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    Morrendo a todo Instante – Francis A. Schaeffer (1912-1984)



    Se, de uma hora para a outra, acontecesse alguma grande catástrofe, se o lugar onde você mora fosse abalado por um grande terremoto e a sua casa caísse toda sobre a sua cabeça, você estaria morto, enterrado debaixo dos tijolos e vigas. Os seus talentos carnais já não interessariam tanto e você não seria chamado para usá-los por nem mais um instante. Você já estaria morto para tudo isso. Eis aí a forma como nós devemos viver as nossas vidas cristãs: como criaturas glorificadas, tomando as nossas decisões racionais e morais pela fé, oferecendo-nos a nós mesmos a Deus. Só então estaremos em condições de, por assim dizer, nos libertar dos tijolos e vigas que estavam nos soterrando. Nós sairíamos com os nossos corpos, por assim dizer, ressurretos na mesma fração de segundo, podendo descer os caminhos estreitos pelo meio da escuridão para dentro de nosso mundo. Neste instante, teremos nos oferecido a Deus.

    Paulo diz que soube de um homem (a maioria dos entendidos em Bíblia desconfiam que era ele mesmo) que ascendeu até o terceiro céu, onde Deus está, para depois de lá voltar novamente (2Co 12.1-4). Se você e eu fôssemos, neste instante, transportados para o céu, e víssemos a sua glória, pureza, esplendor e alegria, para depois voltar para este mundo tão pobre e sórdido, você acha que conseguiríamos ver este mundo com os mesmos olhos? Pois até o mais rico entre nós pareceria pobre e todas as nossas alegrias terrenas pareceriam tristezas. Bem, é dessa forma que somos chamados a viver. Portanto, entregue-se neste instante, por meio da fé, para ser o que você será quando Jesus o ressuscitar dos mortos. Isto é a vida cristã. Pensar que vida cristã é algum ativismo pessoal, o brilho de algum talento pessoal - o dom para falar em público, o dom do canto - pensar que isso é tudo, quão ruim, quão pobre é isto comparado com o real clamor de Deus para se tornar o Mestre das nossas vidas.

    Deixe-me dizê-lo tão sobriamente quanto eu posso: nenhum ministério cristão será real se não for realizado por pessoas verdadeiramente mortas, tanto para o bem quanto para o mal naquele instante, e que  tenham se entregado de forma exclusiva a Deus. As pessoas podem até ser salvas, muitas obras podem estar sendo realizadas, hospitais podem estar sendo construídos, igrejas crescendo, organizações sendo fundadas, denominações sendo inauguradas. Mas tudo isso será defeituoso. Nenhum de nós é perfeito e não temos nenhum instante que seja perfeito, se comparado com a perfeição de Jesus Cristo. Mas poderemos sempre ver casos esparsos, por toda a história da igreja, de homens e mulheres que, com ardente fervor, ofereceram-se verdadeiramente a Deus. Eis aí a diferença entre o que há de mudano no Cristianismo e o que é vivo e está respirando e que abala a alma dos seres humanos.

    Você quer desfrutar a vida? Este é o único momento e a única maneira na qual você jamais irá desfrutar dela de fato. Isso é o oposto do Ascetismo. Não é morte pela morte mesmo. É morte para a vida. Ela inclui a obra para o Senhor, mas ela também inclui o alegrar-se na vida presente. Eis aí a forma como Deus quer que nós vivamos. Qual é a principal finalidade da humanidade, senão glorificar a Deus e alegrar-se nele para sempre? Não há verdadeira glorificação de Deus e nenhuma alegria verdadeira nele, mesmo em meio ao assim chamado "ministério cristão", nenhum desfrute real, básico e profundo do mundo presente de Deus, se nós não morrermos a todos os instantes, e nos dedicarmos intencionalmente a Deus, com base no sangue de Cristo, no poder do Espírito, por meio da fé. Só depois disso podemos voltar para o mundo presente para glorificar e desfrutar do nosso Deus.

