• Puro conteúdo Reformado!

    ReformedSound

    .

    .

    Francis Schaeffer: "Levando cativo todo o pensamento"


    A crença prevalecente na segunda metade do século 20 é que o homem está morto — e o próprio Deus também morreu. A vida se tornou uma existência sem significado, e o homem não passa de uma roda na engrenagem cósmica. O único escape passa por um mundo de vazio existencial, drogas, absurdo, pornografia e loucura. Mas, a responsabilidade da igreja não é apenas confessar as doutrinas básicas da fé cristã — é seu dever comunicar essas verdades à sua geração.

    Cada geração de cristãos se defronta com o problema de aprender como falar ao seu tempo. É um problema que não se pode resolver sem o entendimento do tempo presente, em constante mudança, com que a igreja também se defronta. Para que consigamos comunicar a fé cristã de modo eficiente, portanto, temos de conhecer e entender o pensamento da nossa geração.

    Francis Schaeffer foi um dos principais pensadores evangélicos contemporâneos que procurou compreender a cultura secular.

    Compromisso com as Escrituras

    Francis August Schaeffer nasceu em 30 de janeiro de 1912, em Germantown, Pensilvânia, nos Estados Unidos. Em 1930, ele se tornou cristão, depois de ler a Bíblia por aproximadamente seis meses, começando em Gênesis. Casou-se com Edith Sevilha, em 26 de julho de 1935 — Edith nascera na China, em 3 de novembro de 1914, filha de missionários presbiterianos. Ela afirmou depois que, se alguém quisesse saber por que Schaeffer se preocupa tanto com a Bíblia, bastaria saber que ele, aos 17 anos de idade, com toda a sua sede de respostas aos questionamentos da vida, começou a descobrir, por si mesmo, respostas adequadas e completas diretamente na Bíblia.
    Em setembro de 1937, Schaeffer entrou no Seminário Teológico Westminster, ligado à igreja presbiteriana ortodoxa, sendo profundamente influenciado pelos escritos de J. Gresham Machen, Cornélius Van Til, Herman Dooyeweerd e Hans Rookmaaker. Schaeffer recebeu a graduação no Seminário Teológico Faith, que ele tinha ajudado a fundar, depois de uma divisão no Westminster, em 1937. Nesse seminário, ele foi bastante influenciado por Allan MacRae. Foi ordenado em 1938, como pastor da Igreja Presbiteriana Bíblica, e serviu como pastor na Pensilvânia e no Missouri durante dez anos.

    Durante três meses, em 1947, a família Schaeffer viajou pela Europa, para avaliar o estado da igreja por lá, como representantes da Junta Independente para Missões Estrangeiras Presbiterianas. Em 1948, Schaeffer se mudou para Lausanne, na Suíça, com Edith e suas três filhas, para serem missionários. O trabalho deles era principalmente de evangelização de crianças. Em 1949, eles se mudaram para o Chalé les Frênes, na aldeia montanhosa de Champéry, na Suíça.

    No inverno de 1951, Schaeffer entrou numa profunda crise espiritual. Nesse período, ele reconheceu que algo estava bastante errado e buscou reconsiderar com muito cuidado seu compromisso cristão e as prioridades em sua vida. Ele emergiu dessa experiência — que chamou de "um pequeno vislumbre da glória de Deus" — com uma nova certeza sobre sua fé, uma nova ênfase na santificação e na obra do Espírito Santo, e uma nova direção para sua vida, que se desdobraria durante os próximos quatro anos.

    Entre 1953 e 1954, eles viajaram pela região rural dos Estados Unidos, falando sobre espiritualidade cristã — foram mais de 300 palestras ao longo de 500 dias. Durante esse tempo, Schaeffer apre¬sentou as idéias que cresceram durante sua crise espiritual e que depois se tornaram o fundamento para seu importante livro, Verdadeira espiritualidade. Em 1954, eles retornaram a Champéry, na Suíça. Nesse mesmo ano, Schaeffer se uniu à Igreja Presbiteriana Reformada, uma pequena denominação presbiteriana já existente. E em 1956 foi fundado o Seminário Teológico Covenant — onde, desde 1989, funciona o Francis Schaeffer Institute, que em meados de 1990 contava com mais de 500 alunos.

    Missionários na Europa

    Em abril de 1955, a família Schaeffer (com mais um filho) se mudou, então, para o Chalé lês Mélèzes, em Huémoz, nos Alpes da Suíça, depois de receber o dinheiro necessário para comprar essa propriedade, numa série de circunstâncias milagrosas — isso marcou o começo informal da comunidade LAbri (que significa refú¬gio, em francês).

