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    O que Significa Vencer o Mundanismo? - Joel Beek



    As coisas mais valiosas da vida não são obtidas e, muito menos, preservadas com facilidade. Isto é verdade no que diz respeito à bênção espiritual de um relacionamento pessoal e salvífico com Deus, de um casamento norteado pela Bíblia, de laços íntimos com familiares e amigos, da aprovação divina sobre o nosso trabalho, de contentamento em Cristo e de um estilo de vida disciplinado, de comprometimento com a igreja e o reino de Deus.

    Nenhuma dessas bênçãos deve ser entendida como algo imediato e garantido. Na vida espiritual, nos relacionamentos pessoais, em todo o nosso labor, este princípio é verdadeiro: o caminho da bênção é o caminho da dor.

    A dor é um ingrediente essencial ao crescimento. Essa é a razão por que falamos em dores de crescimento e repetimos a expressão "Sem dor, sem ganho" (no pain, no gain).

    Na natureza, luta e dor também são necessárias ao crescimento adequado. Considere o exemplo da história de um homem que achou o casulo de uma mariposa e o levou para casa, a fim de vê-la surgir. Um dia, apareceu uma pequena abertura. Durante várias horas, a mariposa lutou, mas, em certo ponto, não conseguia forçar a passagem de seu corpo. Concluindo que algo estava errado, o


    homem pegou uma tesoura e cortou o resto do casulo. A mariposa saiu facilmente, com seu corpo amplo e dilatado, com suas asas pequenas e encolhidas. O homem esperava que em poucas horas as asas da mariposa abririam em sua beleza natural, mas isso não aconteceu. A mariposa gastou a vida se arrastando com seu corpo dilatado e suas asas encolhidas. A luta e o esforço necessários para atravessar a pequena abertura do casulo são o caminho de Deus para forçar a passagem de fluidos do corpo para as asas da mariposa. O bondoso corte feito com a tesoura foi, na realidade, algo muito cruel.

    De modo semelhante, a vida cristã é uma luta. Exige entrada por meio de uma porta estreita e um andar diário num caminho estreito. O caminho cristão não é um caminho intermediário entre dois extremos, e sim um caminho estreito entre dois precipícios. Envolve viver pela fé, com auto-renúncia, travar uma guerra santa em um mundo hostil. É uma guerra árdua, pois o mundo não luta com justiça ou clareza, não aceita cessar fogo e não assina tratados de paz.

    Para observarmos como o crente pode vencer o caminho do mundanismo, examinemos 1 João 5.4-5, que diz: "Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus?"

    Em capítulo anterior de sua epístola, João nos encoraja a fugir do mundanismo. 1 João 2.15-17 afirma: "Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente".

    Nestes versículos, João contrasta o amor ao mundo com o amor ao Pai. Esses dois são incompatíveis. E Jesus disse: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro" (Mt 6.24). Um único amor deve governar nossa vida: uma paixão santa por Deus e por suas coisas. A escolha é clara, e as orientações, simples; mas o        caminho não é fácil. Jesus também disse: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca" (Mt 26.41).

    O que João pretendia dizer com apalavra "mundo"? Apalavra grega kosmos, ou mundo, tem vários significados no Novo Testamento. Em 1João 5.4, o apóstolo não se refere ao mundo físico em que vivemos ou às inúmeras pessoas que vivem neste planeta. Pelo contrário, João usa esta palavra para se referir a um reino cujo governante e súditos estão perdidos no pecado, em total discordância com tudo que agrada a Deus. O apóstolo está falando sobre o reino das trevas de Satanás, que inclui todas as pessoas que estão sob o domínio de Satanás e vivem de acordo com os padrões deste mundo.

    No texto de 1 João 5, "mundo" é uma esfera que está em oposição a Cristo e à sua igreja. Este mundo, embora criado para refletir a glória de Deus, vive agora em rebelião contra o Senhor e o seu Cristo (SI 2.2). Tornou-se um mundo caído e desordenado, nas mãos do Maligno — um mundo rebelde e alienado porque Adão quebrou o seu relacionamento com Deus. O mundo é a humanidade pecami¬nosa, vista em sua totalidade, sob o domínio do deus deste século (2 Co 4.4), entregue à injustiça, hostil à verdade e ao povo de Deus. O mundo significa homens, mulheres e crianças que se focalizam nas concupiscências do mundo e negligenciam o mundo por vir. Apesar de suas grandes conquistas, este mundo está perdido e incapaz de salvar a si mesmo.

    O alvo das pessoas do mundo é avançar para frente e não para o alto, viver no sentido horizontal, e não no sentido vertical. Buscam prosperidade exterior, em vez de santidade. Estão repletas de desejos egoístas, e não de súplicas sinceras a Deus. Se não negam a Deus, elas O ignoram, O esquecem ou O buscam apenas por causa de seus desejos egoístas.

    O mundanismo é a natureza humana sem Deus. Alguém que pertence a este mundo é controlado por interesses mundanos: a busca por prazer, lucro e status. O homem mundano se rende ao espírito da humanidade caída — o espírito de interesse pessoal e auto-satisfação. Por natureza, todos nós nascemos mundanos. Pertencemos a este mundo perverso; ele é nosso habitat natural.

    Por natureza, temos uma mentalidade mundana que não está sujeita "à lei de Deus, nem mesmo pode estar" (Rm 8.7). Assim como somos nutridos pelo cordão umbilical, enquanto estamos no ventre de nossa mãe, assim também estamos ligados a este mundo desde o nascimento. Nosso entendimento foi obscurecido (Ef 4.18) pela culpa do pecado de Adão, a qual foi transmitida a todos nós. Apesar de nosso mundanismo natural, o apóstolo João fala, de modo impressionante, a respeito da vitória sobre essa desvantagem. Ele diz: "Todo o que é nascido de Deus vence o mundo". João usa esta expressão 16 vezes em seus escritos — mais do que todos os outros autores da Bíblia considerados juntos. Mas, o que significa exatamente "vencer o mundo"?

    João não pretendia dizer que isto significa conquistar as pessoas deste mundo, vencendo batalhas grandiosas sobre os nossos semelhantes ou dominando os outros. Ele não se referia a governantes com Alexandre, o Grande, que, após conquistar o mundo, entristeceu-se por não haver mais mundo a ser conquistado.

    As palavras de João também não significam que devemos retirar-nos do mundo, como um monge ou um Amish, que tendem a retirar-se do mundo estabelecendo suas próprias comunidades. Um crente é chamado a lutar neste mundo, embora não seja deste mundo. Tem de viver no mundo, mas não permitir que o mundo viva nele. Fugir do mundo não é o mesmo que vencê-lo. Fugir do mundo é como um soldado que evita o sofrimento, por fugir do campo de batalha. No reino de Deus, não há lugar para dissidentes espirituais, pois os crentes são chamados a uma guerra, e não a um piquenique.

    Vencer o mundo também não significa santificar todas as coisas do mundo para Cristo. Algumas coisas do mundo podem ser redimidas para Cristo, mas atividades pecaminosas nunca podem ser santificadas. Por exemplo, não precisamos cristianizar a dramatização ou a dança para uso no culto público, nem cristianizar as formas de entretenimento que Hollywood tem a oferecer-nos.

    Para o apóstolo João, vencer o mundo significa lutar pela fé contra o curso deste mundo perverso. Vencer o mundo envolve vários aspectos essenciais: (1) uma decisão de vencer o mundanismo; (2) liberdade e perseverança por meio de Cristo; (3) manter-se acima das circunstâncias mundanas; (4) uma vida de auto-renúncia.