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    Martinho Lutero - Somos Cativos do Pecado – R. C. Sproul








    Em 1 de setembro de 1524, Desidério Erasmo de Roterdã publicou sua obra intitulada (Diatribe seu collatio de libero arbítrio). Em dezembro do ano seguinte, Martinho Lutero respondeu com o seu famoso (De servo arbítrio). O livro de Lutero era quatro vezes maior do que o de Erasmo e aguçadamente polêmico em estilo.

    Lutero considerava A Escravidão da Vontade o seu livro mais importante porque falava de questões que ele considerava como sendo o cor ecclesiae, o próprio coração da igreja. Em 1537, Lutero observou que nenhum de seus livros merecia preservação a não ser o seu catecismo para crianças e A Escravidão da Vontade. B. B. Warfield chamou A Escravidão da Vontade o "manifesto" da Reforma Protestante. Sigurd Normann, bispo de Oslo, referiu-se a ele como "o mais excelente e poderoso Soli Deo Gloria que foi cantado em todo o período da Reforma," uma avaliação citada com aprovação por Gordon Rupp e por J. I. Packer e O. R. Johnston.

    Lutero começa A Escravidão da Vontade enfatizando a clareza da Escritura nos assuntos da salvação e o papel da Escritura como o árbitro final do debate. Em seguida, ele explica o quanto é importante para o cristão ter uma visão correta da vontade humana e da dependência do pecador à graça de Deus. Ele desaprova Erasmo por ter declarado que o livre-arbítrio chama a atenção para uma das "doutrinas inúteis da qual podemos abrir mão," por dar muito pouca importância às questões envolvidas. Lutero escreveu:

    "É não-religioso, sem propósito e supérfluo", você diz, "querer saber se nossa vontade realiza qualquer coisa em assuntos pertencentes à salvação eterna, ou se é totalmente passiva sob a obra da graça". Mas aqui você fala ao contrário, dizendo que a piedade cristã consiste em "lutar com toda a nossa força", e que "à parte da misericórdia de Deus, a nossa vontade é ineficaz". Aqui você claramente afirma que a vontade é, em algum sentido, ativa em assuntos pertencentes à salvação eterna, porque você a representa como luta; e, novamente, você a representa como o objeto da ação divina quando diz que sem a misericórdia de Deus, ela é ineficaz. Mas você não define os limites dentro dos quais deveríamos pensar da vontade como produzindo e como produzida; você esforça-se por engendrar a ignorância quanto ao que a misericórdia de Deus e a vontade do homem podem realizar, pelo seu próprio ensino do que a vontade do homem e a misericórdia de Deus realmente realizam!

    Esse parágrafo capta a essência do debate entre Lutero e Erasmo e a luta clássica entre o agostinianismo e o semipelagianismo. O foco é sobre a questão da capacidade moral do homem e o grau da sua dependência à graça de Deus. Envolve a questão do teocentrismo versus antropocentrismo na teologia. Ele toca a questão do sola em sola gratia. Ambos os lados afirmavam a necessidade da graça, mas em debate (como no debate sobre a ( justificação) estava o sola. E a questão do monergismo versus sinergismo no início da redenção humana. O fator decisivo na salvação é algo que o homem faz ou algo que Deus faz?

    O fato de Erasmo não parecer compreender a gravidade do assunto obviamente perturbou Lutero. Lutero concluiu: "Não é irreligioso, sem propósito ou supérfluo, mas é salutar, no mais alto grau, e necessário que um cristão saiba se sua vontade tem ou não algo que ver nos assuntos pertinentes à salvação".

