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    Também nos gloriamos nas tribulações – John Stott (25 de Abril de 1921)




    As tribulações — ou "sofrimentos", BLH — mencionadas aqui (Rm 5.3-8) - não são aquelas experiências que nós às vezes chamamos de "provações e tribulações" de nossa existência terrena, referindo-nos às nossas dores e penas, temores e frustrações, privações e desapontamentos. A palavra usada é thlipseis (literalmente, "pressões") e refere-se especificamente a oposição e perseguição por parte de um mundo hostil. Thlipsis era quase um termo técnico relativo ao sofrimento que o povo de Deus deveria esperar nos últimos dias, antes do fim. Assim Jesus preveniu seus discípulos de que "neste mundo" eles haveriam de ter "aflições"16 (outra vez, thlipsis), e Paulo, de semelhante forma, advertiu seus convertidos dizendo-lhes que "é necessário que passemos por muitas tribulações para entrarmos no Reino de Deus".

    Qual é a atitude que se espera dos cristãos em face dessas "tribulações"? Longe de meramente suportá-las com resistência estóica, nós devemos regozijar-nos nelas. Mas isso não é masoquismo, a atitude doentia que se revela em deliciar-se na dor. É, antes, reconhecer que, por detrás do sofrimento, existe uma racionalidade divina. Primeiro, o sofrimento é o único caminho para a glória. Com Cristo foi assim; e assim será com os cristãos. Como Paulo irá expressar logo adiante, nós somos "co-herdeiros com Cristo, se de fato participamos dos seus sofrimentos para que também participemos da sua glória" (8.17). É por isso que devemos regozijar-nos tanto nos sofrimentos como na glória.

    Em segundo lugar, se no final o sofrimento conduz à glória, entrementes ele leva à maturidade. O sofrimento pode ser produtivo, se a ele reagirmos com atitude positiva e não com indignação e amargura. Nós sabemos disso, especialmente com base na experiência do povo de Deus em todas as gerações. A tribulação produz perseverança (3, hypomonê, paciência, resistência). Sem sofrer, nós nunca aprenderíamos a ser perseverantes, pois sem o sofrimento não haveria nada para suportar. Em seguida, a perseverança produz caráter aprovado. Dokimê é a qualidade de uma pessoa que foi provada e passou no teste. E uma "força de caráter" (NTV), "a índole de um veterano em oposição à de um soldado raso".1Então, o último elo da corrente é que o caráter aprovado produz esperança, talvez porque o Deus que desenvolve o nosso caráter no presente é digno de confiança também para o futuro.

    Em terceiro lugar, o sofrimento é o melhor contexto no qual podemos ter certeza do amor de Deus. Sei que muita gente dirá logo o contrário; afinal, é o sofrimento que leva muitos a duvidarem do amor de Deus. Consideremos, porém, o argumento de Paulo. Ele elaborou em corrente a sequência de reações: da tribulação à perseverança, da perseverança ao caráter provado, e do caráter provado à esperança. Agora ele acrescenta que a esperança não nos decepciona (5a) — aliás, nunca irá fazê-lo. Ela nunca haverá de trair-nos, provando ser, no final, apenas uma ilusão. Essa esperança não é fantasia. Mas, como se pode ter certeza disso? Qual é a base suprema em que se alicerça a nossa esperança cristã, nossa esperança da glória? É o amor inabalável de Deus. A razão pela qual a nossa esperança nunca nos deixará na mão é que Deus nunca nos abandonará. Seu amor nunca desistirá de nós.

    Mas como é que se pode ter certeza do amor de Deus? Ter certeza do amor dos pais é algo quase indispensável para o desenvolvimento emocional saudável de uma criança. Se há algo que traz realização para o ser humano, é ter certeza do amor do cônjuge ou de um amigo fiel. A certeza do amor de Deus traz bênçãos ainda mais ricas. Este é o maior segredo da alegria, da paz, da liberdade, da confiança e do respeito próprio.
    O apóstolo menciona duas importantes maneiras pelas quais podemos ter certeza de que Deus nos ama. O primeiro é que Deus derramou seu amor em nossos corações, pelo Espírito Santo que ele nos concedeu (5b). Esta é a primeira menção que se faz, na Epístola aos Romanos, sobre a obra do Espírito Santo na vida do cristão; e ela nos ensina algumas lições muito importantes.

