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    Os Puritanos e a Doutrina da Justificação



    - A confissão da justificação divina atinge a vida do homem em seu âmago, no ponto de seu relacionamento com Deus; ela define a pregação da igreja, a existência e o progresso da vida de fé, a raiz da segurança humana e a perspectiva humana quanto ao futuro."

    Assim o professor G.C.Berkouwer avaliou a justificação, conforme Paulo a ensinou e conforme foi reapreendida por ocasião da Reforma: uma verdade que todos os líderes reformadores na Alemanha, na Suíça, na França e na Grã-Bretanha, bem como todas as confissões que eles patrocinaram, foram unânimes em ressaltar e que todos viam como o articulus stantis vel cadentis ecclesiae — o artigo sobre o qual a igreja permanece de pé ou cai.

    Lutero, o pioneiro, predisse, como inferência segura daquilo que ele sabia ser uma estratégia satânica, que, após a sua morte, essa verdade a respeito da justificação exclusivamente pela fé — da qual ele fora tão poderoso instrumento para torná-la conhecida — ficaria sob ataque ainda mais intenso, e que a teologia se desenvolveria de tal modo que tenderia por submergi-la uma vez mais no erro e na incompreensão. Os escritores Puritanos ecoaram um sentimento similar, de que esta doutrina era muito vulnerável e que somente a graça poderia impedi-la de ser esquecida. Vale a pena expor as razões que eles tinham para assim pensarem.

    Primeiro, diziam eles, a justificação é um mistério do evangelho —-uma questão de revelação divina, por meio da graça. Como tal, é uma doutrina duplamente humilhadora. Humilha o orgulho intelectual, porquanto jamais poderia ter sido criada ou desenvolvida pela razão religiosa, e humilha o orgulho moral por assumir que todos os homens são impotentes e destituídos de esperança no tocante ao pecado.

    Naturalmente, as pessoas ressentem-se disso, e, conforme disse claramente Robert Traill, em sua obra magistral, Vindication ofthe ProtestamDoctrine conceming Justification (A Defesa da Doutrina Protestante Concernente à Justificação -1692), "essa inimizade dos homens para com a sabedoria de Deus é... uma tentação para muitos ministros formularem um evangelho que seja mais adaptado ao entendimento humano, mais aceitável para os homens, do que o autêntico evangelho de Cristo". O mistério da justificação, pois, é constantemente ameaçado pelo orgulho humano.

    Segundo, a justificação é um mistério coroador, como o último degrau de uma escada, ao qual os outros degraus conduzem, ou como a pedra mestra de um arco que suporta as pedras que a flanqueiam. Escreveu Traill:

    Todos os grandes fundamentos da verdade cristã têm por centro a justificação. A trindade de Pessoas na deidade; a encarnação do Filho unigênito do Pai; a satisfação dada à lei e à justiça de Deus, pelos pecados do mundo, através de sua obediência e sacrifício de Si mesmo, na carne que Ele tomou para Si mesmo; e a autoridade divina das Escrituras, as quais revelam tudo isso, são todas elas linhas diretas da verdade, que têm por centro essa doutrina da justificação do pecador, mediante a imputação e aplicação dessa satisfação.

    O ponto destacado por Traill, no contexto, é que negar a justificação é negar também essas outras verdades; mas o ponto contrário também é importante, ou seja, pôr em dúvida essas outras verdades é perder a justificação. Isso tem acontecido em nossos próprios dias: a incredulidade acerca da autoridade bíblica, da ira de Deus e da expiação tem removido, para muitas pessoas, a base para se aceitar a justificação no seu sentido bíblico. Assim, a teologia herética torna-se uma segunda ameaça para o mistério da justificação.

