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    O Poder de Deus é Exercido de Acordo com Seus Propósitos – J. I. packer



    A Bíblia está cheia de referências ao poder de Deus. Ela nos fala dele agindo:


            na criação;

            na providência (regularidades naturais, coincidências significativas, livramentos milagrosos);

            na graça (a vivificação e habilitação de indivíduos para a fé, arrependimento, justificação, serviço e testemunho; também o reavivamento da igreja); e

            na glória futura que será introduzida pelo retorno de Cristo (a reorganização do cosmos, a ressurreição corporal de todos os mortos e a transformação corporal de todos os vivos).

    Em todos estes atos de poder, Deus age soberanamente. Ele está executando seu próprio propósito para cada indivíduo, humano ou angelical, e para a História do universo, sobre o qual ele domina e direciona para a consumação do seu plano eterno.

    No que diz respeito à História deste mundo, a Igreja se encontra no centro. A Bíblia nos diz que a essência do plano é: Jesus Cristo, que já reina sobre este mundo como Senhor, continuará a reinar até que, de um modo ou de outro (as opiniões, entre os cristãos, diferem no "como"), todos os seres racionais reconheçam o seu senhorio. Em um sentido mais amplo, Deus está exercendo o seu poder, aqui e agora, passo a passo, até a consumação final do seu plano.

    Deus fez do seu propósito uma promessa para nós. A Bíblia está cheia de promessas particulares nas quais alguns aspectos do propósito divino são mencionados, formando, assim, uma base para a nossa confiança responsiva. Se não fosse desta maneira, dificilmente poderíamos chamar de contato pessoal o nosso relacionamento com Deus. Os relacionamentos pessoais verdadeiros sempre envolvem compromissos pessoais, e as promessas são as garantias que regulam tais compromissos. Uma promessa é uma palavra que alcança o futuro, criando uma ligação de obrigação por parte daquele que a faz e de expectativa da parte de quem a recebe. Neste sentido, é o que os lógicos chamam de uma palavra "realizadora", ou seja, uma palavra que provoca uma nova situação entre aquele que a fala e o que a recebe. Uma das maravilhas da religião bíblica é que o nosso poderoso Criador resolveu comprometer-se com o uso de seu poder para cumprir cada uma de suas promessas para nós - como Pedro disse: "suas preciosas e mui grandes promessas" (2Pe 1.4).

    Todas as promessas de Deus se relacionam, de um modo ou de outro, com o seu propósito de glorificar a si mesmo, abençoando as criaturas humanas. A Bíblia anuncia os seus propósitos de:

            preservar a ordem natural da terra para a humanidade até o fim da História (Gn 9.8-17);

            manter um relacionamento permanente de aliança com Abraão e seus descendentes, incluindo todos que estão em Cristo (Gn 17.1-8; Gl 3.7-9,14,22-29);

            conceder benefícios particulares ao seu povo, aqui e agora, de acordo com as suas necessidades - perdoando seus pecados, livrando-os do mal, fortalecendo-os em suas fraquezas, confortando-os em suas tristezas, guiando-os em suas perplexidades, e assim por diante;


            enviar Cristo de volta ao mundo, em glória, para criar o novo céu e a nova terra e conduzir o seu povo a um estágio final de incomparável alegria com o seu Salvador.

    Todas as promessas universais de Deus para o seu povo, relacionam-se com o cumprimento de seu propósito de salvação para ele. Ele quer que vejamos isto e nos alegremos.

    As Escrituras também nos falam de Deus dando, e miraculosamente cum¬prindo, muitas promessas específicas para determinadas pessoas - por exemplo, promessas de fertilidade para algumas mulheres estéreis (Gn 17.15-19; 18.10-15; 30.22; Jz 13; ISm 1.9-20; Lc 1.7-20) e para a virgem Maria (Lc 1.26-38). Precisa¬mos ser cuidadosos nas lições que tiramos destes exemplos. Não devemos lê-los como uma promessa universal de gravidez para todas as mulheres que oram para ter um filho. Os exemplos citados apresentam casos nos quais todas as crianças que nasceram tinham papéis especiais no cumprimento dos propósitos divinos para o mundo.

    Nem, só para citar outro exemplo, devemos tratar as narrativas das curas milagrosas de Jesus na Palestina, onde ele evidenciou sua natureza messiânica (Mt 11.2-6), como uma promessa de cura semelhante para todo aquele que ora, pedindo por ela, nos dias de hoje.

    Apesar de estas ressalvas, todas as Histórias bíblicas do cumprimento de promessas específicas pelo poder de Deus, e das manifestações graciosas desse poder em bênçãos, nos recordam o que Deus pode fazer. Elas nos encorajam a descansar em sua onipotência e crer que ele cumprirá suas promessas na nossa vida da forma que entender ser a melhor para nós.

    As questões sobre o poder da oração - o relacionamento entre nossa oração e o poder de Deus que está sendo usado nas situações pelas quais oramos -constantemente nos deixam perplexos. O que dissemos até aqui sugere o caminho para resolvê-las.