    A primeira é que o Espírito Santo é uma dádiva de Deus para todos os crentes (note-se que Paulo está enumerando as consequências da justificação), de forma que é impossível ser justificado pela fé sem que, ao mesmo tempo, se seja regenerado e habitado pelo Espírito. A seguir, ela nos ensina que o Espírito Santo nos foi concedido em um tempo específico (dothentos, um tempo aoristo), a saber, no momento que costumamos chamar de nossa "conversão", ou seja, quando fomos justificados. Em terceiro lugar, uma vez concedido a nós, um dos ministérios distintivos do Espírito Santo é derramar o amor de Deus em nossos corações. E ele o faz de tal maneira que, ao derramá-lo pela primeira vez, gera-se um fluxo permanente em nossos corações (ekkechytai, tempo perfeito). E compreensível que muitos vejam aqui uma referência à efusão do Espírito no Pentecostes, uma vez que ali se usa o mesmo verbo (ekcheõ, "derramar"). No entanto, o apóstolo é muito preciso aqui, ao escrever especificamente, não sobre o derramamento do Espírito, mas sobre o derramamento do amor de Deus por intermédio do ministério do Espírito em nossos corações. O genitivo da expressão "amor de Deus" deve ser seguramente subjetivo, e não objetivo, o que significa que o que se tem em mente é o amor de Deus por nós, e não o nosso amor por ele. "Sob a vívida metáfora de uma chuvarada que cai sobre uma terra seca", o que o Espírito Santo faz é proporcionar-nos a consciência profunda e refrescante de que Deus nos ama. É muito similar à declaração posterior de Paulo de que "o próprio Espírito testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus" (8.16). Existe pouquíssima diferença (se é que existe) entre Deus assegurar-nos da sua paternidade e assegurar-nos do seu amor.

    A esta altura, quem sabe seja conveniente fazermos referência ao que ensinavam alguns teólogos puritanos e que, neste século, tornou-se conhecido através do Dr. Martyn Lloyd-Jones. Segundo eles, esse derramamento do amor de Deus no coração, seria uma experiência subsequente à regeneração, concedida somente a alguns. "Não se pode ser um cristão sem ter o Espírito Santo; pode-se, contudo, ser um cristão sem que o amor de Deus tenha sido derramado no coração ... Nem todos os cristãos passaram por essa experiência, mas ela é aberta para todos; e todos os cristãos deveriam tê-la." Dr. Lloyd-Jones prossegue citando exemplos dos séculos XVIII e XIX, nomes de líderes evangélicos famosos que descreveram como o amor de Deus "parecia ter vindo em ondas, uma após a outra, até eles se quebrantarem sob o efeito da sua glória".

    Agora, não tenho a mínima intenção de negar a autenticidade de tais experiências pós-conversão — experiências mais profundas, mais ricas, mais plenas do amor de Deus, pois elas se encontram bem documentadas em biografias cristãs; na verdade, acho que eu mesmo conheço de experiência própria o que é, em dados momentos, ser tomado de "uma alegria indizível e gloriosa". O que eu questiono aqui é se o propósito primordial de Romanos 5.5 seria descrever experiências incomuns e sobrenaturais que são concedidas somente a alguns, embora sejam experiências "abertas a todos". Eu acho que não. Afinal, Paulo aplica ambas as suas afirmações (que "o Espírito Santo foi concedido a nós" e que "o amor de Deus foi derramado em nossos corações") ao mesmo "nós" que ele tinha em mente no decorrer de todo o parágrafo, a saber, todos os crentes que foram justificados. Não deveríamos, portanto, com base na Escritura como também na experiência, dizer que o Espírito Santo concede a todos os cristãos uma certa medida de certeza do amor de Deus (5.5) e da sua paternidade (8.16)? Ao mesmo tempo, nós admitimos que existem diferentes níveis nos quais essa certeza é assegurada, e que às vezes alguns dentre os filhos de Deus são simplesmente tomados de tanto amor e alegria, que chegam ao ponto de clamar a ele que sustenha sua mão, do contrário eles acabariam sucumbindo diante de tanta pressão.

    Mas Deus tem uma segunda maneira — e esta bastante objetiva — de nos assegurar do seu amor, e é a seguinte: que ele provou o seu amor pela morte de Cristo na cruz. Já antes Paulo havia escrito que Deus demonstrou a sua justiça na cruz (3.25s.). Agora ele vê na cruz uma demonstração do amor de Deus. Na verdade, "demonstrar" é uma palavra demasiado fraca; "provar" seria melhor: pois "Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores" (v. 8, ARA).

    Se quisermos compreender isso, precisamos lembrar que a essência do amor consiste em dar. Pois "Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito...". "O filho de Deus ... me amou e se entregou por mim."Além disso, a intensidade do amor é medida, em parte, pelo preço que custou a dádiva ao seu doador, e, em parte, pelo quanto o beneficiário é digno ou não dessa doação. Quanto mais custa o presente ao doador, e quanto menos o receptor o merece, tanto maior demonstra ser o amor. Medido por esses padrões, o amor de Deus em Cristo é absolutamente singular, pois, ao enviar seu Filho para morrer pelos pecadores, ele estava dando tudo, até a si mesmo, àqueles que nada mereciam dele, exceto juízo.