    A Vontade de Deus e a Presciência

    Para Lutero, o tema tocava pesadamente na glória de Deus. E uma questão de conhecimento apropriado tanto de si mesmo quanto de Deus. Por essa razão, Lutero forçou o assunto da relação entre a presciencia de Deus e os acontecimentos humanos. A questão da presciencia divina ou conhecimento prévio é normalmente levantada em discussões com relação à providência divina, predestinação e eleição. Ela quase sempre surge quando o lívre-arbítrio é discutido. Se Deus conhece previamente todas as coisas que ocorrem e todas as ações humanas, fazemos todas as coisas necessariamente? Lutero afirma que Deus de fato conhece previamente todas as contingências, porém ele não tem o conhecimento prévio de forma contingente.

    Quando falamos de contingências, queremos dizer ações possíveis. Por exemplo, um jogador de xadrez experiente considera os movimentos possíveis que seu oponente pode fazer em resposta ao seu próximo e próprio movimento. Para esse jogador de xadrez, essas são as contingências, acontecimentos que ele não pode predizer com certeza. Falamos de um plano de contingência, ao qual nos voltaremos se nosso plano original não funcionar como esperado. A teologia clássica afirma que Deus possui o atributo da onisciência. Essa onisciência é relacionada ao próprio ser de Deus como o ens perfectissimus, o mais perfeito ser. Em sua perfeição, Deus sabe perfeitamente todas as coisas. Isto é, sua onisciência perfeita inclui o conhecimento compreensivo de tudo o que existe.

    Deus conhece tanto a dimensão micro quanto a macro de todo o universo. Ele sabe quantos fios de cabelo temos em nossa cabeça. Ele não somente sabe o que faremos antes de fazermos, como também conhece todas as opções que poderíamos ter escolhido no momento. Ele conhece todas as contingências. Porém, o conhecimento de Deus das contingências não é, ele mesmo, contingente. Sua presciência é perfeita e absoluta. Ele não é um Grande Jogador de Xadrez que deve esperar para ver o que faremos, mas ele sabe perfeitamente o que faremos antes de fazermos. Antes de uma palavra até mesmo ser formada em nossos lábios, ele já a conhece completamente. Desse modo Lutero responde a Erasmo:

    É, então, fundamentalmente necessário e salutar para os cristãos saberem que Deus não conhece previamente de forma contingente, mas que ele antevê, tenciona e faz todas as coisas de acordo com a sua própria imutável, eterna e infalível vontade. Essa bomba golpeia absolutamente o "livre-arbítrio" e o destrói completamente; assim, aqueles que querem afirmá-lo, devem negar a minha bomba ou fingir não tê-la observado ou encontrar outro modo de evitá-la...

    ...Você insiste que deveríamos aprender a imutabilidade da vontade de Deus enquanto nos proíbe de conhecer a imutabilidade da sua presciência! Você supõe que ele não deseja o que antevê, ou que ele não antevê o que deseja? Se ele deseja o que antevê, sua vontade é eterna e imutável porque a sua natureza é assim. Disso se segue, por lógica irresistível, que tudo o que fazemos, por mais que nos pareça mutável e contingente, é, na realidade, feito necessária e imutavelmente com relação à vontade de Deus. Porque a vontade de Deus é eficaz e não pode ser impedida desde que o poder pertence à natureza de Deus; e sua sabedoria é tal que não pode ser ludibriada. Uma vez que sua vontade, então, não pode ser impedida, o que é feito não pode ser feito a não ser onde, quando, como, até onde e por quem ele antevê e deseja.

    Lutero força a atenção à natureza e ao caráter de Deus. O ponto crucial de Lutero é que Deus deseja o que ele antevê e antevê tudo o que deseja. Lutero fala aqui da "lógica irresistível". Isso não significa que as pessoas não podem ou não resistem a essas afirmações. A história da igreja é cheia de registros de tal resistência. Seu ponto é que essa resistência não pode destruir o argumento. Se Deus deseja que algo aconteça, ele não pode ser ignorante quanto a isso. Ele não pode desejar sem saber o que está desejando. A maioria dos pensadores concorda prontamente com essa parte da equação. É a primeira afirmação que tem provocado debate furioso: Deus deseja tudo o que antevê. Agostinho afirmou a mesma coisa, mas com um qualitativo: Deus ordena (num certo sentido) tudo o que ocorre.

