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    Domínio do Pecado – Abolido! – João Calvino (1509-1564)


    Embora os filhos de Deus sejam libertos do domínio do pecado pela regeneração, não estão tão completamente libertos do pecado a ponto de não terem mais dificuldades com sua carne; pelo contrário, o pecado fornece uma causa perpétua para o conflito, para que assim sejam treinados; e não somente treinados, como também aprendam quais são' as suas próprias fraquezas, E nesta questão concordam todos os escritores cujo julgamento é sadio em qualquer grau; a saber, que as sementes do mal permanecem no homem regenerado, e continuamente produzem desejos maus que o engodam e o incitam a cometer pecado. Ensinamos, portanto, que o pecado sempre habitará nos santos até que se despojem deste corpo mortal, É verdade que se diz que Deus purifica Sua Igreja de todo o pecado, mas atribuímos isto à culpa do pecado, e não à sua habitação na pessoa.

    Ele cumpre Sua promessa para com Seu próprio povo regenerado, isto é, que o domínio do pecado será abolido, pois Ele os supre com o poder do Seu Espírito, a fim de que sejam vitoriosos no conflito; mas embora o pecado cesse de reinar sobre eles, não cessa de habitar neles, e de humilhá-los com a consciência, da sua própria fraqueza. Reconhecemos que seus pecados não lhes são imputados, porém argumentamos que isto se deve inteiramente à misericórdia de Deus para com aqueles que, com justiça, pudessem ser condenados como pecadores perante Ele. E isso pode ser provado pelo claro testemunho das Escrituras, pois o que poderia ser mais claro do que a linguagem de Paulo no sétimo capítulo da sua epístola aos Romanos? Noutro lugar já demonstramos que ali ele fala como um homem regenerado; e nisto concordamos com Agostinho que dá provas sólidas e satisfatórias disso.

    Consideremos, portanto, o que Paulo diz aqui acerca do pecado nos regenerados. Quem poderá negar que a repugnância contra a lei de Deus é pecado (v. 23); ou que a oposição à justiça é pecado (v. 18); ou que a miséria espiritual está ligada com a culpa (v. 24)?

    E, à parte do testemunho de Paulo neste capítulo, é evidente pelo teor da lei de Deus que o mal que habita na pessoa é pecado. Pois somos ordenados a amar a Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, e de todos os nossos poderes; é certo, portanto, que Sua lei não é obedecida por aqueles que tenham o mínimo desejo no seu coração, ou a mínima inclinação na sua mente de abandonar o amor de Deus em troca da vaidade. Portanto, aquele que nega que todas as concupiscências da carne são pecados, devem necessariamente negar que o pecado é a transgressão da lei. Não queremos dizer que aqueles desejos e inclinações que fazem parte integrante da primária natureza humana são pecados; estamos nos referindo àquelas paixões desenfreadas que são opostas aos mandamentos e instituições de Deus.

    Há certos anabatístas dos nossos dias que inventaram a doutrina de que os filhos de Deus são restaurados pela regeneração a um estado de inocência, e não precisam, portanto, preocupar-se em refrear as concupiscências da carne; que são guiados pelo Espírito e, por conseguinte, não podem errar. Se eles não tagarelassem acerca dessas opiniões aberta e orgulhosamente, seria impossível imaginar que a mente humana pudesse atingir tais exageros de loucura. Somente pode ser explicada como uma ilusão à qual Deus, na Sua justiça, os entregou, porque transformaram a Sua verdade em mentira (Rom. 1:25-26; 2 Tess. 2:11-12).

    O Espírito de Deus não é cúmplice de homicídio, fornicação, bebedeira, orgulho, contenda, avareza e engano; é Autor de amor, castidade, sobriedade, modéstia, paz, moderação e verdade. Aprendemos das Escrituras que o Espírito nos é dado a fim de que Ele nos santifique e nos leve a obedecer à justiça de Deus; e que, a despeito da obediência assim prestada à vontade de Deus, somos acometidos por muitas falhas e enfermidades enquanto estamos aprisionados neste corpo da morte. Segue-se, portanto, que devemos sacudir de nós a preguiça e a segurança na carne e vigiar contra os seus laços.

    O apóstolo Paulo, escrevendo aos coríntios, menciona sete coisas como marcas da realidade do seu arrependimento: o cuidado, a defesa, a indignação, o temor, as saudades, o zelo, a vindicta (2 Cor. 7:11). Aqui ele nos ensina que a tristeza segundo Deus dá origem ao cuidado; e é evidente que aquele que realmente se entristece por ter pecado contra seu Deus também será despertado para vigiar contra os laços do diabo e do perigo da segurança na carne. A "defesa" de si mesmo não significa nenhuma negação do pecado ou exaurição da culpa; é um desejo e um esforço no sentido de dar prova prática da sinceridade e do temor piedoso.

    A indignação é a ira do pecador contra si mesmo enquanto reconhece sua perversidade e ingratidão. O temor do qual o apóstolo fala é aquela tremedeira que vem sobre nós quando consideramos o que temos merecido, e reflitimos sobre quão terrível é a ira de Deus contra os ímpios. As saudades me parecem ser o anseio sincero de obedecer a Deus, de abandonar os pecados dos quais somos culpados. O zelo é um efeito semelhante, vindo das picadas da consciência. Finalmente, vem a vindicta, pois uma alma profundamente afetada pelo terror do julgamento divino, deve necessariamente julgar-se digna de castigo, sofrer a dor da vergonha, da confusão, do gemer, da auto-condenação e doutros sentimentos análogos que surgem de uma convicção séria de ter feito o mal. Mas nisto devemos tomar cuidado para não irmos a extremos e sermos tragados pela tristeza.

    Nada é mais natural do que cair em desespero quando a consciência nos aterroriza; e Satanás esforça-se em tais momentos a forçar-nos ao desespero. Daí, embora não seja excessivo nenhum medo que conduz à humilhação — sem nos levar a perder a esperança do perdão — devemos sempre lembrar a advertência do autor de Hebreus no sentido de previnir-nos contra o "não vos fatigueis, desmaiando em vossas almas" (Heb. 12:3). Os frutos do arrependimento são a obediência a Deus, o amor ao homem, e uma vida de santidade e pureza. Quanto mais procuramos conformar nossa vida à vontade de Deus, tanto mais provas damos da sinceridade do nosso arrependimento. Mas os profetas nos ensinam continuamente que obras e observâncias externas são inúteis a não ser que nossos corações estejam correta-mente voltados para Deus, segundo a declaração de Joel, "Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes" (Jl. 2:13).

    O que ali se diz acerca de voltar-se a Deus com o coração inteiro, rasgando o coração e não as vestes, é sempre essencial ao arrependimento verdadeiro; mas o choro e o jejum que o profeta ordena ao povo nem sempre é necessário, mas sim dizem respeito a circunstâncias especiais, e podem ser considerados como uma profissão pública de tristeza quando estamos ameaçados com julgamentos divinos ou em tempos de calamidade pública. Não é sempre necessário demonstrar ao nosso próximo sinais externos do nosso arrependimento; mas a confissão particular a Deus sempre é indispensável. A corrupção da nossa natureza dá motivo para isto durante todo o curso da nossa vida.