    O preço da dádiva está claro. Os versículos 6 e 8 dizem apenas que "Cristo morreu". Mas o versículo 10 esclarece quem é esse "Cristo", ao dizer que Deus nos reconciliou consigo mesmo "mediante a morte de seu Filho". Antes disso Deus havia enviado profetas, e às vezes até anjos. Agora, porém, enviou o seu único Filho, e ao dar o seu Filho ele estava dando a si mesmo. E tem mais: ele deu o seu Filho para morrer por nós. Alguns comentaristas parecem ansiosos por acrescentar que aqui não se trata de qualquer doutrina da expiação e seguramente nenhuma doutrina relativa à substituição, uma vez que a preposição usada na expressão "por nós" é hyper ("em nome de") e não anti ("em vez de"). Mas esse é um julgamento superficial. Afinal, o que está escrito é que Cristo morreu por nós "quando nós ainda éramos pecadores" (8); e, sempre que pecado e morte aparecem juntos na Escritura, a morte é a penalidade ou o "salário" do pecado (6.23; cf. 5.12). Sendo assim, a declaração de que "Cristo morreu pelos pecadores", de que a morte foi dele, embora os pecados fossem nossos, só pode significar que ele morreu como uma oferta de pecado, carregando em nosso lugar a penalidade que nossos pecados mereciam. Isso nos ajuda a entender a dimensão do que lhe custou essa dádiva.

    E o que dizer dos receptores? Seriam ou não dignos desse gesto? Nós, por quem Deus fez sacrifício tão grande, somos retratados através de quatro epítetos. Primeiro, somos pecadores (8), isto é, nos desviamos do caminho da justiça, deixamos de corresponder aos padrões de Deus e acabamos nos perdendo. Segundo, no devido tempo ... Cristo morreu pelos ímpios (6b). Ao invés de amar a Deus com todo o nosso ser, nós nos revoltamos contra ele. Terceiro, nós éramos inimigos de Deus (10). Isso com toda certeza significa que nós alimentamos contra Deus uma profunda hostilidade ("a inclinação da carne é inimiga de Deus", 8.7) e ressentimento contra a sua autoridade. Mas nós não podemos nos contentar com a idéia de que só havia hostilidade do nosso lado e absolutamente nenhuma do lado de Deus. Afinal, em 11.28 o contrário de "inimigos" é "amados"; portanto, a palavra "inimigos" também deve ser passiva. O contexto contém referências à ira de Deus (por exemplo, no v. 9), que é a santa indignação de Deus contra o pecado; e já que se diz que a reconciliação entre Deus e nós foi "recebida" (11), isso não pode significar que nós nos arrependemos da nossa hostilidade, mas sim ao fato de Deus ter-se reconciliado conosco. Sanday e Headlam têm certamente toda razão ao concluírem que: "Infere-se que a explicação natural para as passagens que falam de inimizade e reconciliação entre Deus e o homem é que elas não existem apenas de um lado, mas são mútuas.""Além de uma oposição perversa do pecador para com Deus, existe também uma santa oposição de Deus para com o pecador."

    O quarto epíteto com que Paulo nos descreve é que nós ainda éramos fracos (6a); ou seja, éramos incapazes de resgatar a nós mesmos. "Pecadores", "ímpios", "inimigos" e "fracos": que retrato mais horroroso o apóstolo pinta de nós! Mesmo assim, foi por nós que o Filho de Deus morreu. E ele acrescenta: Dificilmente haverá alguém que morra por um justo (provavelmente referindo-se a alguém cuja integridade é uma atitude um tanto fria, clínica e sem atrativos); pelo homem bom (cuja bondade é calorosa, generosa e contagiante) talvez alguém tenha coragem de morrer (7). Mas Deus (o contraste é vívido e destacado) demonstra (NVI) — até mesmo prova (ARA) — seu amor por nós (um amor bem distinto de qualquer outro amor, um amor que é peculiar ao próprio Deus) pelo fato de Cristo ter morrido em nosso favor quando ainda éramos pecadores (nem bons, nem justos, mas ímpios, inimigos e fracos) (8).


    O ser humano pode ser muito generoso e fazer doações a quem ele considera digno de sua afeição e respeito. A majestade incomparável do amor de Deus reside na combinação de três fatores, a saber, que quando Cristo morreu por nós, Deus estava: (a) entregando a si mesmo; (b) submetendo-se aos horrores de uma morte por meio da qual carregaria os pecados na cruz; e (c) fazendo isso por seus inimigos indignos.

    Mas, então, como é que podemos duvidar do amor de Deus? O fato é que nós geralmente ficamos profundamente perplexos diante das tragédias e calamidades da vida. Na verdade, Paulo vem apresentando o seu ensino com respeito ao amor de Deus dentro do contexto da "tribulação", o que pode ser muito doloroso. Mas então nós nos lembramos de que Deus, além de provar o seu amor por nós com a morte de seu Filho (8), ainda derramou seu amor em nós ao dar-nos seu Espírito (5). Tanto objetivamente (através da história) como subjetivamente (pela experiência) Deus nos tem proporcionado ótimas evidências para acreditarmos em seu amor. A integração do ministério histórico do Filho de Deus (na cruz) com o ministério presente de seu Espírito (em nossos corações) é uma das marcas mais salutares do evangelho e que mais nos satisfaz.