    O "num certo sentido" de Agostinho suaviza um pouco o golpe. Por trás das afirmações de Agostinho e Lutero encontra-se a doutrina total de Deus. Ambos afirmaram rigorosamente tanto a sua onipotência quanto a sua imutabilidade e onisciência. A onipotência contém a idéia de que Deus tem todo o poder e autoridade sobre a sua criação, incluindo as ações dos seres humanos. Tudo o que Deus sabe que irá acontecer, ele sabe que pode evitar que aconteça. Mesmo se a vontade de Deus for considerada passiva ou for descrita como a sua "vontade permissiva", ele ainda tem poder e autoridade para evitar. Se, por exemplo, Deus sabe que eu vou escolher o pecado, ele tem o poder para me aniquilar num momento para me impedir de pecar. Se ele escolhe não me destruir mas "deixar-me" pecar, ele assim o escolhe. Enquanto ele o sabe e permite, o que faço está dentro da extensão da sua vontade.

    Necessidade sem Compulsão

    Se Deus sabe antecipadamente o que irá acontecer, então o que acontece é seguro acontecer. O conhecimento prévio de Deus não é incerto. Isso levanta o espectro da necessidade: se desde a eternidade é seguro que algo irá acontecer, esse acontecimento é necessário! Se sim, como pode haver contingências, ou como o homem pode possuir qualquer atitude moral livre?

    Lutero se sentia desconfortável com o termo necessidade. "De fato, eu desejaria que outro termo estivesse disponível para a nossa discussão do que o aceito, necessidade, o qual não pode precisamente ser usado para a vontade do homem ou para a de Deus", diz Lutero. "Seu significado é muito pungente e estranho ao assunto; porque sugere algum tipo de compulsão, e algo que é contra a vontade de alguém, o que não é parte da concepção em discussão. A vontade, de Deus ou do homem, faz o que faz, bem ou mal, não sob compulsão mas justamente como quer ou se agrada, como se fosse totalmente livre".

    Lutero afirmou que Deus precisa de todas as coisas, mas apenas no sentido em que sua vontade as fazem certas. Lutero considerava vital esse ponto para o todo do Cristianismo. "Se você hesita em crer ou é muito orgulhoso para reconhecer que Deus antevê e deseja todas as coisas, não de forma contingente mas necessária e imutavelmente, como você pode acreditar, confiar e se fiar em suas promessas?", Lutero declara. "Se, então, formos ensinados e crermos que devemos ser ignorantes quanto ao conhecimento prévio necessário de Deus e a necessidade dos acontecimentos, a fé cristã será totalmente destruída e as promessas de Deus e todo o Evangelho caem completamente por terra; porque o único e essencial conforto em cada adversidade é sabermos que Deus não repousa mas, imutavelmente, faz com que todas as coisas aconteçam e sua vontade não pode ser resistida, alterada ou impedida".

    Aqui, a principal preocupação pastoral de Lutero na discussão teológica se torna clara: o conforto e a esperança do crente. Confiar nas promessas de Deus é confiar no seu perfeito poder e integridade - que ele realizará o que prometeu. O regozijo do cristão é saber que as promessas de Deus irão necessariamente se realizar.

    Erasmo afirmou que essas verdades misteriosas não deveriam ser proclamadas. "O que pode ser mais inútil do que publicar ao mundo o paradoxo de que tudo o que fazemos é feito, não por 'livre-arbítrio', mas por mera necessidade e a visão de Agostinho de que Deus trabalha em nós tanto o bem quanto o mal; que ele recompensa as suas próprias boas obras em nós, e pune o seu próprio mal em nós?", escreveu Erasmo no prefácio de The Diatribe. "Que comporta de iniqüidade a difusão dessas notícias iria abrir para as pessoas! Que homem mau iria corrigir sua vida? Quem iria acreditar que Deus o ama? Quem iria lutar contra a sua carne?"