    Terceiro, a justificação é um mistério espiritual, que só pode ser apreciado pela consciência iluminada de uma pessoa convicta de pecado. Queixou-se Traill: "O tema da justificação muito tem sofrido por causa disso, pois muitos, cujos corações e consciências nunca foram exercitados nesse tema, têm tomado da pena para escrever a respeito dele". No prefácio de sua obra clássica, The Doctrine of Justification by Faith (A Doutrina da Justificação pela Fé -1677), John Owen destaca o ponto positivo da doutrina:

    Trata-se do direcionamento prático da consciência dos homens, em sua aplicação a Deus, por meio de Jesus Cristo, visando à libertação da maldição devida ao estado de apóstata e à paz com Ele... o manuseio dessa doutrina tem apenas esse desígnio... para aquele que desejar tratá-la devidamente, é mister que pondere tudo quanto disser, com base em suas próprias idéias e experiências, não ousando propor a outros aquilo que ele mesmo não observa, nos mais íntimos recessos de sua mente, por ocasião de sua maior aproximação de Deus, em seus encontros inesperados com os perigos, em profundas aflições, em seus preparativos para a morte, na mais humilde contemplação da infinita distância exis¬tente entre Deus e ele. Outras noções... não temperadas com esses ingredientes... são insípidas e inúteis...

    O temperamento "leviano, frívolo e futil" da década de 1690, para Traill parecia ser um grande empecilho a uma correta maneira de pensar sobre a justificação. (Que diria ele, se vivesse em nossos dias?) A frivolidade espiritual, a falta de seriedade e de experiência na aproximação a Deus, ameaça assim, por um terceiro ângulo, o mistério da justificação.

    Em quarto, a justificação é um mistério doador de vida, a origem de toda verdadeira paz de consciência, esperança, amor, alegria, santidade e segurança. Por isso, os Puritanos, tal como Lutero, viam a hostilidade satânica como uma quarta ameaça ao mistério da justificação; pois sabiam que o adversário de Deus e de seu povo sem dúvida deseja suprimir uma verdade que tanto fomenta a glória de Deus e o bem dos homens.

    Quinto, a justificação é um mistério contestado. A justificação pelas obras é a religião natural da humanidade. Tem sido assim desde a Queda, de modo que, como afirmou Traill, "todas as pessoas ignorantes que nada sabem sobre a lei ou o evangelho, todos os pecadores orgulhosos e seguros de si mesmos, todos os formalistas, e todas as pessoas zelosas e devotas de alguma religião natural", aliam-se juntamente como "terríveis inimigos do evangelho". Os Puritanos viam o trio teológico, o pelagianismo, o arminianismo e a contra-reforma do romanismo, como a prole bastarda da religião natural fertilizada pelo evangelho. Isso levou Traill (entre muitos outros) a dizer: "Os princípios do arminianismo são as normas naturais da mente carnal, que consiste em inimizade à lei de Deus e ao evangelho de Cristo; e depois do mar morto do papismo [para onde também corre esse riacho], desde Pelágio até hoje, o arminianismo tem sido a pior praga contra a igreja de Cristo..." E novamente: "Não há um só ministro que trate com seriedade as almas dos homens que não ache algum esquema arminiano de justificação em cada coração não-renovado" . A religião natural, portanto, é uma quinta ameaça ao mistério da justificação.

    Minha consonância pessoal com os Puritanos, em tudo isso, é vista através do modo como expus a posição deles. Muitos eruditos modernos têm desprezado a enfática asserção de Paulo em Romanos, Gaiatas e em outros textos bíblicos acerca da justificação mediante á fé em Cristo, à parte de obras da lei, como se fosse um mero artifício da sua controvérsia antijudaica, totalmente distante do âmago de sua firme teologia e espiritualidade. Rejeito essa opinião como um erro grave e mortífero, e explico sua prevalência atual nos termos das cinco ameaças que acabo de alistar. Creio que ao equipararem a doutrina da justificação ensinada pelos reformadores com o ensino do Novo Testamento, e ao analisarem os perigos e conflitos a que essa doutrina está exposta, os Puritanos estavam profundamente corretos; é a partir desse ângulo que agora tentarei traçar os caminhos pelos quais a doutrina da Reforma tanto se desenvolveu quanto declinou, durante o período dos Puritanos — isto é, para nossos propósitos, desde o último quarto do século XVI (época de Perkins) até ao fim do século XVII (últimas publicações de Owen, Baxter, Goodwin e outros da geração deles). Os eventos, como deveríamos esperar, procedem de círculos onde resplandeciam as chamas da vitalidade espiritual; e o declínio teve lugar por causa de influências de natureza racionalista, naturalista, a longo prazo hostis à piedade evangélica, embora afirmassem estar agindo no interesse desta. Primeiramente, examinaremos esses desenvolvimentos.


    J. I. Packer