    O vilarejo situa-se a mil metros acima do vale do Rhône, na estrada que vai a um famoso centro de esqui. Na maioria, as pessoas que iam para LAbri estavam descontentes com suas idéias e buscavam respostas reais às próprias indagações. Havia também muitos evangélicos que iam para lá com o desejo de ter mais influência como cristãos na segunda metade do século 20. Em LAbri viviam jovens de todas as nacionalidades: japoneses, holandeses, africanos, alemães, indianos, ingleses, sul-africanos, americanos, sul-coreanos e muitos outros. Havia também ateus, agnósticos, existencialistas, além de hindus, judeus praticantes e não praticantes, católicos, protestantes liberais, budistas e todos aqueles que receberam influências do relativismo moderno. Como Schaeffer disse:

    Edith e eu nos dedicamos a Deus com um propósito. Não desejávamos iniciar um ministério evangelístico, [tampouco] um ministério entre jovens, ou para intelectuais ou na área de dependentes de drogas. Nós simplesmente nos oferecemos a Deus e pedimos que ele nos usasse para demonstrar que ele continua existindo na nossa geração. Isso é tudo que o L'Abri representa; foi assim que tudo começou.

    Em 1968, foi publicado O Deus que intervém, o primeiro dos 23 livros de Schaeffer, baseado em conferências realizadas no Wheaton Collège, nos Estados Unidos, em 1965. Nesse livro, Schaeffer expôs o vazio do pensamento secular e da moderna teologia, mas, muito mais do que isso, ofereceu a esperança de que o homem pode encontrar de novo sua verdadeira personalidade e propósito, se voltar à Palavra vivificadora que Deus nos revelou nas Escrituras. Ainda em 1968, foi lançada A morte da razão. Nessa obra, Schaeffer ofereceu um panorama de como a arte e a filosofia têm sido o espelho do dualismo existente no pensamento ocidental desde o Renascimento. Hoje, esse dualismo se expressa no desespero que o homem sente diante do racional, na sua fuga para um mundo irracional e místico, que é o único que, aparentemente, oferece alguma esperança. Tal tendência pode ser vista na literatura, na arte e na música, no teatro e no cinema, na televisão e na cultura popular. Nas palavras de Schaeffer: "Hoje toda a nossa geração está presa ao irracionalismo, visto ter-se afastado do ensino da Palavra de Deus". Em 1970, foi lançada A igreja do final do século vinte, obra onde Schaeffer buscou descrever o ambiente social no qual a igreja se encontrava.

    Francis e Edith Schaeffer realizaram, em janeiro de 1977, uma série de seminários em 22 cidades nos Estados Unidos, e nesse mesmo ano Francis ajudou a fundar o Concílio Internacional sobre a Inerrância Bíblica, proferindo a palestra "Deus dá ao seu povo uma segunda oportunidade". O testemunho claro dos evangélicos reunidos no concílio foi que a doutrina da inerrância é a posição cristã histórica, afirmando que as Escrituras são a Palavra de Deus, sem erro, em todas as áreas que menciona. Ele disse em outro texto:

    É preciso que a Bíblia seja considerada a Palavra de Deus, em tudo o que ela ensina — tanto em questões de salvação quanto de história e ciência e moralidade. E, se for fraca em qualquer uma dessas áreas, o que infelizmente se aplica a muitos que se chamam evangélicos, estaremos destruindo o poder da Palavra de Deus e colocando-nos a nós mesmos nas mãos do inimigo.
    Em outubro de 1978, foi diagnosticado um câncer em Francis Schaeffer, pela clínica Mayo, em Rochester, Minnesota. Em dezembro de 1983, Schaeffer viajou em condições críticas de saúde, da Suíça para a clínica Mayo. Ele pregou, numa última excursão, em dez faculdades cristãs, durante março e abril de 1984, morrendo em sua casa, em Rochester, Minnesota, em 15 de maio. No leito de morte, ele fez esta oração final: "Querido Deus Pai, eu terminei meu trabalho. Por favor, leve-me para casa. Estou cansado".

    Em 1985, foi publicado postumamente o Manifesto cristão, onde Schaeffer buscou apontar direções para uma postura política equilibrada, centrada na Palavra de Deus.

