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    Entre Deus e o Diabo – Erwin Lutzer


    - Satanás está sempre sujeito a Deus.-

    Quais as implicações do poder absoluto de Deus sobre Satanás no aconselhamento? Obviamente, não podemos tratar todas as situações da mesma maneira.

    Apenas imagine se Jó, Paulo e o rei Saul estivessem em uma cruzada de libertação nos nossos dias. Provavelmente seria dito a eles que tudo o que precisavam fazer era repreender Satanás; afinal, ele é um adversário derrotado! O que, no entanto, passaria despercebido era o propósito de Deus na luta. Muitas vezes os crentes buscam uma libertação rápida, quando o Senhor deseja um arrependimento duradouro.

    Deus tem diferentes propósitos em nossos conflitos com os demônios. Para alguns, o objetivo é levar-nos ao arrependimento; para outros, é um meio de aperfeiçoamento; para diversos, é uma provação. É simplista demais e errado dizer que sempre podemos repreender Satanás e assim nos livrar dos seus propósitos. Deus pode enviá-lo a nós, tão certo quanto fez com Jó. O que podemos dizer com convicção é que não precisamos ceder à sedução de Satanás para nos levar ao pecado (assunto de outro capítulo). Libertação exige discernimento.

    Tanto Deus como o diabo estão envolvidos em nossas tentações e lutas. Devemos entender seus diferentes propósitos:

    1. Temos de distinguir entre o que Deus quer e o que Satanás deseja. Tanto Deus como Satanás estão envolvidos ativamente em nossas tentações, mas é claro que têm propósitos radicalmente opostos. Enquanto o Senhor tem um propósito benevolente em cada ato, o objetivo do diabo é sempre destruir. Satanás queria destruir Jó; Deus desejava prová-lo.

    Deus busca nossa purificação e reconciliação. Deseja que estejamos satisfeitos com Ele. Quer que aceitemos com alegria a vontade revelada. Em síntese: deseja nosso bem. Seu objetivo declarado é nos transformar na imagem de Cristo, a fim de trazer muitos filhos à glória. Deus deseja fazer uma obra em nosso coração, que durará para sempre. Seu propósito é nos ensinar que o pecado é destrutivo e que, em contraste, a justiça é boa e causa um excelente impacto nas pessoas.

    O maior anseio de Satanás é separar nossa alma da comunhão com o Senhor. Ele procura dividir e destruir. Quer espalhar as ovelhas de Deus e separá-las do pastor. Se somos cristãos, nossa alma pertence ao Senhor, mas ainda podemos ser corrompidos. Satanás talvez não tenha como nos possuir, mas gostaria imensamente de nos destruir.

    Se permitirmos, ele interrompe nossa comunhão, reduz nossa afeição para com Deus e enche nossa vida com pecado. Essa, pelo menos, é a sua intenção. Ele deseja que caiamos em sua armadilha, a fim de nos prender e paralisar. Ele quer que nos tornemos o mais semelhante possível a ele, em sua rebelião e independência.

    Isso nos possibilita um ambiente perfeito para declarar nossa lealdade a Cristo e nos alinhar com a vontade de Deus. Somente somos purificados por meio do fogo das tentações e provações. Lembre-se: tudo o que Deus faz em nossa vida é para aumentar nossa alegria, se não nessa vida, com certeza na que está para vir.

    2. Precisamos distinguir entre a autoridade de Deus e a nossa própria vontade. O diabo precisa obedecer a cada ordem de Deus, mas não necessariamente a nossa. Cristo está acima de todo principado e potestade e nós estamos assentados com Ele nos lugares celestiais (Ef 2.6). Contudo, devido ao fato de Deus ter um propósito na obra de Satanás no mundo, você e eu não temos autoridade absoluta sobre ele. Todos nós ouvimos pregadores se referirem ao diabo como se ele tivesse de obedecer a cada um de seus caprichos. O maligno geralmente responde de forma desafiadora e, sem dúvida, com alegre desprezo.

