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    A Sutileza da Heresia – John MacArthur



    - Certos indivíduos se introduziram com dissimulação. - Judas 4 -

    A  ordem de Judas no sentido de batalharmos "diligentemente pela fé" não está sendo apenas negligenciada na igreja contemporânea; essa ordem é freqüentemente tratada com total desprezo. Em nossos dias, alguém que exorta ao discernimento bíblico ou que condena abertamente uma perversão popular da sã doutrina provavelmente será alvo da mesma reprovação que os outros crentes manifestam em relação aos falsos mestres. Talvez eu esteja exagerando. Os sabotadores e vândalos da verdade parecem ter mais facilidade para realizar sua obra do que o crente piedoso que tenta exercer sinceramente o discernimento bíblico.

    Quase toda pessoa hoje pode defender as idéias e inovações mais esquisitas e, apesar disso, ainda ser convidada a participar do diálogo evangélico. Mas, se alguém questiona com seriedade a exatidão bíblica de uma doutrina que está se tornando corrente no movimento evangélico, aquele que suscita essa preocupação tem a probabilidade de ser silenciado pelos gritos dos demais que o chamam de "caçador de heresias" ou de ser menosprezado como um alarmista irritante. Esse tipo de antagonismo tem ocorrido com regularidade tão previsível, que as vozes nítidas do verdadeiro discernimento bíblico quase se tornaram extintas. Os evangélicos contemporâneos têm abandonado quase totalmente a prática nobre dos bereanos, que foram elogiados por examinarem com cuidado os ensinos do próprio apóstolo Paulo. Eles examinaram "as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim" (Atos 17.11).

    Mas, em nossa geração, às vezes, temos a impressão de que, quanto mais agressivamente algo for oferecido aos crentes como a última e maior novidade, tanto menos a maioria dos evangélicos a examinará de modo crítico. Afinal de contas, quem deseja ser constantemente menosprezado como protetor da ortodoxia em uma cultura pós-moderna? Defender a fé é um papel que bem poucos parecem desejar.

    Na Inglaterra, onde o rei é o chefe supremo da Igreja Anglicana, um dos títulos subsidiários importantes que estão na coroa é "Defensor da Fé". (A abreviatura comum aparece em todas as moedas britânicas como FD e significa fiel defensor) Com toda a franqueza, quase nenhum dos monarcas da Inglaterra tem realmente merecido esse título ou levado muito a sério esse dever. Na realidade, o título formal remonta aos tempos de Henrique VIII, para quem o título era ridículo — por causa de seu estilo de vida pecaminoso, lembrado principalmente por sua maneira falsa e traiçoeira de tratar as várias esposas sucessivas.

    O príncipe Charles, aparente herdeiro atual, afirmou em 1994 que ele preferiria ajustar esse título, para que não elevasse de tal modo o cristianismo acima do islamismo, do hinduísmo ou da bruxaria. "Eu pessoalmente preferia entender o título como Defensor de Fé, e não da Fé", disse ele. Numa cascata verbal de perfeita eloqüência pós-moderna, o príncipe continuou, dizendo que se considera um defensor "do divino na existência, do padrão do divino que está, penso eu, dentro de todos nós, mas que, por sermos humanos, pode ser expresso de muitas maneiras diferentes".

    O desconforto que o príncipe Charles sente com esse título real é um paralelo exato do que tem acontecido no movimento evangélico. Depois de negligenciarem a defesa da fé durante tantos anos, muitos evangélicos agora repudiam esse dever. Passaram a sentir desconforto com a idéia de lutar em defesa da verdade. De fato, eles abraçaram o axioma pós-moderno de que o diálogo é moralmente superior ao debate, uma conversa é inerentemente mais edificante do que uma controvérsia, e a fraternidade é sempre melhor do que uma um conflito.

    Conforme já vimos repetidas vezes, as Escrituras dizem o contrário. Se quisermos ser fiéis, é exigido que nos tornemos guerreiros em defesa da verdade. Se os apóstolos e seus herdeiros imediatos não tivessem lutado, com sinceridade, pela fé, a igreja poderia ter sido subjugada pelos erros dos judaizantes e dos gnósticos. A obra feita pelos apóstolos, no século 1, e pelos apologistas, no século 2, foi heróica. A sua ousada defesa da fé, bem como a cristalização de tanta doutrina — freqüentemente, ao preço de suas próprias vidas — ilustram por que a guerra pela verdade é séria. De modo seme¬lhante, nós devemos estar dispostos a pagar o preço para lutar pela verdade em nossa geração.

    As batalhas travadas pela igreja primitiva também exemplificam por que devemos permanecer vigilantes, sem nos deixarmos iludir pelo falso senso de segurança. Todas as vezes que a igreja ven¬ce uma batalha importante na guerra pela verdade, outra grande investida irrompe contra ela em algum lugar, usualmente em uma frente completamente nova. Esse padrão ocorre repetidas vezes na história da igreja. Nunca houve um cessar-fogo na guerra pela verdade. 0 inimigo é implacável.

    Os judaizantes e os gnósticos não foram, de modo nenhum, as últimas incursões sérias na igreja, feitas pelo inimigo em sua guerra permanente contra a verdade. Outros erros graves estavam sendo incubados dentro da igreja, mesmo durante aqueles primeiros séculos, enquanto o gnosticismo conquistava e perdia seguidores. Muitos dos "novos" erros eram afilhados e imitações de várias heresias gnósticas que diziam respeito à encarnação de Cristo. Visto que tanta confusão e mal entendimento foram semeadas pelos ensinos gnósticos, a questão de como entender a divindade de Cristo, juntamente com sua humanidade, tornou-se um terreno fértil para disputas doutrinárias. Antes do fim do século 3, várias discordâncias graves a respeito da divindade de Cristo e da natureza do Deus triúno haviam irrompido na igreja. Não eram os mesmos debates antigos entre os cristãos apostólicos e os gnósticos. Uma nova onda de heresias se desenvolveu dentro de um segmento da igreja que, até então, permanecera fiel ao ensino dos apóstolos.

    A verdade nunca muda com o passar do tempo, mas a heresia sempre o faz. Na realidade, a sutileza da heresia é vista com mais clareza nas marés sempre flutuantes da mudança. A igreja é ameaçada por algum erro grave, até que seja desencadeada uma defesa, e a ameaça vencida. Depois, o oposto desse erro surge em outro lugar, com uma ameaça diferente, mas igualmente grave. Em seguida, a tendência volta na forma de uma variação do primeiro erro. Assim tem sido no decorrer de toda a história da igreja. Nenhum erro pode ser considerado como aniquilado e desaparecido, porque os mesmos erros continuam reaparecendo com vestes novas.