    Um novo modelo de defesa da fé

    Cornélius Van Til foi o grande responsável pela tentativa de mudar o foco do debate com pensadores não-cristãos sobre a existência de Deus e a validade das reivindicações cristãs, focalizando-o na viabilidade e na coerência das posições não-cristãs. Ele argumentou que o pensamento não-cristão não consegue responder aos problemas fundamentais da vida e da filosofia, e que toda filosofia não-cristã não passa de uma tentativa de fugir de Deus. Van Til era um apologista proposicional. Essa abordagem reconhece que nenhum fato, histórico ou não, pode ser interpretado de maneira coerente sem pressupor a fé no Deus trino — infinito e pessoal —, como revelado na Escritura.

    Por exemplo, ao lermos as Escrituras avançamos a partir das pressuposições reveladas na Escritura, através das proposições das Escrituras até as conclusões da Escritura. Isso não é neutro nem objetivo. Mas, metodologicamente, não podemos esperar que sequer entendamos, e muito menos que aceitemos a mensagem da Escritura se impusermos pressuposições estranhas a ela. Devemos, portanto, permitir que nosso pensamento, pelo menos temporariamente, seja moldado pelas pressuposições da Escritura, a fim de entendê-la.

    Colin Brown considera que existem lacunas no pensamento de Van Til. Mas que, mesmo assim, ele deu passos importantes em direção a uma apreciação filosófica da religião bíblica. Sua discussão de pressupostos e sua lembrança de que os homens não precisam da comprovação da existência de Deus, por já terem consciência dele, são de máxima importância.

    Schaeffer, que em grande medida estava seguindo Van Til, pro¬curou demonstrar a necessidade de pressupor a existência e a realidade de Deus, visto que negar sua existência significa negar tudo o que é verdadeiro e significativo. Como ele disse: "Portanto, para nós agora, mais que em qualquer época, a apologética pressuposicional é imperativa". Ele argumentou que os não-cristãos não vivem — e não podem viver — de modo inteiramente coerente com suas pressuposições ateístas, que são inadequadas para justificar a existência humana. Somente o cristianismo "pode ser vivido [coerentemente], tanto na vida cotidiana como na busca da erudição". Ele entendia que nenhum fato é auto-evidente: todos os fatos são interpretados e podem ser entendidos de modo adequado apenas no contexto de uma cosmovisão. O papel da não-contradição também foi enfatizado, já que ele faz parte da imagem de Deus com a qual fomos criados. Ele acreditava que as pessoas procuravam uma fuga da razão. Como conseqüência, todas as cosmovisões não-cristãs são incoerentes.

    O seguinte incidente ilustra esse modelo apologético: certo dia, Schaeffer estava conversando com um pequeno grupo de estudantes no quarto de um aluno sul-africano, na Universidade de Cambridge, quando um jovem hindu começou a atacar veementemente o cristianismo, sem, no entanto, "entender os problemas reais relacionados às suas próprias convicções". Schaeffer voltou-se para o estudante indiano e disse: "Não é verdade que, se admitirmos o seu sistema, não fará nenhuma diferença, em última instância, se sou ou não sou cruel, pois não há diferença essencial entre as duas?". O estudante concordou que isso era verdade. Os outros alunos ficaram chocados com essa idéia. Mas o aluno em cujo quarto eles estavam reunidos pensou rápido; pegou uma chaleira com água fervendo e inciinou-a, de forma ameaçadora, sobre a cabeça do estudante indiano. Quando o hindu quis saber o que ele pensava estar fazendo, o estudante simplesmente respondeu: "Não há diferença entre crueldade e não-crueldade". Em silêncio, o jovem hindu se levantou e saiu do quarto.

    Todas as pessoas têm alguma consciência de Deus (Rm 1.18-32). Como Schaeffer disse: "Toda pessoa com quem falamos, seja a balconista ou o universitário, tem um conjunto de pressuposições, quer os tenha analisado ou não". Conseqüentemente, quando evangelizamos, podemos saber que, no fundo do coração, eles têm consciência da existência de Deus. Não existem ateus genuínos, pois os que assim se dizem desejam convencer-se de que Deus não existe.

