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    Confissão sem obediência – J. Montegomery Boice (1938-2000)



    João tem palavras duras para a pessoa que alega conhecer a Deus mas que não obedece aos seus mandamentos: “E nisto sabemos que o conhecemos: se guardamos os seus mandamentos...” (1 Jo 2.3) -  Ele a chama de mentirosa: “Aquele que diz: Eu o conheço e não guarda os seus mandamentos é mentiroso...” Ou seja, esse indivíduo não foi enganado por alguém nem está confuso pelos fatos. Em vez disso, ele está confessando abertamente algo que sabe não ser verdade e, assim, deveria ser considerado um mentiroso. E mais, diz João, "e nele não está a verdade". Essa frase pode ser não mais do que uma reafirmação da alegação de que o homem que professa conhecer a Deus enquanto está de fato desobedecendo aos seus mandamentos é um mentiroso, mas também pode significar mais do que apenas isso. Pode significar que a verdade não será encontrada nele no sentido de que alguém que busca a verdade deveria ir, não a esse homem, mas a uma outra fonte. Nesse caso, a frase obviamente se aplica aos falsos mestres da época de João (que aqueles que buscam de fato a Deus deveriam evitar) e aos falsos mestres de nossa época também. Isso significa que se deve buscar a verdade não junto ao homem que tem qualificações intelectuais apenas, mas junto ao homem que alega conhecer as coisas espirituais e tem uma conduta correta. A menos que haja uma genuína e visível retidão, os ensinamentos de tal homem sobre Deus devem ser ignorados.

    Obediência resultante do amor

    O segundo tipo é o homem que obedece a Deus. Ele não faz grandes declarações sobre o quanto conhece a Deus, como faziam os gnósticos. Pelo menos João não está dizendo que ele faz tais declarações. Mesmo assim, ele conhece de fato a Deus.

    Duas características são ressaltadas sobre esse homem. Primeiro, o amor por Deus é aperfeiçoado nele. Em grego, a expressão "amor por Deus" contém um genitivo ("amor de Deus"), o que pode ser entendido de três maneiras diferentes. Pode ser que Deus seja o sujeito, e a referência é ao amor de Deus por nós. Pode ser ainda que Deus seja o objeto, e a referência é ao nosso amor por Deus. Finalmente, pode ser uma referência ao amor divino; ou seja, ao amor que é da natureza de Deus. O segundo significado é o melhor. Significa que, se um homem ama Deus, vai buscar agradá-lo e guardar seus mandamentos.

    Tudo o mais é hipocrisia. Anos atrás, quando a assim chamada "nova moralidade" estava no pico de sua popularidade, muitos teólogos se encontraram para discuti-la. A maioria estava a favor, assim a discussão se concentrou no valor de ser livre de quaisquer regras e regulamentos. "Mas precisa haver algumas orientações", alguém disse. Isso foi discutido. Ao final, foi decidido que a única orientação aceitável era o amor. Tudo o que fluísse do amor era permitido. Tudo era permitido desde que não ferisse ninguém. Enquanto a discussão estava seguindo nesses termos, um padre católico, que tinha sido convidado para a discussão e estava na sala, ficou muito quieto. Com o tempo, as pessoas perceberam. Os outros se viraram para ele e perguntaram o que ele pensava. "Você concorda que o único fator limitador em qualquer decisão ética é o amor?", perguntaram-lhe.

    O padre respondeu: "Se me amardes, guardareis os meus manda-mentos" (Jo 14.15).

    A segunda declaração feita sobre o homem que obedece a Deus é que ele tem confiança espiritual pois, diz João, "nisto conhecemos que estamos nele". É incerto se a expressão "nisto" se refere ao que foi antes ou ao que se segue. A frase não contém partículas de conexão nem a que se segue. Assim, a passagem por si só é indeterminada. Além disso, para a tornar o assunto ainda mais confuso, João aparentemente usa a expressão "nisto" de ambos os modos. Mais freqüentemente se refere ao que se segue; mas às vezes, como em 4.6, claramente se refere ao que foi dito antes.

