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    Porque os pastores (e outras pessoas) deveriam escutar Lutero – John Piper





    Em primeiro lugar, Lutero foi um pregador — mais pregador do que a maioria dos pastores. Conhecia o fardo e a pressão da pregação semanal. Havia duas igrejas em Wittenberg, a igreja da cidade e a igreja do castelo. Lutero era um pregador regular na igreja da cidade. Ele afirmou: "Se hoje pudesse me tornar rei ou imperador, ainda assim não renunciaria ao meu ofício de pregador". Era compelido por uma paixão pela exaltação de Deus na Palavra. Em uma das suas orações, ele diz: "Querido Senhor Deus, quero pregar para que o Senhor seja glorificado. Quero falar do Senhor, louvar ao Senhor, louvar o teu nome. Mesmo que eu não possa fazer tudo isso, será que o Senhor não poderia fazer com que tudo isso desse certo"?

    Para sentir a força desse compromisso, você precisa perceber que na igreja em Wittenberg não havia nenhuma programação de igreja, somente louvor e pregação. Aos domingos, havia o louvor das cinco horas com um sermão na Epístola, o culto das dez horas com um sermão do Evangelho e uma mensagem da tarde sobre o Antigo Testamento ou catecismo. Os sermões de segunda e terça-feira eram sobre o catecismo; o de quarta-feira sobre Mateus; às quintas e sextas sobre as cartas apostólicas; e aos sábados sobre João.

    Seu amigo, Johannes Bugenhagen, foi o pastor da igreja da cidade de 1521 a 1558. Mas Lutero compartilhava as pregações toda semana em que ele se encontrava na cidade. Pregava porque o povo da cidade desejava escutá-lo e porque ele e seus contemporâneos entendiam seu doutorado em teologia como um chamado para ensinar a Palavra de Deus a toda igreja. Portanto, Lutero pregava duas vezes no domingo e uma vez durante a semana. Walther von Loewenich disse em sua biografia: "Lutero foi um dos maiores pregadores da história da cristandade (...) Entre 1510 e 1546, Lutero pregou cerca de três mil sermões. Freqüentemente, pregava várias vezes por semana, e quase sempre duas ou mais vezes por dia".

    Por exemplo, ele pregou 117 sermões em Wittenberg em 1522 e 137 sermões no ano seguinte. Em 1528, pregou quase 200 vezes e no ano de 1529, pregou 121 sermões. Portanto, nesses quatro anos, a média foi de um sermão a cada dois dias e meio. Como Fred Meuser disse no livro sobre a pregação de Lutero: "Ele nunca tirou um fim de semana de folga. Nem mesmo um dia por semana de folga. Nunca tirou férias do trabalho de pregação, ensino, estudo individual, produção, escrita e aconselhamento". Essa é sua primeira conexão com aqueles de nós que somos pastores. Ele conhece o fardo da pregação.

    Em segundo lugar, como a maioria dos pastores, Lutero era um homem de família. Pelo menos da idade de 41 anos aos 62. Ele conhecia a pressão e o sofrimento de ter, criar e perder filhos. Katie deu à luz seis crianças em rápida sucessão: Johannes (1526), Elisabeth (1527), Magdalena (1529), Martin (1531), Paul (1533) e Margaret (1534). Façamos um pequeno cálculo aqui.

    O ano entre o nascimento de Elisabeth e Magdalena foi o ano no qual ele pregou 200 vezes (mais de uma vez a cada dois dias). Acrescente a isso o fato de Elisabeth ter morrido nesse ano com oito meses de idade. Lutero, porém, continuou a pregar, apesar do sofrimento.

    E, antes de pensarmos que tenha negligenciado seus filhos, considere que domingo à tarde, após ter pregado duas vezes, Lutero dirigia as devoções em sua casa, que eram praticamente outro culto de louvor durante uma hora, incluindo convidados além das crianças. Portanto, Lutero conhecia as pressões de ser um homem do público e de ter família.

    Em terceiro lugar, Lutero era um clérigo, não um teólogo acadêmico que evitava os problemas do cotidiano fechando-se em uma torre de marfim. Não somente participava de quase todas as controvérsias e conferências de sua época, como, em geral, também era o líder delas. Havia a controvérsia de Heidelberg (1518), o encontro com o cardeal Caetano em Augsburg (1518)         , a disputa Leipzig com Johann Eck e Andrew Karlstadt (1519)    , a dieta de Worms diante do imperador (1521), o colóquio Marburg com Zuínglio (1529) e a dieta de Augsburg (mesmo não estando lá pessoalmente, 1530).

    Além de seu envolvimento ativo em conferências nas igrejas, também se dedicou a uma quantidade inacreditável de publicações, todas voltadas para a igreja. Por exemplo, em 1520, Lutero escreveu 133 obras; em 1522, 130; em 1523, 183 (uma a cada dois dias!) e a mesma quantidade em 1524.27 Ele era o pára-raios das críticas feitas contra a Reforma. "Todos afluíam a ele, cercando sua porta de hora em hora, grupos de cidadãos, doutores, príncipes. Enigmas diplomáticos precisavam ser resolvidos, assuntos teológicos complicados precisavam ser postos em ordem e a ética da vida social necessitava de ser exposta e explicada".

    Com a queda do sistema medieval da vida eclesiástica, uma maneira completamente nova de pensar sobre a igreja e a vida cristã, precisava ser desenvolvida. Na Alemanha, essa tarefa ficou, em grande parte, nas mãos de Lutero. E surpreendente como ele se lançou aos assuntos corriqueiros da vida paroquiana. Por exemplo, quando foi decidido que os "inspetores" do Estado e da universidade seriam mandados a cada paróquia para averiguar a condição das igrejas e fazer sugestões a respeito da vida delas, Lutero tomou sobre si a tarefa de escrever as normas de procedimento: "Instruções para os inspetores de pastores das paróquias na Saxônia eleitoral". Ele tratou de uma grande variedade de problemas práticos. Quanto à educação das crianças, ele chegou ao ponto de determinar que primeiras séries deveriam ser divididas em três grupos: pré-leitores, leitores e leitores avançados, além de dar sugestões sobre como ensiná-las:

    Primeiro, eles irão aprender o livro elementar no qual são encontrados o alfabeto, o Pai-Nosso, o Credo e outras orações. Após terem aprendido essas coisas, receberão Donatus e Cato, para ler Donatus e para expor Cato. O professor deverá expor um ou dois versos por vez e as crianças deverão repeti-los para que possam construir um bom vocabulário.

    Vemos então que esse professor universitário estava intensamente envolvido com as tentativas de solucionar os problemas mais práticos do ministério, do berço à sepultura. Ele não estudava durante folgas ininterruptas de licenças ou nos longos verões. Era constantemente cercado e estava constantemente em ação.

    Portanto, mesmo sendo professor universitário, há uma boa razão para pastores e ministros leigos da Palavra atentar para o seu trabalho e ouvir suas palavras, a fim de aprenderem e serem inspirados para o ministério da Palavra — a "Palavra externa", o Livro.