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    Lutero – O Significado do Livre-arbítrio – R. C. Sproul








    Depois de responder aos argumentos de Erasmo tendo como base os apelos aos escritores antigos na afirmação de que a Bíblia não é clara nesses assuntos, Lutero voltou-se para o corpo principal da obra de Erasmo. Lutero lida primeiramente com a definição de livre-arbítrio de Erasmo: "um poder da vontade humana pelo qual um homem pode se dedicar às coisas que o conduzem à salvação eterna, ou afastar-se das mesmas".


    Lutero então apresenta o seu próprio entendimento do que Erasmo queria dizer com livre-arbítrio:

    Suponho, então, que este "poder da vontade humana" significa um poder ou faculdade ou disposição ou atitude para desejar ou para não desejar, para escolher ou rejeitar, para aprovar ou desaprovar e para realizar todas as outras ações da vontade. Agora, o que significa para esse mesmo poder "se dedicar" ou "afastar-se" eu não entendo, a não ser que isso refira-se ao real desejar ou não desejar, escolher ou rejeitar, aprovar ou desaprovar - isto é, a exata ação da própria vontade. Assim, devemos supor que esse poder é algo que acontece entre a vontade e sua ação, algo pelo qual a própria vontade produz o ato de desejar ou não desejar e por meio do qual a ação de desejar ou não desejar é produzida. Nada mais é imaginável ou concebível.

    Lutero vê na concepção de Erasmo uma reversão ao ponto de vista de Pelágio, embora com menor sofisticação. Ele condena o entendimento de Erasmo sobre as discussões filosóficas anteriores sobre essa questão. Ele, então, discute as três visões distintas de Erasmo do livre-arbítrio: "De uma visão sobre o 'livre-arbítrio' você desenvolve três! A primeira, aquela dos que negam que o homem pode desejar o bem sem a graça especial, não começa, não progride e não termina, etc. parece a você 'severa mas suficientemente provável'... A segunda, aquela dos que afirmam que o 'livre-arbítrio' não é útil para nada exceto o pecado, e que só a graça trabalha o bem em nós, etc, parece a você 'mais severa'; e a terceira, a visão daqueles que dizem que o 'livre-arbítrio' é um termo vazio e que Deus trabalha em nós tanto o bem quanto o mal, e que tudo o que acontece, acontece por mera necessidade, parece a você 'a mais severa'. É contra essas duas últimas que você declara estar escrevendo".

    Lutero afirma que as três diferentes visões enumeradas por Erasmo fazem distinções que não há diferenças. Todas as três referem-se à mesma coisa mas com palavras diferentes. Lutero pergunta como Erasmo pode chamar a primeira de "suficientemente provável" quando é claramente divergente da sua própria definição? "Você disse", escreve Lutero, "que o 'livre-arbítrio' é um poder da vontade humana pelo qual um homem pode se dedicar ao bem; mas aqui você diz, e aprova que isso seja dito, que o homem sem a graça não pode desejar o bem".

    Lutero diz: "A definição afirma o que a declaração paralela nega! Assim, no seu 'livre-arbítrio' há, ao mesmo tempo, um sim e um não, e no mesmo fôlego você diz que somos tanto certos quanto errados e que você mesmo é tanto certo quanto errado, sobre uma e a mesma doutrina e artigo! Você pensa que se dedicar ao que produz salvação eterna (como sua definição diz que o 'livre-arbítrio' faz) não é bom? Se houvesse bem suficiente no livre-arbítrio para que ele se dedicasse ao bem, não haveria necessidade da graça! Assim o 'livre-arbítrio' que você define é uma coisa, e o livre-arbítrio que você defende é outra".

    A essa altura, Lutero indica que a definição de Erasmo do livre-arbítrio não requer a graça para se virar para o bem ou para Deus. Se a graça não é requerida, mas meramente assiste o homem, então a definição de Erasmo do livre-arbítrio não é essencialmente diferente da de Pelágio. Mas Lutero observou que o livre-arbítrio que Erasmo definiu não era o livre-arbítrio que ele estava defendendo. Erasmo não se dispôs a defender uma visão pelagiana pura do livre-arbítrio. Em outro lugar do The Diatribe, ele declarou que "a vontade humana, depois do pecado, é tão depravada que perdeu a sua liberdade e é forçada a servir o pecado, e não pode retornar para um estado melhor".

