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    Guardando o Coração – Sinclair Ferguson





    O livro de Provérbios dá-nos este conselho: Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida. Provérbios 4:23.

    As Escrituras  estabelecem uma estrutura básica de obediência à vontade de Deus revelada. Essa estrutura está ali para que todos a vejam e a entendam. Mas há também um elemento subjetivo no processo de conhecer a vontade de Deus. Afinal, é a minha vida, não a de outrem, é a minha obediência, não a de outrem, que estão envolvidas nesse processo de chegar à convicção de que um único e determinado caminho é a vontade de Deus para a minha vida.

    O ponto de contato entre a vontade de Deus revelada, a minha obediência e o meu andar segundo a Sua vontade para a minha vida pessoal está no coração. Por isso o sábio nos manda guardá-lo - isto é, preservá-lo num espírito de sensível atenção ao meu Mestre e Rei celestial. Devemos mantê-lo alerta para que, por assim dizer, Ele tenha o Seu desejo cumprido em nós a qualquer momento.

    Como havemos de manter esta condição espiritual, e como se relaciona esta com o descobrimento da vontade de Deus?

    Todas as graças que o Espírito opera em nós, e todas as motivações para a dedicada obediência que as Escrituras nos apresentam são focalizadas aqui. Este capítulo se concentra em algumas delas que requerem muito especialmente a nossa atenção. Todas elas são condições do coração mais bem aprendidas na juventude e desenvolvidas durante a vida inteira. Mas não há nenhum estágio da vida em que elas sejam desimportantes. Tampouco há algum estágio da vida em que possamos comodamente parar de buscar a Deus para ajudar-nos a crescer nestas graças.

    Motivos do Coração

    O que o leva a querer conhecer a vontade de Deus? Por que isso é tão importante para você? Entre os muitos motivos que Deus nos impõe nas Escrituras, há dois que devem ser separados para menção especial.

    1. A Brevidade da Vida. Se há uma característica que marca assinaladamente o crente, é que ele, homem ou mulher, vive sempre consciente de que a vida tem um começo, um desenvolvimento e um fim. Não dura para sempre. O cristão, dentre todas as demais pessoas, vendo a sua vida à luz da eternidade, sabe que ela é de fato curta. E apenas uma pausa antes de raiar a eternidade e descer a cortina sobre o tempo da nossa peregrinação. Pelo que diz Tiago:

    "Eia agora vós, que dizeis: hoje, ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos; digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? E um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece. Em lugar do que devíeis dizer: se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo." - Tiago 4:13-15

    Você alguma vez se conscientizou de que só tem uma vida para viver e de que cada dia dela só pode ser vivido uma vez? As horas que lhe vêm da misericórdia do seu Pai celestial levarão para sempre a marca que a sua vida imprimir nelas, até se fecharem todas as contas em Seu julgamento final. Nada poderá ser devolvido para correção. Jamais. A vida não é somente curta; é transitória. Agora é o dia da salvação, no sentido mais completo possível. Não há outro dia em que possamos gravar o sinete da obediência a Deus.

    Naturalmente podemos estar propensos a dizer que há muito tempo para levar em conta essas considerações tão sérias. Todavia estamos enganados, não só porque não sabemos o que o dia nos trará, mas também porque isso não torna mais fácil ter um coração sinceramente devotado às coisas de Deus. Nas coisas de Deus gosto produz gosto. Poucos cristãos que não encararam desde cedo a brevidade da vida e a importância de conhecer a perfeita vontade de Deus em todos os seus pormenores, puderam desenvolver esse espírito numa fase posterior da sua vida.

    Olhe para Jesus. Aos doze anos de idade um espírito de sério interesse pela vontade do Seu Pai dominou a Sua vida. Já estava investigando intensamente o significado da Palavra de Deus para o Seu ministério. Aos trinta e três anos Ele pôde dizer a Seu Pai que tinha terminado a obra para a qual fora enviado (João 17:4). Pois bem, Ele é seu Exemplo, como também é seu Salvador!

