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    Agostinho - A Relevância da Graça como Alegria Soberana.




    As implicações da experiência de Agostinho e de sua teologia da soberana alegria são muito importantes não somente para a pregação, mas também para o evangelismo. O que lhe aconteceu pode suceder a outros, pois todo coração humano é exatamente igual no que diz respeito a isso. "Não sou o único que deseja isto [desejo pelo estado abençoado da felicidade], nem são poucos os que compartilham comigo: todos, sem exceção, anseiam pela felicidade (...) Todos concordam que desejam ser felizes (...) Podem procurar a felicidade de maneiras diferentes, mas todos tentam da melhor maneira que podem alcançar o mesmo alvo, isto é, a alegria". Este é o grande denominador comum para o evangelismo em todas as épocas. Mais profunda que todas as "necessidades imediatas" é a necessidade real: Deus. Não somente experimentar a Deus sem impacto emocional, mas mais propriamente dito, experimentar a Deus como "deleite santo". "Fizeste-nos para ti e nossos corações não encontram paz enquanto não repousam em ti". Esta paz é a presença de uma alegria inescrutável. "Aquele que tem Deus é feliz". Não porque Deus dá saúde, prosperidade e propriedade, mas porque Deus é o lugar de descanso da nossa alma. Tornar isso conhecido e experimentado por meio de Jesus Cristo é o alvo do evangelismo e das missões mundiais.

    A doutrina de Agostinho do deleite em Deus é a raiz de todo viver cristão. Ele a aplica a todos os afazeres mais práticos da vida e mostra que, a cada momento, em qualquer circunstância, nos encontramos entre a atração da idolatria e o deleite em ver e conhecer a Deus. Talvez Agostinho tenha vagueado erroneamente, por vezes, no lado do ascetismo numa reação excessiva aos desejos impuros da sua juventude. Mas, a princípio, parece ter acertado. Ele acreditava, por exemplo, que podíamos usar as coisas do mundo de maneira que elas fossem recebidas com gratidão, como dádivas de Deus, de forma a não se tornarem ídolos. Sua regra principal para isso está expressa nesta oração: 'Aquele que te ama junto com outra coisa, ama-te mui pouco; pois não ama tal coisa por amor de ti". Ele ilustra:

    Suponham, irmãos, que um homem fizesse um anel para sua noiva, e que ela viesse a amar o anel de todo coração, com um amor maior do que o amor por seu noivo (...) Tudo bem que ela ame seu presente. Mas, se ela disser: "O anel que me destes é o suficiente, não preciso mais ver a tua face," o que diríamos a respeito dela? (...) O noivo deu o penhor a sua noiva para que através deste ele mesmo fosse amado. Deus também lhe deu todas estas coisas. Ame a este Deus que as fez.
    Em vez de minimizar a grandeza e a beleza deste mundo, Agostinho o admirava e fez dele uma forma de ansiar pela cidade da qual este mundo é apenas a sombra. "Com a ajuda de Deus, tentemos expressar de forma suficiente o que ainda temos por experimentar. E para tal, usemos suas dádivas, que ele distribui igualmente aos bons e aos maus, nesta vida cheia de desgostos".87 Ele pondera as maravilhas do corpo humano e o "ornamento gracioso da barba masculina", e até mesmo admira as habilidades do estudioso pagão: "Quem poderá reconhecer, de forma plenamente justa, o brilho intelectual dos filósofos e heréticos, ao defender seus erros e suas opiniões incorretas"?