    Quando chegamos a este ponto de entrega total a Deus, não só estaremos nos alegrando mais profundamente nele, mas também estaremos encontrando muito maior alegria em todos os nossos relacionamentos humanos naturais. Toda vez que o homem peca, boa parte do relacionamento do homem com Deus se quebra. Mas também há uma quebra no relacionamento do homem consigo mesmo, do homem com outros homens, do homem com a natureza. Em algum grande momento futuro, em que todos os cristãos forem ressuscitados, todos estes relacionamentos alcançarão um ponto perfeito e glorioso; contudo, por meio da fé, já podemos experimentar um pouco desta cura, mesmo na vida presente. À medida que vivemos cada instante da nossa vida "para Deus", como criaturas glorificadas, todos os nossos relacionamentos humanos começam a entrar substancialmente nos seus devidos eixos - não perfeitamente, perceba, mas real e substancialmente. Seu relacionamento com você mesmo, seu relacionamento com outras pessoas, seu relacionamento com a natureza: estes relacionamentos, todos eles secundários se comparados ao nosso relacionamento com Deus, serão desfrutados na medida em que estejamos, naquele preciso instante do relacionamento, por livre escolha, mortos para todas as coisas, e estejamos vivendo fervorosamente para Deus, em comunhão amorosa com ele. É isso que Paulo está dizendo, e ele não está dizendo menos do que isso.

    Paulo não está apenas nos fornecendo este padrão de vida cristã; ele também está nos indicando como segui-lo: "em Cristo Jesus nosso Senhor" (versículo 11 e 23). Pela graça de Deus, poderemos vir a conhecer esta realidade em parte, e estaremos cada vez mais em condições de nos ajudar uns aos outros, para que, por meio da realidade, morramos para todas as coisas, para podermos estar vivos para Deus: que, por meio da fé, possamos viver agora como se já tivéssemos nossos corpos ressurretos; e que, a cada instante, de instante em instante, possamos dar continuidade, não à morte, mas à vida, para a glória de Deus - a fim de que possamos realmente alegrar-nos em Deus e em tudo quanto ele nos dá.

    E, uma vez libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça. Falo como homem, por causa da fraqueza da vossa carne. Assim como oferecestes os vossos membros para a escravidão da impureza, e da maldade para a maldade, assim oferecei agora os vossos membros para servirem a justiça para a santificação. (6.18-19)

    Temos aqui novamente a palavra oferecer. Antes de você ter sido salvo, você se oferecia absolutamente a si mesmo como escravo ao pecado, escravo para rebelar-se contra Deus. Alguém poderia dizer.-"Olhe só aquela mulher ali, aquela prostituta que perambula pelas ruas; eu jamais me ofereci desse jeito". Paulo está se referindo a um oferecer-se para a escravidão do pecado e rebelião contra o Deus que nos fez. Isto certamente diz respeito a coisas como a prostituição, mas também inclui todos os outros pecados, tudo o que envolve rebelião contra Deus - rebelião intelectual, moral e prática.

    "Assim oferecei, agora, os vossos membros para servirem a justiça para a santificação". A santificação é um chamado. É um mandamen¬to. Um dos maiores pontos fracos da maioria das crenças, mesmo daquelas que eu mais aprecio, é a falta de ênfase no que eu chamaria de "lado consciente" da nossa fé, especialmente em termos de santificação e da obra do Espírito Santo. Certamente temos que nos prevenir contra qualquer ensinamento que sugira a possibilidade da perfeição absoluta na vida cristã. Mas nós não podemos cair no outro extremo de deixar de falar da necessidade da nossa entrega consciente ao Espírito Santo. Esta oferta é um mandamento. É um privilégio. É um chamado. É um dever. É uma alegria.

    E não é algo mecânico. De todas as pessoas, somos os que mais deveríamos saber que não é algo mecânico. Deveríamos estar lutando contra o conceito do século 20 de homem como máquina. Nós vivemos em um mundo composto por personalidades reais. Deus é um Deus pessoal. Nosso relacionamento com ele está acima de todos os relacionamentos individuais e pessoais. Nós não somos máquinas. Ele não é máquina. Ele nos chama para agirmos dentro das nossas capacidades, como criaturas morais e racionais, para nos entregarmos a ele.