    Tanto para Van Til como para Schaeffer, a apologética começa no momento em que o incrédulo levanta objeções e dúvidas à palavra pregada. O apologista deve responder e refutar as objeções com amor e erudição, primeiro para dar respostas honestas às dúvidas do incrédulo, e, segundo, para evitar que elas atrapalhem a fé dos cristãos. Contanto que as dúvidas do incrédulo sejam sinceras e honestas, deve-se responder. Os dois usavam a apologética para mostrar ao incrédulo que a sua vida sem Cristo é irracional e sem sentido e que ele deve entregar-se a Jesus. Quando as objeções do não-crente se tornam obstinadas e insinceras — quando ele não quer respostas de verdade, mas usa as objeções como desculpa para fugir da verdade —, é melhor terminar a discussão e deixá-lo com o comando de Deus para se arrepender e crer no evangelho. Não obstante, mesmo nesse caso, é bom refutar os argumentos do incrédulo para benefício do povo de Deus, para que não permaneça nenhuma dúvida quanto ao fato de que o cristianismo é a única opção que não destrói toda racionalidade e significado da vida do ser humano.

    Ser cristão no final do século 20
    Francis Schaeffer teve uma compreensão especial da mentalidade do século 20, identificando-se com as pessoas influenciadas por tal mentalidade. Ele buscou demonstrar como as novas filosofias e teologias se encaixavam na complexa história do pensamento e da cultura moderna. Em outras palavras, ele buscou oferecer uma visão panorâmica do pensamento ocidental e oriental, e em como ele afetava o pensamento cristão e não-cristão. Isso era algo que poucos evangélicos faziam: explicar as respostas que a fé cristã oferece aos maiores dilemas do homem.

    A grande força do pensamento de Schaeffer é que não foi produ¬zido num gabinete de estudos, mas durante uma constante exposi¬ção às dúvidas e perplexidades de indivíduos provenientes dos mais variados meios. J. I. Packer lhe rendeu o seguinte tributo:

    Que importância terá Schaeffer para a causa cristã a longo prazo? [...] Meu palpite é que os seus esboços verbais e visuais, que me parecem simples porém brilhantes, sobreviverão a tudo o mais, mas eu posso estar enganado. O que é certo para mim, entretanto, é que eu não estaria totalmente errado em homenagear Francis Schaeffer, o pequeno pastor presbiteriano [...], como um dos verdadeiramente grandes cristãos do meu tempo.

    Uma entrevista sobre Schaeffer

    A entrevista a seguir foi concedida por J. Scott Horrell, doutor em Teologia, professor de Teologia Sistemática no Seminário Teoló¬gico de Dallas, no Texas, Estados Unidos. Ele foi, durante muitos anos, professor da mesma matéria na Faculdade Teológica Batista de São Paulo e no Seminário Teológico Servo de Cristo, também em São Paulo. É autor, dentre outros, dos livros Maçonaria e fé cristã (São Paulo: Mundo Cristão, 1995) e From the Ground Up: New Testament Foundations for the 21st Century Church (Grand Rapids, Michigan: Kregel Academic, 2004), além de vários artigos na revista teológica Vox Scripturae.

    Por quanto tempo o senhor conviveu com Francis Schaeffer?
    Estive no LAbri por três meses, de setembro até o Natal de 1971. Havia perto de 75 pessoas ali naquela época, de 10 a 15 visitantes e cerca de 60 alunos. Todos os alunos trabalhavam a metade do dia e estudavam durante a outra parte. O dr. Schaeffer brincava dizendo que LAbri era uma das poucas comunidades com banheiros limpos, sinal da ética bíblica e do amor fraternal.

    Qual era a sua impressão de Francis Schaeffer então?
    Muitos da minha geração estavam buscando respostas para as questões espirituais e filosóficas. Schaeffer foi o missionário da geração contracultura. Ele era um homem que combinava inteligência e discernimento dos tempos com uma fé forte e verdadeira experiência com o Senhor. Como um missionário presbiteriano na Suíça, ele entrou num profundo período de dúvidas, em meados da década de 1950. Caminhava muito pelos Alpes da Suíça, reavaliando toda a fé cristã. Quando chegou à convicção de que não há outra resposta ao dilema humano, que somente a Santa Trindade e a Bíblia dão estrutura adequada para o ser humano, ele entrou numa nova fase da vida, fase ungida e agressiva na fé. Em 1971, os médicos disseram que o dr. Schaeffer teria apenas mais dois anos de vida. Ele pregava com tanto entusiasmo e fervor que os outros líderes queriam colocar um tanque de oxigênio no púlpito, caso desmaiasse durante a pregação. Ele continuou firme até quase o fim, em 1984. De vários líderes e teólogos que conheço, ainda coloco o dr. Schaeffer como a pessoa que mais marcou a minha vida. Um homem que vivia o que falava.

