deus deu-me alguma ajuda. No fim da primeira semana, naquela situação limitadora de três semanas com o rosto para baixo, olhando para o chão, esperando que minhas costas sarassem, apanhei forte resfriado. E subitamente, não poder me mexer não era nada em comparação com não poder respirar. Tornei-me claustrofóbica. Eu sofria. Lutava por ar. Não conseguia me mexer. Tudo era sem esperança. Tudo estava acabado. Eu caía para trás, de ponta-cabeça, prostrada, diminuída.

    E eu me despedacei. Pensei: "Não consigo fazer isso. Não consigo viver desta maneira. Prefiro morrer a enfrentar isso". Mal sabia eu que ecoava os sentimentos do apóstolo Paulo, que em 2Coríntios 1.8 fala de ter se sentido tão assoberbado pela "natureza da tribulação que nos sobreveio [...] porquanto foi acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos até da própria vida". De fato, ele até mesmo tinha em seu coração a sentença de morte. "Oh, Deus, não tenho forças para enfrentar isso. Preferia morrer. Ajude-me". Essa era minha oração. Essa era minha angústia.

    DEUS PODE NOS TIRAR DA DESESPERANÇA

    Naquela semana, uma amiga foi ver-me no hospital enquanto eu estava ainda com o rosto para baixo, contando os ladrilhos. Ela colocou uma Bíblia numa pequena banqueta à minha frente, e pôs a pequena vareta na minha boca de modo que eu pudesse virar as páginas, e então me disse para abrir no Salmo 18. Eu li: "Na minha angústia, invoquei o SENHOR, gritei por socorro ao meu Deus. Ele do seu templo ouviu a minha voz, e meu clamor lhe penetrou os ouvidos. Então, a terra abalou-se e tremeu [.-..] Das suas narinas subiu fumaça [...] Baixou ele os céus, e desceu [...] Do alto me estendeu ele a mão e me tomou; tirou-me das muitas águas" - e aqui está a melhor parte - "porque ele se agradou de mim" (vs. 6-19).

    Eu havia orado a Deus por ajuda. Eu mal conseguia imaginar que Deus partia o céu e a terra, fazendo com que houvesse relâmpagos e raios, e fazendo tremer as fundações do planeta para alcançar-me e salvar-me porque ele se agradava de mim. Ele me mostrou em 2Coríntios 1.9 que tudo aquilo havia acontecido para que eu não confiasse em mim mesma, "e sim no Deus que ressuscita os mortos". E isso é tudo o que Deus quer. Ele quer que eu me considere morta - morta para o pecado -, porque, se Deus pode ressuscitar os mortos, seria melhor que eu cresse que ele poderia me tirar da minha desesperança. Ele a tiraria dali. E ele tem feito isso por quase quatro décadas.

    ENCARANDO O SOFRIMENTO NOS TERMOS DE DEUS

    Não me entendam mal - esse não foi um incidente isolado. Não pude simplesmente deixar meu desespero no hospital ao sair. Não. O desespero é parte da vida de um tetraplégico, dia após dia. Para mim, o sofrimento ainda é como um martelo demolidor, quebrando minhas rochas de resistência a cada dia. É ainda o cinzel que Deus usa para aparar minha auto-suficiência, minha automotivação e minha autocomiseração. O sofrimento é ainda o cão vigilante abanando a cauda e latindo nos meus calcanhares, conduzindo-me pelo caminho do Calvário onde, de outro modo, eu não quereria ir. Minha natureza, minha carne, não deseja suportar situações difíceis como bom sol-dado (2Tm 2.3) ou seguir o exemplo de Cristo (IPe 2.21), ou ainda acolher uma provação como a um amigo. Não. Minha carne não quer regozijar-se no sofrimento (Rm 5.3), ou ser santa como Deus é santo (IPe 1.15). Mas é no Calvário, na cruz, que eu encaro o sofrimento nos termos de Deus.