    Seu deleite na natureza transpira, neste aspecto, quando ele, ao olhar, talvez, por sobre a baía de Hipona, afirma: "Aí está a grandeza do espetáculo do próprio mar, ao se vestir e despir das suas muitas cores como mantos que, ora possuem todas as nuanças de verde, púrpura, azul (...) Sendo estes, no entanto, mero conforto para nós. Para nós, homens infelizes e castigados: pois estas não são as recompensas dos bem-aventurados. E que recompensas serão, então, aquelas dos salvos, se estas daqui são tantas, grandiosas e de tal qualidade?" O foco constante de Agostinho na Cidade de Deus não o impediu de ver as belezas deste mundo, deleitando-se nelas pelo que são — boas dádivas de Deus sempre apontando para o doador e o regozijo superior de sua presença. Precisamos atender ao apelo incansável de Agostinho para sermos livres dos deleites sedutores deste mundo, não por serem estes maus em si mesmos, mas porque tão poucos de nós os usamos como convém: "Se as coisas deste mundo te encantam, louva a Deus por elas e encaminha este amor para aquele que as criou, para que nas coisas que te agradam não desagrades a ele".
    A visão de Agostinho da salvação por meio de Jesus Cristo e do viver a vida cristã está enraizada na sua compreensão e na sua experiência da graça — a dádiva divina da alegria triunfante em Deus. O poder que salva e santifica é obra de Deus, penetran¬do profundamente na vontade humana, transformando as suas fontes de alegria, para assim amar a Deus mais do que sexo, erudição, alimento, amigos, fama, família ou riqueza. Graça é a chave, pois é concedida livremente e cria um coração novo com novos deleites que governam a vontade e o labor de nossas vidas. "Isso não depende do desejo ou do esforço humano, mas da misericórdia de Deus" (Rm 9.16).

    Se for verdade, como R. C. Sproul afirma, que hoje "a igreja ainda não se libertou do cativeiro pelagiano" — cativeiro este contra o qual Agostinho batalhou por tantos anos por amor à alegria soberana — então precisamos orar e pregar e escrever e ensinar e labutar com todas as nossas forças, para quebrar as correntes que nos prendem cativos. Sproul diz: "Precisamos outra vez da pregação de um Agostinho ou um de Lutero, para que a graça de Deus não venha a ser obscurecida e até eliminada em nossos dias". Sim, precisamos! Mas também precisamos de dezenas e milhares de pastores e pessoas comuns que estejam arrebatadas pelo poder extraordinário da alegria soberana em Deus.

    E precisamos redescobrir o ponto de vista peculiar de Agostinho — um ponto de vista verdadeiramente bíblico — sobre a graça como sendo um dom gratuito da alegria soberana de Deus, que nos liberta da escravidão do pecado. Precisamos re-considerar nossa doutrina reformada da salvação, a fim de que, de cada membro e de cada ramo da árvore, escorra a seiva do deleite agostiniano. Precisamos tornar óbvio que a depravação total não é só maldade, mas cegueira para com a beleza e morte para com a alegria; e que eleição incondicional significa que a nossa completa alegria em Jesus havia sido planejada para nós muito antes mesmo de existirmos; e que a expiação limitada é a segurança de que o gozo indestrutível em Deus está infalivelmente garantido para nós pelo sangue da aliança; e que a graça irresistível é o comprometimento e o poder do amor de Deus para certificar-se de que não nos apegaremos a prazeres suicidas, e para nos libertar pelo poder soberano de deleites superiores; e que a perseverança dos santos é a obra onipotente de Deus para nos manter, por meio de toda aflição e sofrimento, para uma herança de prazeres à mão direita de Deus para sempre.

    Essa percepção da alegria soberana e triunfante é um elemento ausente em grande parte da teologia e do culto cristão - especialmente, da teologia e do culto reformados. Talvez a pergunta que devamos nos fazer seja esta: essas coisas são assim porque não experimentamos o triunfo da alegria soberana em nossas próprias vidas? Podemos declarar, com Agostinho:

    Quão suave se tornou de repente para mim, a I privação dos prazeres infrutíferos, os quais eu tanto temia perder! Tu afastaste estes prazeres de mim, tu que és a verdadeira, a soberana alegria. Tu os afastaste de mim e tomaste seu lugar (...) Tu que és mais doce que qualquer prazer (...) O Senhor meu Deus, minha Luz, minha Riqueza, e minha Salvação.

    Ou será que somos escravos dos prazeres deste mundo de tal maneira que, mesmo falando muito a respeito da glória de Deus, amamos a televisão, a comida, o sono, o sexo, o dinheiro e os louvores humanos exatamente como qualquer outra pessoa? Se este for o caso, arrependamo-nos e fixemos nossos olhos firmemente na Palavra de Deus. E oremos: O Senhor abre meus olhos para que vejam a visão soberana da alegria plena da tua presença, eterno prazer à tua direita (SI 16.11). Concede, O Deus, que vivamos o legado da alegria soberana.


    John Piper