    Se essa é a visão que Erasmo está defendendo, Lutero argumenta, então Erasmo está realmente admitindo algo da própria visão de Lutero: "Se, agora, o 'livre-arbítrio' sem a graça perdeu a sua liberdade, é forçado a servir o pecado e não pode desejar o bem, eu gostaria de saber qual é o legado de todo aquele esforço e diligência da primeira visão, a 'provável'. Não pode ser um bom esforço e diligência, porque o 'livre-arbítrio' não pode desejar o bem, como a concepção declara e você concorda".

    Esse é o clássico argumento reductio ad absurdum. Lutero argumenta "para o homem", assumindo as próprias premissas do seu opositor e as conduzindo para a conclusão lógica. Ele chama a visão de Erasmo de um tipo estranho de paradoxo pelo qual Erasmo afirma final e exatamente o que ele se propôs a negar ou nega o que se propôs a afirmar. Lutero diz que todo o Diatribe é "nada além de um ato nobre do 'livre-arbítrio' se condenando em sua própria defesa, e se defendendo na sua própria condenação".

    Lutero, então, compara essa visão com as duas outras que Erasmo delineou:
    ...A segunda é "mais severa", aquela que defende que o "livre-arbítrio" não serve para nada além do pecado. Esta, certamente, é a opinião de Agostinho, a qual ele expressa em muitos lugares." A terceira visão é "a mais severa", a de Wycliffe e Lutero: que o livre-arbítrio é um termo vazio...

    ...Eu chamo Deus [como minha] testemunha de que pelas palavras das duas últimas visões, eu nada quis dizer e desejei que fosse entendido além do que é declarado na primeira visão. Também não penso que Agostinho pretendia qualquer coisa além disso, nem deduzo qualquer outro significado das suas palavras além do que a primeira visão afirma. Assim... as três visões pormenorizadas no Diatribe são, na minha mente, nada além da visão que defendo. Por essa vez é admitido e estabelecido que o "livre-arbítrio" perdeu a sua liberdade e está obrigado a servir ao pecado e não pode desejar o bem. Nada posso entender dessas palavras a não ser que o livre-arbítrio é um termo vazio cuja realidade está perdida. Uma liberdade perdida, no meu modo de falar, não é liberdade de forma alguma, e dar o nome de liberdade a algo que não tem liberdade é aplicar a ela um termo cujo significado é vazio...

    "Se Desejares..."

    Em seguida, Lutero responde à outra objeção que Erasmo havia levantado, baseando-se em textos bíblicos que parecem indicar que o homem pode realizar qualquer coisa que Deus ordena. Essa questão é similar àquela que provocou a reação inicial de Pelágio contra a oração de Agostinho, na qual ele pedia a Deus que concedesse o que ele ordenava. No The Diatribe, Erasmo apela aos livros apócrifos: "Eclesiástico, ao dizer 'se desejares manter', indica que há uma vontade no homem de manter ou não manter; caso contrário, qual é o sentido de dizer a alguém que não tem desejo, 'se desejares'? Não é ridículo dizer a um cego: 'se desejares ver, encontrarás um tesouro'? ou a um surdo: 'se desejares ouvir, eu lhe contarei uma boa história'? Isso seria ridicularizar a sua miséria".

    Esse tema levanta a questão sobre a própria integridade de Deus. Se ele ordena que algo seja feito e, na realidade, esse algo não pode ser feito, então essa ordem parece ser cruel e injusta. Isso, como Erasmo diz, iria ridicularizar a miséria humana. Ele infere que o mandamento divino indica uma capacidade para obedecer. Caso contrário, a criatura não poderia ser considerada moralmente responsável pela ação. A própria palavra responsabilidade indica a capacidade de responder.

    Lutero responde reprovando a razão humana por tirar conclusões insensatas. O que ele, em outro lugar, chama de "uso evangélico da lei", Lutero aqui descreve como uma estratégia divina para mostrar às suas criaturas moralmente impotentes, a própria impotência das mesmas.

    Agora, se Deus, como Pai, trata conosco como seus filhos, visando nos mostrar a impotência que ignoramos; ou como um médico fiel, visando nos contar sobre a nossa doença; ou se para ridicularizar seu inimigos que resistem orgulhosamente ao seu conselho e às leis que estabeleceu (pelas quais alcança esse objetivo e da maneira mais efetiva), ele diria: "faça", "ouça", "guarde", ou "se ouvires", "se desejares", "se guardares"; pode-se concluir corretamente disso que, por essa razão, podemos fazer livremente essas coisas ou Deus está nos ridicularizando? Por que, de preferência, não deveria seguir esta conclusão: por essa razão, Deus está nos testando para que, pela sua Lei, ele possa fazer com que a nossa impotência seja conhecida...