    O cristão que chegou a um acordo com esta vontade não deseja que a sua vida seja dedicada a preocupações e interesses insignificantes. Em vez disso, o seu coração se devotará aos grandes e vitais interesses por viver esta breve vida segundo a perfeita vontade de Deus. Muitos de nós perceberão, quando já for tarde demais, por que o notável pastor francês Adolfo Monod (1802-56), em sua série de curtas mensagens intitulada, "A Dying Man's Regrets" ("Lamentações de um Moribundo"), colocou em último lugar a "Preocupação com interesses insignificantes". Se a nossa consciência tem alguma sensibilidade, deverá chegar a isso.

    Será que você tem potencialmente setenta anos para viver para o Senhor Jesus Cristo, e ainda não pensou seriamente sobre qual seja a Sua vontade? Será de admirar que a direção da vida nos pareça um problema em tais circunstâncias?

    Se tão-somente começássemos a dar-nos conta de que toda carne é erva, que o vento passa por ela e ela se vai, não faríamos da consagração dos nossos momentos e dos nossos dias uma questão de imediata preocupação? Precisamente nisso devemos guardar o nosso coração.

    2. O Juízo de Deus. Vivemos a vida sob os olhos de Deus, como também à luz da sua brevidade. Mas nas Escrituras não se deve confundir juízo com condenação (como se faz muitas vezes). Pode incluí-la. O Novo Testamento ensina claramente que o cristão é justificado pela graça, porém será julgado por Deus de acordo com as suas obras (Romanos 2:6-10). Contudo, será julgado graciosamente, como foi justificado graciosamente. A parábola dos talentos (Mateus 25:14-30) fala de um homem que, mediante a aplicação de dez talentos para a glória do seu senhor, foi constituído governador de dez cidades. Isso é nada mais nada menos que um julgamento dos méritos! E uma recompensa inteiramente desproporcional ao que tinha sido realizado. Mas é essa a natureza do julgamento que Deus faz das nossas vidas. Impregna-o a graça transbordante, a graça superabundante!

    Todos os nossos labores serão julgados por Deus. Todos compareceremos ante o tribunal de Cristo (2 Coríntios 5:10). Quando Paulo escreveu aos escravos que viviam em Colossos, lembrou-lhes que o trabalho deles era relevante. O julgamento de Deus conferiu-lhes uma significação muito superior à conferida por seus senhores terrenos. Por isso o cristão se esforça para fazer tudo para a glória de Deus; não devido a um covarde medo da condenação (apesar de que ele sabe também dos terrores do Senhor - 2 Coríntios 5:11), mas sim nos termos de Paulo aos mencionados escravos. "Sabendo que recebereis do Senhor o galardão da herança, porque a Cristo, o Senhor, servis" (Colossenses 3:22-24). Há uma argumentação similar em Efésios 6:8. O julgamento que Deus faz das obras do crente é segundo a graça. Portanto, qual de nós não estará desejoso de agradar ao Senhor em todas as coisas, sabendo que o Seu julgamento é a nossa mais solene alegria?

    Oxalá todos tenham parte em Ti, Senhor; não há o que possa ser tão abjeto e tão sórdido que, levando esta insígnia, "Pelo Teu amor", não se transforme em algo pulcro e rebrilhante.

    O servo que esta cláusula tenha por lema, está realizando um trabalho divino: quem varre um aposento, e o faz por Tuas leis, dá figura e nobreza ao seu feito e ao seu gesto.

    - George Herbert

    Todavia, nas Escrituras os motivos nunca estão sós. De propósito são acompanhados de disposições e hábitos espirituais, e graças do coração. Outra vez pode ser útil separar dois pares deles para menção especial, por estarem estreitamente relacionados com toda a questão da direção de Deus em nossas vidas.

    Condições do Coração

    Uma das nossas maiores falhas como cristãos é que pode existir discrepância entre as nossas convicções e o espírito das nossas vidas. Por exemplo, estamos persuadidos da graça de Deus. Entretanto o nosso espírito parece expressar muito pouco dessa mesma graça. Diante de Deus, quando buscamos a Sua direção, precisa haver uma crescente harmonia entre as nossas motivações para servi-10 e uma apropriada condição do coração. E preciso haver temor e humildade, e também obediência e confiança.

