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    A Alegria que Deus ordena Ele define – J. I. Packer




    Uma alegria como a de Paulo — santa, forte, sustentadora, inextinguível - é verdadeiramente ordenada! "Regozijai-vos, sempre, no Senhor; outra vez digo: [para enfatizar, como quando repetimos as coisas] regozijai-vos" (Fp 4.4). Isto não é uma opção; é uma ordem. Isto é o que Paulo, como porta-voz oficial de Cristo, orienta-nos a fazer. O comando vem do próprio Senhor. Algumas traduções bíblicas passam por alto o que Paulo quer destacar aqui.

    As palavras do apóstolo expressam não apenas um desejo piedoso, mas um imperativo prático, exigindo e obrigando-nos a cultivar a alegria. (O grego permite tal interpretação, mas o uso primitivo de "regozijar", somado ao fluxo do pensamento no contexto, torna improvável a exegese "desejo piedoso".) A prática da alegria, portanto, é uma arte que temos de aprender.

    ALEGRIA DEFINIDA

    A primeira tarefa é discernir o que é, na realidade, a alegria cristã. E o primeiro passo em direção a isto é concentrar as nossas idéias sobre a natureza da alegria. Muitos parecem tropeçar aqui, então começo com algumas declarações negativas para iluminar o chão.

    Negativa número um: Alegria não é a mesma coisa que diversão e brincadeira. Muitas pessoas "divertem-se", como dizemos, buscando e encontrando prazer, sem encontrar alegria. Você pode divertir-se e continuar triste. A busca implacável e incessante do prazer (sexo, drogas, bebidas, jogos eletrônicos, entretenimento, viagens) é uma marca de nosso tempo, ao menos no mundo ocidental próspero. Esta busca indica, claramente, uma carência de alegria. Os cristãos que conhecem a alegria do Senhor descobrem que grande parte da diversão procede daí, mas alegria é uma coisa, e diversão, outra. Em contraste, Paulo não tinha diversão na cadeia (esta parece uma afirmação segura). Contudo, tinha muita alegria. Você pode ter alegria sem diversão, assim como pode ter diversão sem alegria. Não há uma conexão necessária entre ambas.

    Negativa número dois: Alegria não é o mesmo que jovialidade - isto é, a exuberância animadora da pessoa que é sempre a alma da festa. Você pode contar com esta pessoa para as pilhérias e o alvoroço geral, e não há momento tedioso quando ela (ou ele) está por perto. Alguns cristãos são assim; outros não são, e nunca o serão, mas isto é uma questão de temperamento, e nada tem a ver com alegria. Alguém pode ter um temperamento exuberante, e ainda assim carecer de alegria. Outro pode ser uma pessoa retraída, com traços melancólicos, a quem ninguém chamaria de "jovial", e possuir alegria em abundância. Esta é uma boa notícia, pois se a alegria dependesse de um temperamento jovial, metade de meus leitores, e eu com eles, seríamos para sempre privados da alegria. A verdade porém é que, embora os nossos temperamentos difiram, a vida de "alegria no Senhor" é disponível a todos nós.

    Recordo-me de ter ouvido, quando era novo convertido, um pregador insistir, com grande ênfase, que o bom cristão tem cara de chaleira, e não de bule. A típica chaleira inglesa é esférica, e a "face chaleira" é redonda, e com um grande sorriso que vai de uma orelha à outra. O bule inglês, em contraste, é estreito e comprido, e a "face bule" é igual: grave e sombria. Bastante impressionado com isto, senti-me consideravelmente deprimido ao contemplar-me no espelho". Eu entendera que o pregador estivera falando acerca de estrutura óssea, e nossa estrutura óssea não será mudada até que Deus nos dê um novo corpo. Assim, bem ou mal, a minha cara de bule seria minha por toda a vida.

    Aquilo significava que eu não podia experimentar ou expressar a alegria cristã? Nada disso! O ensino do pregador, de que cada crente deve irradiar alegria, estava certo; mas ele o expusera do modo errado. (Talvez, quem sabe, tenha sido traído pelo fato de possuir, ele mesmo, uma bochechuda face de chaleira.)

    i De qualquer maneira, o ponto é que embora algumas pessoas nunca venham a ser tão joviais e animadas como outros de seus semelhantes, tanto as exuberantes como as sossegadas podem co¬nhecer a alegria que é dom de Deus.

    Negativa número três: Alegria não é o mesmo que ser despreocupado. As propagandas que mostram jovens núbeis espreguiçando-se pelas Bahamas buscam persuadir-nos de que "esquecer tudo" e sair de férias é a receita para a alegria. Muita gente concorda. Mas se assim fosse, tão logo as férias chegassem ao fim, e você retornasse às responsabilidades e aos encargos e à abrasividade da vida - o depressivo local do trabalho, a companhia incompatível, os desapontamentos repetidos — a alegria terminaria. A alegria, desta forma, estaria disponível apenas durante trinta e um dias de férias ao ano! Esta é uma idéia escapista de alegria; devemos ser gratos por isto não ser verdade.

    Na noite da traição e do aprisionamento, talvez doze horas antes da sua crucificação, Jesus, que já indicara saber o que o esperava, disse aos discípulos: "Tenho-vos dito isso para que a minha alegria permaneça em vós, e a vossa alegria seja completa" (Jo 15.11). Estas palavras revelam-nos que a alegria era dEle naquele momento, embora não estivesse despreocupado. Semelhantemente, Paulo, na prisão, vivendo com a possibilidade de uma execução sumária, não estava despreocupado. Contudo, desfrutava de abundante alegria. Alegria a despeito da pressão mortífera era uma realidade para Jesus e Paulo, tem sido uma realidade para milhares de cristãos, desde então, e pode ser uma realidade para nós também.

    O que é alegria? Já vimos o que ela não é. Está na hora de uma definição positiva. Embora a alegria espiritual seja o que de fato nos interessa neste estudo, nós a entenderemos melhor se, primeiro, a focalizarmos em sua forma genérica. Eis aqui a minha definição: A alegria é a felicidade do coração, unida a toda espécie de bons sentimentos. A palavra alegria cobre todo o espectro do que pode ser chamado de arrebatador, que vai desde a ânsia extrema do êxtase à sossegada vibração da satisfação. O dicionário Webster define assim a alegria: "Estímulo do sentimento de prazer causado pela aquisição ou expectativa de algo bom; deleite; exultação; recreação do espírito". A alegria é uma condição experimentada, porém é mais que um sentimento; é primariamente um estado mental. A alegria, podemos dizer, é um estado do homem inteiro, no qual o pensamento e o sentimento combinam-se para produzir uma euforia total. A preciosidade da alegria, o seu lugar na vida ideal, e a lástima da sua falta indicam a sua definição.