    Aqui Lutero demonstra a diferença entre uma inferência possível e uma inferência necessária. Quando Deus faz algo cujo propósito não conhecemos, somos deixados para especular a respeito desse propósito. Erasmo deduz que se o homem é impotente para fazer o que Deus ordena, então a razão de Deus para a ordem é ridicularizar a miséria humana. Essa é uma inferência possível, mas desaparece rapidamente quando levamos em consideração o caráter de Deus. Mais importante, Erasmo infere, a partir do comando, que somos capazes de obedecer. Essa também, de acordo com Lutero, é uma inferência possível, não uma inferência necessária. Para chegar a esse ponto, Lutero usa um argumento semelhante ao do apóstolo Paulo quando este diz que a lei é uma mestra que nos conduz a Cristo. Somos ordenados a obedecer toda a lei, a ser perfeitos. Isso não significa (a não ser que adotemos o pelagianismo puro) que somos moralmente capazes de alcançar a perfeição.

    De acordo com as leis da inferência imediata, uma pessoa nada pode inferir a partir da declaração "Se desejares..." sobre quem tem o poder de assim desejar. Essa é uma frase condicional, indicada pela presença da palavra se. E como a fórmula, se A, então B. Se a condição for satisfeita (A), então a conclusão se seguirá (B). Essa fórmula indica meramente uma conexão entre A e B.

    Um texto freqüentemente mencionado a esse respeito é João 3.16, que promete que todo aquele que crer não perecerá. O texto ensina explicitamente que se alguém faz A (crê), então não terá B (perecerá) e terá C (vida eterna). O texto nada diz sobre quem irá crer ou quem pode crer. Ele pode indicar que alguns podem ou irão crer, mas uma indicação não pode anular uma declaração explícita.

    Esse é o ponto de onde a discussão prosseguirá. Lutero esforça-se para mostrar que as Escrituras negam explicitamente a capacidade moral do homem para fazer o que Deus ordena. Ele aplicará o princípio da interpretação de que o implícito deve ser interpretado à luz do explícito, não o contrário.

    Erasmo continua recorrendo a textos que impõem obrigações ao pecador, argumentando que tais obrigações necessitam de capacidade moral: "Se não está no poder de cada homem manter o que é ordenado, todas as exortações nas Escrituras e todas as promessas, ameaças, repreensões, censuras, súplicas, bênçãos, maldições e multidão de preceitos são, necessariamente, inúteis".

    Lutero vê essa conclusão como injustificável, envolvendo um salto quântico da lógica. Novamente a inferência possível é elevada ao nível da inferência necessária. Sem a capacidade plena para realizar o que é ordenado, os comandos seriam necessariamente inúteis. Lutero responde:

    O Diatribe continuamente se esquece da questão em debate e trata de assuntos estranhos ao seu propósito; e não vê que todas essas coisas criam [um caso] mais forte contra si mesmo do que contra nós. A partir de todas essas passagens, ele prova a liberdade e capacidade para cumprir todas as coisas, como declaram as próprias palavras da conclusão que tirou; ao passo que sua intenção era estabelecer que "tal 'livre-arbítrio' não pode desejar o bem sem a graça e um esforço que não pode ser atribuído à própria força"....

    ...e agora, que o próprio Diatribe desminta suas próprias palavras nas quais é dito que o "livre-arbítrio" não pode desejar o bem sem a graça! Deixe-o dizer agora que o "livre-arbítrio" tem tal poder, que não somente deseja o bem mas mantém os maiores mandamentos, sim, todos os mandamentos, com facilidade!
    Aqui, Lutero está levando Erasmo para onde Erasmo não quer ir, direto aos braços de Pelágio. Se o argumento de Erasmo for sadio, então ele prova demais, a saber, a plena capacidade sem a assistência da graça. Lutero conclui: "Assim, nada é menos provado pelo todo dessa discussão repetitiva, discursiva e trabalhada do que o que havia sido provado, isto é, a 'visão provável' que descreve o 'livre-arbítrio' como 'tão impotente que não pode desejar qualquer bem sem a graça, mas é forçado ao serviço do pecado, embora tenha se esforçado; isso, porém, não pode ser atribuído ao seu próprio poder'. Uma verdadeira fantasia! - ele nada pode fazer em sua própria força, porém tem-se esforçado dentro da sua própria força; sua constituição envolve uma contradição muito óbvia".