    As preocupações mencionadas por Erasmo eram precisamente as mesmas dos semipelagianos que se opuseram a Agostinho. Também era uma preocupação pastoral, mas diferente da de Lutero. O perigo do fatalismo, o qual poderia representar todas as ações humanas como um exercício de futilidade, era uma grande preocupação de Erasmo. Lutero responde citando-o primeiramente e, então, respondendo.

    Erasmo: Quem irá tentar e reformar sua vida?

    Lutero: Ninguém!

    Erasmo: Quem irá crer que Deus o ama?

    Lutero: Ninguém! Ninguém pode! Mas o eleito deve crer; e o resto deve perecer sem crer, enfurecendo-se e blasfemando.

    Erasmo: Uma comporta de iniqüidade é aberta por nossas doutrinas.

    Lutero: Que seja.

    Lutero insistia que, longe de abrir essa comporta, ele estava meramente sendo fiel à palavra de Deus. É Deus quem publica essas coisas, e ele assim o faz por causa dos seus eleitos.

    Depois disso, Lutero retorna à questão da necessidade:

    Eu disse "necessariamente"; eu não disse "compulsoriamente"; eu quis dizer por uma necessidade, não por compulsão, mas do que eles chamam de imutabilidade. Isto é: um homem sem o Espírito de Deus não pratica o mal contra a sua vontade, sob pressão, como se fosse tomado pelo pescoço e arrastado para ele, como um ladrão... sendo arrastado para o castigo contra a sua vontade; mas ele o comete de forma espontânea e voluntária. E seu desejo ou vontade é algo que ele não pode, em sua própria força, eliminar, reprimir ou alterar... a vontade não pode se alterar, nem dar a si mesma outra inclinação...

    Por outro lado: quando Deus trabalha em nós, a vontade é mudada sob a doce influência do Espírito de Deus. Mais uma vez ela deseja e age, não por compulsão, mas por seu próprio desejo e inclinação espontânea.

    A posição de Agostinho, Martinho Lutero, João Calvino e outros é freqüentemente caricaturada como querendo dizer que na eleição graciosa de Deus, ele conduz pessoas esperneando e gritando contra a vontade delas, para o seu reino. A visão de Agostinho é que Deus muda a vontade recalcitrante e escravizada do pecador por meio do Espírito que muda a sua inclinação interior, disposição ou tendência. Os agostinianos têm explicado essa concepção tantas vezes e de forma tão clara que é surpreendente que a caricatura seja tão freqüentemente repetida.

    No The Diatribe, Erasmo argumentou que uma vontade que é impotente sem a graça, não é realmente livre. Lutero responde desta forma: "Você descreve o poder do 'livre-arbítrio' como pequeno e totalmente ineficaz à parte da graça de Deus. Concorda? Agora, então, eu lhe pergunto: se faltar a graça de Deus, se ela for tirada desse pequeno poder, o que ele pode fazer? Ele é ineficaz, você diz, e não pode fazer qualquer coisa que seja boa. Então, não irá fazer o que Deus ou sua graça deseja. Por quê? Porque nós tiramos a graça de Deus dele e o que a graça de Deus não faz, não é bom. Conseqüentemente, segue-se que o 'livre-arbítrio' sem a graça de Deus não é livre de forma alguma, mas é um prisioneiro permanente e escravo do mal, uma vez que não pode se voltar para o bem".

    Lutero estava preocupado com o fato de a expressão livre-arbítrio ser profundamente equivocada para a maioria das pessoas. Seu significado comum é "a capacidade humana de se virar livremente para qualquer direção, seja para o bem ou para o mal". Lutero chamava a expressão livre-arbítrio "grandiosa, compreensiva e ofensiva demais". Ele conclui que "esta falsa idéia do 'livre-arbítrio' é uma ameaça real à salvação e uma desilusão carregada das mais perigosas conseqüências".