    A oração e a vontade de Deus. Primeiro, será que podemos, por meio da oração de petição, controlar e direcionar o poder de Deus? Será que era isto que Jesus queria ensinar quando falou em mover montanhas pela oração (Mt 17.20; 21.21; Mc 11.22-24; cf. ICo 13.2)? É esta a lição que podemos tirar daexperiên-cia de Elias, quando orou para parar e para começar a chover (Jz 5.16b-18)? A resposta mais direta é: não. Não podemos manipular Deus para que faça a nossa vontade quando ela não corresponde à sua vontade para nós. Contudo, ele regularmente deseja nos abençoar, respondendo as orações que nos motiva a fazer, por meio do incentivo encontrado nas Escrituras e do Espírito Santo que aquece o nosso coração.

    Desta maneira, ele realiza dois objetivos ao mesmo tempo. Primeiro, concede boas coisas aos seus filhos, o que ele ama fazer; e, segundo, o relacionamento deles com ele se enriquece por meio da alegria e entusiasmo especial, resultante do fato de ver que as boas coisas foram concedidas em resposta às suas orações. Além disso, existem ocasiões - não muitas, mas elas ocorrem - nas quais Deus concede uma grande clareza a respeito do que o povo deveria orar, e uma grande confiança de que ele responderá a oração (como fez no caso de Elias). A memória de tais ocasiões (ninguém consegue esquecê-las!) permanece como um forte incentivo à oração confiante e cheia de expectativa diante das necessidades.

    Não posso dizer que sei muito a respeito disto. Mas me lembro de um dia de oração por uma instituição cristã, pela qual eu tinha alguma responsabilidade, e que, em virtude de dificuldades financeiras, decidiu-se parar com as suas atividades. Duas horas depois que começamos a orar, eu sabia exatamente o que deveria pedir - um modelo de sobrevivência que envolvia sete itens. Todos eles, naquele momento específico, pareciam ser impossíveis de alcançar, mas, após oito meses, sem nenhuma exceção, todos tinham se tornado realidade. Também me lembro de uma manhã quando, ao caminhar de volta para casa, aproveitei para orar por uma pessoa que faria uma cirurgia de câncer no dia seguinte. Ao aproximar-me de casa, o peso da preocupação desapareceu. Tive uma estranha impressão de que minha oração tinha sido ouvida, e que não precisaria orar mais. Muitos outros estavam orando por esta pessoa, e não sei dizer se também tiveram esta mesma experiência. Tudo o que sei é que, no dia seguinte, o cirurgião não achou nenhum sinal da doença. Esse tipo de anúncio divino no qual Deus diz, antecipadamente, como planeja usar o seu poder é (eu creio) algo muito raro. No entanto, outros me contaram de experiências nas quais Deus os intro¬duziu à sua intimidade, por assim dizer, enquanto estavam orando para que ele usasse o seu poder e lhes mostrasse sua glória em situações particulares. Como eu disse acima, estas coisas acontecem, e nós devemos reconhecê-las e nos alegrarmos com elas.

    A verdade aqui não é que a oração muda a mente de Deus ou o pressione a fazer o que pedimos, mas, em vez disso, que a nossa oração, gerada e mantida como ela é pelo próprio Deus, torna-se o meio de nossa entrada na mente divina. Acabamos pedindo-lhe o que ele já havia planejado fazer. Se queremos ver o poder de Deus em ação, respondendo as nossas orações (e, se não quisermos, algo de errado estará acontecendo conosco), não devemos arrumar um jeito de induzirmos a nós mesmos a pensar que o que escolhemos pedir certamente acontecerá simplesmente por termos garantido a nós mesmos que assim será. Pelo contrário, nossa tarefa é buscar conhecer a mente de Deus sobre as necessidades que nos pressionam e permitir que ele nos mostre (com os detalhes sugeridos pelas Escrituras e pelo Espírito em cada caso) como devemos orar "seja feita a tua vontade" - assim, imitando o caminho da oração de Jesus, no Getsêmani.

    Milagres. Segundo, é correto pedir a Deus que mostre o seu poder por meio de um milagre? Se ficar claro que o fundamento da nossa oração é que "a tua vontade seja feita", nada há de impróprio em dizer para Deus quando pensamos que um milagre - uma coincidência espetacular, ou uma amostra do poder da nova criação em uma cura orgânica, por exemplo - manifestaria a sua glória e a santificação do seu nome. Paulo orou por uma cura milagrosa do seu espinho na carne. Ele não estava errado em fazê-lo, embora o que se revelou como um milagre, não foi a resposta de Deus à sua oração (2Co 12.9). Passaremos por decepções se, quando pedirmos um milagre, não estivermos preparados para descobrir que os planos de Deus são outros. Mas seu poder permanece imenso; e, embora tenhamos de reconhecer que os milagres nem sempre são prováveis, precisamos lembrar que eles nunca são uma impossibilidade.