    Apesar das opiniões sobre as duas possibilidades, sinto que a idéia de que se refere a um homem que obedece a Deus e que assim tem a certeza de que é um cristão é a correta, pois o versículo 6 não é tanto uma reafirmação do teste pelo qual podemos saber se o conhecemos, como é uma conclusão ou uma exortação dirigida a aqueles que assim o fazem. Isso é assim, então o versículo 6 é um desenrolar independente de todo esse trecho, e a frase "nisto conhecemos que estamos nele" corretamente se relaciona ao que a precede como uma segunda conseqüência na vida do homem que obedece a Deus. A seqüência de pensamentos torna-se assim que (1) o homem que obedece a Deus pode saber (a) que seu amor por Deus está sendo aperfeiçoado e (b) que ele está "em" Deus. Assim, (2) todos os que dizem que estão ligados a Deus deveriam reassegurar a si e aos demais obedecendo ao Senhor.

    Conclusão

    Essa conclusão também serve para os cristãos que vivem em nossa época. Dizemos que somos cristãos? Então "quem alega viver nele precisa caminhar como Jesus caminhou". A chamada é para imitar Jesus em nossa conduta. "Inicialmente, ele tinha posto a luz de Deus ante nós como um exemplo. Agora ele nos chama também para Cristo, para imitá-lo. Ele não apenas nos exorta a imitar a Cristo como, mais, pela união que temos com Ele, provar que deveríamos ser como Ele", disse Calvino.

    Caminhar como Cristo caminhou é viver, não por regras, mas por exemplo. É segui-lo, ser seu discípulo. Esse discipulado é pessoal, ativo e custoso. É pessoal porque não pode ser passado para outro. De fato, devemos nos encontrar com Cristo, como Pedro fez depois da ressurreição. Jesus perguntou a Pedro se ele o amava. Quando Pedro respondeu que sim, foi-lhe dito que apascentasse as ovelhas do Senhor. Isso foi repetido três vezes, e começou a irritar Pedro. Assim, para escapar do cuidadoso teste de Cristo, virou-se para João, o discípulo amado, que aparentemente estava a alguma distância, e perguntou: "Senhor, e deste que será?" Jesus respondeu: "Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu". Em outras palavras, não havia escapatória da chamada para um discipulado pessoal de Pedro.

    Caminhar como Cristo caminhou também é algo ativo porque o Senhor é ativo. Ser inativo é ser deixado para trás.

    Finalmente, também é custoso, pois o caminho que Jesus percorreu é o caminho da crucificação, e ele leva para a glória, mas antes leva até a cruz. Esse é um caminho que pode ser percorrido apenas por alguém que morreu para o seu ego e que foi deliberadamente levado à cruz de Cristo para segui-lo.

    Tal pessoa, seja nos dias de João ou nos dias de hoje, sempre terá confiança diante de Deus e terá a certeza de que o conhece. Aqui Dodd conclui com muita propriedade,

    Nessa passagem nosso autor está não apenas refutando tendências perigosas na igreja de sua época mais também discutindo um problema de importância constante, sobre a validade da experiência religiosa. Podemos ter a percepção da presença de Deus, de união com Ele, mas como podemos saber se essa experiência corresponde à realidade? E evidente que nenhuma clareza ou força na experiência em si pode garantir sua validade, não mais do que a extrema lembrança de um sonho nos leva a supor que seja qualquer coisa diferente de um sonho. Se, porém, aceitarmos a revelação de Deus em Cristo, então precisamos acreditar que qualquer experiência de Deus que seja válida tem uma qualidade ética definida pelo que conhecemos de Cristo. Ela levará consigo uma fidelidade renovada ao seu ensinamento e exemplo. O escritor não quer dizer que apenas aqueles que perfeitamente obedecem a Cristo e seguem seu exemplo têm uma experiência com Deus. Isso seria afirmar a ausência de pecado nos cristãos no sentido que ele repudiou. Todavia, a menos que a experiência inclua afeição e vá na direção dos princípios morais do evangelho, não é uma experiência verdadeira de Deus em qualquer sentido cristão.

    Existe mais a ser dito, é claro, como Dodd também indica. De fato, mais será dito nos versículos que se seguem, mais até que o teste da experiência do indivíduo demonstra. Pelo teste da retidão, podemos saber que conhecemos a Deus e podemos assegurar nossos corações diante dEle.