    Como era a vida de Schaeffer em família?
    Não sei muito sobre a vida familiar do dr. Schaeffer. Isso é contado por Edith em seu livro L'Abri [publicado em inglês]. As três filhas [Priscila, Susana e Débora] já estavam casadas, duas morando com suas famílias na comunidade LAbri. Jantamos em chalés diferentes a cada noite, chegando a conhecer relativamente bem a maioria dos moradores. Jantei uma noite com Franky Schaeffer, o filho [de Francis], e a esposa, que tinham chegado recentemente da Escola de Artes de Londres. Ele achava que ser missionário é algo inferior a ser um artista que luta para mudar a cultura. Discordamos. Naquela época, a comunidade LAbri de fato era apenas alguns chalés espalhados dentro da aldeia suíça de Fíuémoz. Alguns moradores dessa cidadezinha eram contra a obra do dr. Schaeffer, que estava levando muitos estrangeiros àquela vida tranqüila! De fato, a família dos Schaeffer, com o crescimento de LAbri, incluía muito mais do que só a própria família. Contudo, a cada Natal, todos os visitantes e alunos saíam de LAbri, deixando a grande família Schaeffer sozinha.

    Qual é o papel de Edith no ministério de Schaeffer?

    Os alunos de LAbri circulavam entre os chalés para o jantar, quase sempre em meio a perguntas, discussões e bate-papo. Edith fez muito para criar um ambiente caseiro. Ela sempre foi bem caprichosa no preparo (e economia) das refeições, a casa dela era um modelo para os outros chalés. Foi ela quem embelezou LAbri. Depois dos jantares, havia várias atividades e os alunos podiam ficar à vontade. Uma ou duas vezes por semana, havia uma noite de per-guntas e respostas com o casal Schaeffer. Dava para ver o profundo e franco relacionamento entre os dois. Edith era uma mulher de fé tão forte quanto o marido. De certa forma, dos dois, ela era a mais forte. Por exemplo, quando Francis esteve duvidando da fé, foi ela quem continuou orando. E ela era tão disciplinada quanto ele. Os dois foram muito prolíficos em escrever, ensinar e aconselhar hippies procurando a verdade ou até viciados em drogas, muitas vezes pela noite inteira.

    Como era seu trato com os estudantes que iam para L'Abri?

    Devido aos primeiros livros do dr. Schaeffer e ao belo lugar nos Alpes, LAbri virou um tipo de centro evangélico de turismo — algo que ninguém em LAbri queria! Eles tentaram manter certo equilíbrio nos cerca de 60 alunos (entre casais e solteiros) e cristãos novos, problemáticos e maduros. De fato, poucos estavam sendo aceitos como alunos, pois não havia muito lugar. Os alunos podiam permanecer em LAbri por um, dois ou três meses. Para isso, eram pedidos três dólares por dia, se a pessoa tivesse dinheiro. Alguns não-cristãos foram hospedados por até dez dias sem pagar nada, mas comprometiam-se a se engajar em palestras e discussões. Assim, muitos visitantes eram convertidos, jovens europeus, hippies da Califórnia, filósofos, membros de seitas, um muçulmano da Indonésia etc. Durante esse tempo, um dos Beatles telefonou para o dr. Schaeffer, e Timothy Leary, que foi professor na Universidade de Harvard na década de i960, exilado pelo governo americano por defender o uso de drogas, ganhou uma Bíblia de Schaeffer — ele morava pertinho de LAbri. Muitos outros freqüentavam a comunidade. Uma coisa que especialmente me impressionou: a cada segunda-feira os alunos eram convidados a jejuar e orar. LAbri não pedia publicamente dinheiro e não anunciava as necessidades financeiras — é óbvio que, com tantas pessoas, havia muitas! A família Schaeffer desejava que LAbri fosse um testemunho fiel e inegável do poder e da presença do Senhor. Uma vez, oramos por 186 mil dólares, e a resposta veio naquela semana. O dr. Schaeffer insistia que L'Abri fosse uma comunidade sustentada pelo Senhor, e, quando o Espírito Santo não atuasse mais naquele lugar, não haveria uma instituição perpetuando o que Deus já tinha deixado. LAbri funcionava por meio da fé e não de manipulações e pedidos de sustento; isso tocou nossas vidas. E houve bastante cuidado no uso de recursos. A família Schaeffer nem tinha um carro. E havia pouca carne nas refeições.

    Qual o impacto de L'Abri em sua vida?