    1. Temor e Humildade. Estas graças naturalmente andam juntas. Elas se promovem mutuamente. Pois o temor é um correto reconhecimento de Deus; e este reconhecimento produz humildade perante Ele. Essa humildade já comunica uma certa qualidade ao nosso temor do Senhor. Não é um temor covarde, e sim o temor de um filho, de um servo, de um súdito que ama a seu Pai, a seu Senhor e a seu Rei. De fato, as duas idéias aparecem entrelaçadas em bom número de passagens das Escrituras, tanto em nossa resposta a Deus como, conseqüentemente, em nossa atitude para com os nossos semelhantes (Provérbios 15:33; 22:4; 1 Pedro 3:15). O temor de Deus é particularmente crucial, porque está no âmago da nossa relação com Ele. É "o princípio da sabedoria", quer dizer, é o princípio preeminente e dominante em todo pensamento sábio e em toda sábia decisão na vida.
    Mas, que é o temor de Deus, e como se expressa?

    John Brown o descreve bem, com estas palavras:

    "Devemos temê-lo; isto é, noutras palavras, devemos nutrir um temeroso senso da Sua infinita grandeza e dignidade, correspondendo à revelação que Ele fez destas em Suas obras e em Sua Palavra, produzindo a convicção de que o Seu favor é a maior de todas as bênçãos, e Sua desaprovação o maior de todos os males, e se manifestando em levar-nos a buscar o Seu favor como o principal bem que podemos desfrutar, e a evitar a Sua desaprovação como o mais tremendo mal a que poderíamos ser sujeitos. Esse é o temor que o cristão deve nutrir e manifestar para com Deus."

    Charles Bridges o expressa de maneira semelhante:

    "Mas, que é o temor do Senhor? É aquela afetuosa reverência pela qual o filho de Deus se inclina humilde e cautelosamente à lei do seu Pai."

    Você verá agora por que o temor de Deus é tão intimamente ligado à Sua direção e à nossa obediência. E o espírito dos nossos corações que dá glória a Deus, e produz aquela comunhão com Ele que Ele Se delicia em expressar na revelação da Sua vontade. E este mesmo espírito que nos mantém no caminho da Sua orientação, conforme Sua vontade se revela diante de nós.
    Duas passagens são especialmente relevantes para a compreensão deste ensino. O Salmo 25 é um desenvolvimento do tema da mão orientadora de Deus. Ele nos diz que Deus "guiará os mansos retamente", ou, na versão utilizada pelo autor, "guia os humildes no que é reto" (v. 9). Ao homem que O teme Ele instrui em Seus caminhos; é íntimo dos que O temem e lhes torna conhecida a Sua aliança (vs. 12-14). Neste contexto, o humilde é aquele que sabe que cometeu faltas, e que facilmente poderia tornar a cair. Assim, ele pede a Deus que esqueça os pecados da sua vida pregressa (v. 7) e lhe mostre os Seus caminhos para o futuro (v. 4). Ele demonstra espírito de dependência de Deus. Sabe que lhe falta sabedoria, mas pede a Deus que lha dê, e a recebe. Quando olhamos para nós mesmos à luz deste ensino, certamente a humildade há de ser um dos frutos do nosso exame introspectivo. Temos o dever de sermos sensíveis às nossas muitas fraquezas, para mantermos sempre um espírito de dependência de Deus como o da criança. Experimentamos Sua grandeza e Sua admirável bondade em perdoar-nos o passado: Assim, aprendemos a temê-10, para que não O ofendamos de novo.

    Isaías 11:2-3 leva um pouco mais longe esse tema.Profetiza o caráter do Messias. Este se deleitará no temor do Senhor! Mais uma vez Charles Bridges faz um pertinente comentário:
    "O temor do Senhor era uma amável graça da perfeita humanidade de Jesus (Isaías 11:2-3). Seja esta aprova da nossa "predestinação para'3 sermos "conformes à imagem de seu Filho" (Romanos 8:29). E o genuíno espírito de adoção. O filho de Deus só tem medo de uma coisa - ofender seu Pai; só tem um desejo - agradá--LO e causar-Lhe prazer... "O coração que é tocado pelo ímã do amor divino, treme ainda de piedoso temor" (Leighton, sobre 1 Pedro 2:17)."