    Somente Deus tem autoridade ilimitada sobre Satanás. Numa reunião de oração em Washington D.C., um homem clamava com mais entusiasmo do que entendimento: "Eu ordeno que Satanás e seus demônios saiam de Washington e não voltem jamais!" Creio que existem evidências fortes e claras de que o diabo e seus demônios não obedeceram, não saíram da cidade de Washington. Se o maligno estivesse totalmente sob nosso controle, nós o proibiríamos de atuar em todas as cidades do mundo, ou, melhor ainda, nós o atiraríamos direto no abismo. Se estivéssemos no comando, poderíamos resolver esse problema em pouco tempo!

    No dia 13 de dezembro de 1995, o pastor Júlio Ruibal foi morto a tiros em Cali, na Colômbia. Ele era usado de forma especial por Deus na união das igrejas e no ministério de oração. Estava no sexto dia de jejum. Ninguém conhecia melhor do que ele o fato de que em Cristo somos mais que vencedores; ninguém jamais exercitara tanta autoridade contra o diabo e lutado mais contra suas artimanhas. Nada disso, contudo, impediu seu assassinato brutal; da mesma maneira que Cristo, ele sofreu o martírio nas mãos de homens malignos que cumpriam as ordens de Satanás. Sua morte tem gerado poder e unidade às igrejas que deixou para trás.

    Se perguntarmos por que o diabo ainda está na Colômbia, ou em Washington, a resposta é: porque "o Senhor precisa dele". O maligno ainda tem um trabalho a realizar; ainda há tarefa que ele terá de cumprir. O melhor que temos a fazer é nos lembrar do que Lutero disse quando um pastor, muito amigo seu, foi assassinado em 1527. Ele sentiu profundamente por causa da tragédia e ponderou sobre o assunto cuidadosamente. Aquilo foi, ele disse, trabalho de uma pessoa má, como um instrumento do diabo, mas Satanás era um instrumento de Deus. Assim, mesmo naquela tragédia, os cristãos podiam ver a providência de Deus. O Senhor, seja nessa vida ou na eternidade, transformará todo o mal em bem.

    Eis aqui um versículo que resume o ponto principal desse capítulo. Cristo disse para a Igreja de Esmirna, no primeiro século: "Não temas as coisas que estás para sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida" (Ap 2.10).

    Preste bastante atenção a esses pontos:

    •        Embora essa igreja fosse perseguida nas mãos do diabo, ela ainda estava firme nas mãos de Deus.

    •        A razão de Satanás receber autoridade para lançar os crentes na prisão é que assim eles podem ser testados.

    •        A duração e a severidade do teste são determinados por Cristo. Se Ele diz que o teste será de dez dias, nem mesmo toda a fúria de Satanás pode prolongá-lo por onze!


    Temos toda a autoridade necessária para ficarmos firmes contra o diabo; temos todo o poder que precisamos para fazer a vontade de Deus; não temos, entretanto, o controle absoluto do nosso inimigo. Não podemos destruir seu reino; não podemos determinar os limites do seu poder. Paulo achava que nem sempre tinha de duelar com o diabo ou exercer autoridade sobre ele. Por isso, escreveu que desejava ir a Tessalônica, mas "Satanás nos impediu. " (1 Ts 2.18). Às vezes, o apóstolo aceitava as limitações impostas por Satanás, como intervenção de Deus.

    Por favor, não interprete isso como se tivéssemos de ficar parados, de braços cruzados, observando Satanás fazer sua obra e simplesmente dizer: "Essa é a vontade de Deus". Precisamos estar atentos, na luta contra o inimigo, firmes contra seus ataques. Na verdade, Satanás nos foi apresentado, para que possamos lutar contra ele. É como batalhamos, contudo, que importa. Podemos lutar com mais fé e entendimento, se sabemos que Satanás está sempre sujeito a Deus.