    "... deu-lhes o poder..."

    Em seguida, Erasmo cita as palavras de João 1 "deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus" (Jo 1.12), dizendo, "Como o poder é dado [a] eles para se tornarem filhos de Deus se não há liberdade da nossa vontade?"

    Lutero responde: "Essa passagem também é um martelo contra o iivre-arbítrio', como é quase todo o Evangelho de João; apesar disso, é tão citada a favor do 'livre-arbítrio'! Olhemos para ela, por favor! João não está falando de qualquer obra de homem, grande ou pequena, mas da renovação real e da transformação do velho homem, filho de Satanás, para um novo homem, filho de Deus. Nisso, o homem é simplesmente passivo (como o termo é usado); ele nada faz, mas o seu todo se torna algo. João está falando dessa transformação: Ele diz que nos tornamos filhos de Deus por meio de um poder divinamente dado a nós - não por qualquer poder do 'livre-arbítrio' inerente a nós!"

    Mais tarde, Lutero discute o papel de Deus ao endurecer o coração de Faraó. Lutero explica esse difícil conceito do Antigo Testamento dizendo: "Assim Deus endurece Faraó: Ele apresenta à vontade perversa e má de Faraó a sua própria palavra e obra, as quais a vontade de Faraó odeia por causa da própria falha e corrupção naturais. Deus não altera interiormente aquela vontade pelo seu Espírito, mas prossegue apresentando e causando uma pressão a ser tolerada; e Faraó, tendo em mente a sua própria força, riqueza e poder, confia neles mediante essa mesma falha da sua natureza...Tão logo Deus externamente apresenta a ela algo que naturalmente a irrita e ofende, Faraó não pode escapar de ser endurecido..."

    O coração de Faraó é necessariamente endurecido, mas não porque Deus tenha criado um mal recente dentro dele ou porque Deus coagiu Faraó ao pecado. Antes, o endurecimento foi o resultado natural da corrupção interior de Faraó quando deparou com a vontade e o comando persistentes de Deus.

    A necessidade do resultado (o endurecimento do coração de Faraó) significa que a compulsão estava envolvida? Se Deus desejava que o coração de Faraó fosse endurecido, então esse endurecimento necessariamente teria de acontecer. Se aconteceu por necessidade, como isso pode ter acontecido sem compulsão? The Diatribe admite tanto a necessidade quanto o livre-arbítrio. "Nem toda necessidade exclui o 'livre-arbítrio'", disse Erasmo.

    "Assim, Deus, o Pai, necessariamente gera um Filho; porém ele o gera de bom grado e livremente, porque ele não é forçado a agir assim".

    "Estamos agora discutindo compulsão e força?" Lutero responde. "Não registrei em muitos livros que estou falando sobre a necessidade da imutabilidade? Eu sei que o Pai gera de bom grado e que Judas traiu a Cristo de bom grado... Eu faço a distinção de duas necessidades: uma eu chamo de necessidade da força (necessitatem violentam), que se refere à ação; a outra eu chamo de necessidade da infalibilidade (necessitatem infallibilem), referindo-se ao tempo".

    Depois de duelos sobre vários textos do Antigo Testamento, o debate se move para o Novo Testamento. Erasmo faz objeção ao apelo de Lutero à declaração de Jesus, "Sem mim, nada podeis fazer" (João 15.5). Lutero responde: "Ele se apodera desta pequena palavra nada, corta sua garganta com muita palavras e exemplos e, por meio de uma 'explicação conveniente', chega a isto: que nada pode significar o mesmo que 'algo um pouco imperfeito"'.

    Erasmo havia interpretado esse texto num estilo elíptico, de acordo com o qual ele significa que sem Cristo, o pecador nada pode fazer perfeitamente. Isso realmente exercita a ira de Lutero. Ele diz, "A não ser que você prove que 'nada' nessa passagem não apenas pode, mas deve ser entendido como 'algo um pouco', você nada fez com a sua vasta profusão de palavras e exemplos além de colocar fogo na palha seca!" Posteriormente ele adiciona, "É completamente desconhecido - da gramática e da lógica -dizer que nada é o mesmo que algo; para os lógicos, a idéia é uma impossibilidade porque os dois são contraditórios!"

    Depois de responder aos textos-prova de Erasmo para essa posição, Lutero conclui seu livro apresentando um caso exegético para sua própria posição.