    Antes de viajar para LAbri, eu me formei numa faculdade cristã, em literatura. Embora já estivesse envolvido em missões, como a Jocum [Jovens com uma missão], não tinha respostas para as questões básicas da vida. Imediatamente depois da minha formatura, fui convidado a atuar como pastor interino numa igreja batista de Seattle, num bairro bastante rico, onde hoje fica a sede da Microsoft. Não levou muito tempo para ver que eu não tinha a maturidade para tal tarefa. Eles acharam um pastor permanente — motivados por minha incapacidade! — e eu saí totalmente desanimado. Essa é uma longa história, mas o Senhor abriu a porta para minha participação na comunidade LAbri. Naqueles meses, senti que as la¬cunas e as fraquezas do meu entendimento bíblico e intelectual foram fechadas e fortalecidas. Conheci uma verdadeira comunidade evangélica, onde havia integridade, fé e visão para o mundo. Também, o Senhor foi misericordioso comigo. Estava em dúvida sobre a doutrina da Trindade, que é o coração da fé cristã histórica. Voltei a estudar a Bíblia e comecei a descobrir o porquê dessa doutrina, os dados bíblicos que não deixam espaço para outro conceito do nosso Senhor Trino. E isso renovou a minha vida devocional. Foi como se as janelas do céu se abrissem, e a plenitude do Senhor voltou à minha vida. Duas coisas foram resultados do meu tempo em LAbri. Primeiro, recebi uma nova confiança no Senhor. Sem dinheiro, eu fui ao Caribe, para as ilhas de Trinidad e Tobago. Já tinha estado lá antes. Mas dessa vez senti o chamado para evangelizar de casa em casa e pregar onde podia, fosse nas ruas ou nas igrejas. Conversei com quase todas as pessoas, em quase todos os lugares de Tobago. Vi, mais do que nunca em minha vida, que o Senhor é real. Que quando buscamos primeiro o Reino de Deus, ele providencia todas as nossas necessidades. Segundo, o dr. Schaeffer insistiu na inerrância bíblica. Quando rejeitamos a Palavra de Deus como nossa autoridade absoluta, não há mais base nem estrutura para a vida. Eu sabia que precisava de mais conhecimento bíblico, inclusive das línguas originais [hebraico e grego] — outra ênfase de Schaeffer. Na sua exegese, Schaeffer interpretou o texto bíblico de forma bem literalista, mais do que qualquer outra pessoa que co-nheço. Mas isso transmitiu um desejo de me aprofundar na Sagrada Escritura — e mais tarde de ensinar.

    Qual é a importância dos escritos e testemunho de Francis Schaeffer hoje?

    O dr. Schaeffer tinha uma intuição extraordinária quanto às mudanças da cultura ocidental. Ainda em 1971, ele sabia que a geração depois da contracultura não iria mais se preocupar com as grandes questões da vida. Sem usar essas palavras, Schaeffer estava prevendo o pós-modernismo de hoje, em que não há mais qualquer esperança de absolutos. Ele sabia que a sua mensagem estava diretamente ligada à contracultura e que viria o dia quando sua voz teria pouca influência na cultura geral. E essa hora já chegou. Por outro lado, o exemplo de Francis Schaeffer continua relevante e vital para nós, como evangélicos, diante de novas gerações em culturas diferentes. Devemos ser conhecedores do contexto moderno, não apenas num nível superficial, mas no nível filosófico, sabendo por que acontecem as mudanças — por exemplo, a obsessiva preocupação com divertimento, com sexo e com riqueza. Ainda mais importante, Schaeffer nos ensina que devemos segurar firmemente a Bíblia como nosso manual de vida. Uma vez, meio perturbado, eu lhe perguntei: "Mas como posso saber se a Bíblia é a verdade?". Ele respondeu: "Viva o que ela diz e você vai saber". Ou seja, quando obedecemos à Palavra, ela se prova verdadeira em nossa vida. Finalmente, Schaeffer se colocou contra qualquer espiritualidade desligada da Palavra, de um lado, ou do contexto histórico, do outro. Para os que jogam teologia e doutrina fora, substituindo-as por uma experiência mística, ele diria que isso é fatal para a fé crista no futuro. E os que, em nome do intelectualismo, põem em dúvida o claro ensino da Bíblia, ele os acusaria de apostasia e de veneno para a vida da igreja. E aos que andam em tradições religiosas sem engajamento histórico criativo, ele gritaria: "Desperta, ó tu que dormes!". Enfim, o dr. Schaeffer faz-nos lembrar de que a fé bíblica atinge e transforma todos os aspectos da vida. E essa herança é nossa, para a passarmos à próxima geração.


    Franklin Ferreira