    Nas palavras de Isaías há uma ligação sumamente interessante entre o temor de Deus e o conhecimento da Sua vontade e dos Seus caminhos:
    "E repousará sobre ele o Espírito do Senhor,
    o Espírito de sabedoria e de inteligência,
    o Espírito de conselho e de fortaleza,
    o Espírito de conhecimento e de temor do Senhor,
    e deleitar-se-á no temor do Senhor;
    e não julgará segundo a vista dos seus olhos,
    nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos." - Isaías 11:2-3.

    De fato, o temor do Senhor e o conhecimento da Sua vontade eram quase sinônimos na vida do Seu Servo Jesus (cf. Provérbios 2:6; 9:10). Ele nos deixou um belíssimo exemplo do espírito que deve acompanhar a busca e a prática da vontade de Deus.

    Talvez seja por isso que, no Novo Testamento, o temor e a humildade eram características da obediência da Igreja e do seu descobrimento da constante direção de Deus (cf. Atos 2:43; 5:5; 5:11; 9:31). Quando tememos a Deus, abandonamos o mal e praticamos o bem (2 Coríntios 7:1). Vivemos nossas vidas como estrangeiros aqui, com reverente temor (1 Pedro 1:17).
    Você tem algum conhecimento disso?

    2.    Obediência e Confiança.   Você se acostumará a ler ou a cantar estas palavras na ordem inversa:
    Confiai e obedecei,
    pois outro modo não há
    de ser feliz em Jesus,
    senão confiar e obedecer.

    Ora, não se trata apenas de confiar e depois obedecer. Trata-se também de obedecer e continuar a confiar em Deus, mesmo quando não podemos compreender o Seu modo de agir conosco. Quando Abraão não podia ver, ele confiava (Hebreus 11:8). Mas mesmo quando a confiança vacilava, a obediência era o único caminho para a perfeita vontade de Deus em sua vida (Romanos 4:18; Hebreus 11:17-19).

    Vemos ainda esta combinação de bênçãos da graça divina no Salmo 25. É seguro e certo que os caminhos do Senhor são amorosos e fiéis para com os que observam as exigências da aliança de Deus (por obscuros que sejam para os olhos da carne). Esta é a espécie de obediência que nos mantém na vontade de Deus. Na verdade, a tal ponto é este o caso, que Provérbios dá a entender que se desenvolve uma relação natural entre o coração obediente e a tendência de andar segundo a vontade de Deus:
    "A sinceridade dos sinceros os encaminhará, mas a
    perversidade dos desleais os destruirá.
    A justiça dos virtuosos os livrará, mas na sua perversidade
    serão apanhados os iníquos.
    A justiça guarda ao que é sincero no seu caminho, mas
    a impiedade transtornará o pecador."
    -Provérbios 11:3,6; 13:6

    Aí está uma lição importantíssima que devemos aprender o mais cedo possível na vida cristã. Ser obedientes mesmo quando não sabemos para onde a obediência poderá levar-nos. Isso nos guardará e nos protegerá. Confiemos sempre na Palavra de Deus e vivamos segundo os Seus mandamentos, em vez de somente segundo as circunstâncias, as providências e as oportunidades. Somente na obediência, numa confiança que se apega à promessa de que Deus está fazendo que todas as coisas cooperem juntamente para o bem dos que O amam, pode haver segurança firme - pois somente na obediência podemos descobrir o grande gozo que há na vontade de Deus.

    As condições do coração determinam a qualidade da nossa vida na esfera natural. Um coração enfermo exerce influência debilitante sobre todos os aspectos da nossa experiência. Dá-se a mesma coisa na vida cristã. Por isso devemos exercitar o coração no pensamento piedoso, na confiança obediente, na humildade e no temor de Deus.

    Quando os nossos corações se fortalecerem nessas graças, veremos quanto prazer Deus tem em revelar-nos o progressivo cumprimento das promessas da Sua aliança individualmente em nossas vidas.