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    O eu precisa ser crucificado, e Cristo deve reinar - J. C. Ryle (1816-1900)





    O que se requer não é um conserto ou uma alteração, uma pequena limpeza e purificação, um pouco de pintura e remendo, uma folha nova no caderno da vida. É a entrada de algo totalmente novo, o semear em nós de uma nova natureza, de um novo ser, de um novo princípio, de uma nova mente; só isso, e nada menos que isso, poderá vir de encontro às necessidades da alma do homem. Não precisamos apenas de pele nova; precisamos de um coração novo.


    Cortar um bloco de mármore e esculpir dele uma nobre estátua, transformar um vasto deserto em um jardim de flores, derreter uma barra de ferro e forjá-la em molas de relógio - todas essas são mudanças imensas. Contudo, nada são em comparação com a mudança que todo filho de Adão requer, pois aquelas são meramente o mesmo material sob nova forma, a mesma substância noutro formato. Mas o homem requer ser transformado em aquilo que antes ele não possuía. Precisa de uma transformação tão grande quanto a ressurreição dos mortos; precisa tornar-se nova criatura. As coisas antigas terão que passar, e tudo terá que ser novo. Precisa nascer de novo - nascer do alto, de Deus. O nascimento natural não é mais necessário à vida do corpo do que o nascimento espiritual é necessário à vida da alma (ver 2 Cor. 5.17; João 3.3).


    Bem sei que são palavras duras. Sei que os filhos do mundo não gostam de ouvir que têm de nascer novamente. Isso espicaça suas consciências; faz com que se sintam mais longe do céu do que estão dispostos a admitir. Parece uma porta estreita diante da qual estão indispostos a se curvar para entrar, e eles teriam prazer em alargar tal porta, ou subir por outro caminho. Mas não ouso ceder quanto a essa questão. Não posso iludi-las nesta questão, dizendo que as pessoas devem apenas arrepender-se um pouco, despertar algum dom que possuam em seu interior, a fim de se tornarem cristãos genuínos. Não ouso empregar outra forma de linguagem que não a da própria Bíblia; digo, portanto, nas palavras que foram escritas para o nosso aprendizado: "Todos nós precisamos nascer de novo; todos estamos naturalmente mortos, e carecemos de revivificação".


    Se pudéssemos ver Manasses, rei de Judá, em certa época enchendo Jerusalém de ídolos, matando seus filhos em honra a falsos deuses, e depois purificando o templo, acabando com a idolatria e vivendo vida piedosa; se pudéssemos ver Zaqueu, o publicano de Jericó, em certa época enganando, lesando e cobiçosamente levando o que não lhe pertencia, e depois, seguindo a Cristo, dando metade dos seus bens aos pobres; se pudéssemos ver os servos da casa de Nero, em certa época conformando-se com os modos pérfidos de seu senhor, e depois, sendo de um só coração e mente com o apóstolo Paulo; se pudéssemos ver o antigo pai da igreja, Agostinho, em certa época fornicador, e noutra, andando junto a Deus; se pudéssemos ver o reformador Latimer, num certo tempo pregando sinceramente contra a verdade que se encontra em Jesus, e depois, gastando-se e deixando-se desgastar, até à morte, na causa de Cristo - se tivéssemos visto de perto qualquer dessas maravilhosas mudanças, pergunto a cada pessoa sensível; O que diríamos? Ficaríamos satisfeitos em chamar tais transformações apenas de emendas ou alterações? Ficaríamos contentes em dizer apenas que Agostinho "reformou sua conduta", e que Latimer "começou uma nova página de sua vida"? Se disséssemos apenas isso, as próprias pedras clamariam.


    Em todos esses casos, nada menos que um novo nascimento ocorreu, uma ressurreição da natureza humana, uma vivificação dos mortos. São estas as palavras certas. Outros termos seriam fracos, pobres, mendicantes, não-biblicos, e estariam aquém da verdade.


    Não posso esquivar-me de dizer claramente que todos nós precisamos da mesma espécie de mudança, se tivermos de ser salvos. A diferença entre nós e qualquer um dos que citei é muito menor do que parece. Tirando a casca exterior, encontraremos a mesma natureza em nós e neles - uma natureza iníqua, que requer mudança total. A face da terra é muito diferente nos diversos lugares, de climas diversos. Mas o coração da terra, creio eu, é o mesmo em toda parte. Não importa onde formos, sempre encontraremos o granito ou outras rochas primitivas, sob nossos pés, se nos aprofundarmos o suficiente. Dá-se o mesmo com os corações humanos. Seus costumes, suas cores, suas maneiras e suas leis poderão ser totalmente diferentes uns dos outros, mas o homem interior é sempre o mesmo. Seus corações são todos iguais no fundo - pedregosos, duros, ímpios, todos carentes de uma transformação total. O brasileiro e o aborígene de Nova Guiné se encontram no mesmo nível nesta questão: ambos estão mortos por natureza, ambos precisam reviver. Ambos são filhos do mesmo pai Adão que caiu pelo pecado, e ambos precisam nascer de novo e serem feitos filhos de Deus.


    Não importa a parte do globo em que vivamos, nossos olhos precisam ser abertos; por natureza, não vemos a nossa pecaminosidade, a nossa culpa e o perigo que corremos. Não importa a nação a que pertençamos, nossa compreensão tem que ser iluminada; por nós mesmos conhecemos pouco ou nada a respeito do plano de salvação; como os construtores de Babel, planejamos chegar ao céu pelo nosso próprio caminho. Não importa a que igreja pertençamos, nossa vontade terá que ser inclinada na direção certa; por natureza, nunca escolhemos as coisas que nos dão a paz; por natureza, jamais veríamos a Cristo. Não importa a posição que ocupemos na vida, nossos afetos têm que ser voltados para as coisas de cima; naturalmente, só vemos as coisas terrenas, sensuais, efêmeras e vãs. O orgulho tem de dar lugar à humildade, a auto-justificação tem de dar lugar à auto-condenação; o descuido à seriedade, o mundanismo à santificação, a incredulidade à fé. 0 domínio de Satanás deve ser eliminado em nós, e o reino de Deus edificado. O eu precisa ser crucificado, e Cristo deve reinar. Enquanto essas coisas não ocorrerem, estaremos mortos como as pedras. Quando essas coisas começam a ocorrer, mas não antes, começamos a viver.