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    O coração orgulhoso e o consagrado – Richard Baxter - (1615-1691)


    Se você valoriza os confortos da vida consagrada, tenha cautela com o espírito orgulhoso e altivo. Há tanto antagonismo entre esse pecado e Deus que você jamais conseguirá aproximar seu coração do Senhor, nem que ele se aproxime de seu coração, enquanto essa atitude for prevalente. Se isso fez com que alguns anjos fossem expulsos do céu, também faz com que seu coração fique afastado dali.

    Há grande antagonismo entre o coração orgulhoso e o consagrado. O relacionamento com Deus mantém os homens humildes, e essa humildade facilita ainda mais esse relacionamento. Quando um homem se considera muito diante de Deus e se ocupa com o estudo de seus gloriosos atributos, ele acaba por abominar a si mesmo imerso em pó e cinzas; e essa abominação de si mesmo é o melhor preparativo para obter permissão para entrar novamente na presença de Deus. Portanto, depois de um dia em que a alma se humilha, ou em momentos difíceis, quando a alma fica mais humilde, ela costuma ter livre acesso a Deus e pode saborear muito da vida do alto.

    O deleite de Deus é uma alma humilde, e o deleite de uma alma humilde está em Deus; e, com certeza, com esse deleite mútuo, o acesso fica mais livre, a recepção, mais calorosa, e a convivência, mais freqüente. O Senhor faz sua habitação em uma alma humilde e, certamente, se nossa moradia for com ele, e nele, a moradia do Senhor também será conosco, e em nós, e haverá uma familiaridade bastante íntima e doce. Mas a alma orgulhosa não pode pleitear esse privilégio. Deus está tão distante de habitar nessa alma que não permitirá nem que se aproxime, mas a observa à distância.

    O Senhor resiste ao orgulhoso, e o orgulhoso resiste a ele, mas ao humilde ele dá essa graça e muitas outras. A mente consagrada é a mente que Deus tem em alta estima, e a aspiração dela, embora santa, é ficar mais alta ainda. Um espírito simples e humilde não é tão contrário ao Espírito alto e divino quanto o espírito orgulhoso. O grão de mostarda pode tornar-se uma árvore; uma pequena bolota pode tornar-se um grande carvalho; a pá do moinho que agora está mais embaixo pode vir a ficar na posição mais alta, e aquele que está alto pode ficar mais alto ainda, desde que seja submisso ao príncipe, nossa fonte de honra; mas se ele se separar dessa submissão para se tornar um competidor, ou usurpar essa honra, transferindo-a indevidamente para si mesmo, ele descobrirá que esse caminho o leva à queda.

    Você, aos seus próprios olhos, é um homem de valor e muito cuidadoso com a estima que os outros lhe dedicam? Você é o tipo de pessoa que valoriza o aplauso das pessoas, e seu coração pula de alegria quando ouve que os homens muito o estimam? E fica abatido quando ouve que os homens o desprezam? Você é o tipo de pessoa que ama mais aqueles que mais o honram? E seu coração fica ressentido com aqueles que você acha que o menosprezam e têm pensamentos desprezíveis em relação a você, embora sejam homens piedosos e honestos? Você é o tipo de pessoa que precisa que seus caprichos sejam satisfeitos, e que seu julgamento precisa ser a regra por meio da qual os outros devam ser julgados, e que sua palavra precisa ser lei para todos a sua volta? Você é o tipo de pessoa que está sempre pronta a discutir com todo homem que disser uma palavra que o desonre? Você é o tipo de pessoa que se inflama, se sua palavra, ou sua pessoa, for contrariada? Você é o tipo de pessoa pronta a julgar a humildade como sórdida infâmia, alguém que não sabe se humilhar nem se submeter a ninguém; e você não se envergonha, por meio da humilde confissão, quando peca contra Deus ou ofende seu irmão? Você é o tipo de pessoa que honra os piedosos ricos e acha que é alguém quando eles o valorizam e o reconhecem, mas olha com maus olhos os piedosos pobres e sente quase vergonha de ser visto na companhia deles? Você é o tipo de pessoa que não pode servir a Deus em um lugar desprezível nem em um nobre, mas acha que se ajusta melhor às posições e às honras e ama o serviço a Deus quando ele é acompanhado de prestígio? Você se deleita com as oportunidades de anunciar as suas atividades; e ama quando seu nome se torna conhecido do mundo todo; e ficaria satisfeito de deixar aqui algum monumento em sua homenagem para que a posteridade o admire quando morrer? Você é o tipo de pessoa que não está familiarizada com a falsidade e a perversidade de seu coração? Você é o tipo de pessoa que sempre está mais pronta a se defender e a manter sua inocência que acusar a si mesmo ou confessar sua falha? Você mal pode ouvir uma reprovação de alguém próximo e digere com muita dificuldade e desgosto os que o tratam de forma sincera? Você é o tipo de pessoa que sempre está mais pronta a ensinar que a aprender, e a ditar aos outros o que fazer que escutar as instruções deles atentamente? Você é o tipo de pessoa corajosa e confiante em sua própria opinião e que não suspeita muito de seu pouco entendimento, mas menospreza o julgamento de todos que são contra você? Seu espírito está sempre mais disposto a comandar e a governar que a obedecer aos outros e ser governado por eles? Você é o tipo de pessoa sempre pronta a doutrinar seus mestres, as ações dos governantes e seus irmãos em Cristo? Se esses sintomas estiverem inegavelmente em seu coração, você, sem sombra de dúvida, é uma pessoa orgulhosa. Um homem orgulhoso torna-se seu próprio deus, e admira a si mesmo e passa a ser seu próprio ídolo; então, como ele pode depositar seus sentimentos em Deus? E seria possível que esse homem tivesse seu coração no céu?

    Imploro que você seja muito zeloso com sua alma em relação a esse ponto. Não há nada no mundo que mais o afaste de Deus que isso. Falo mais dele, pois é o pecado mais comum e mais perigoso em relação à moralidade, como também o que mais promove o grande pecado da infidelidade. Ó cristão, se você vivesse continuamente na presença de seu Deus  e aprendesse com ele a ser humilde e manso, então poderia saborear esse descanso de sua alma. Caso contrário, sua alma, sempre laçando fora o lodo e a sujeira, ficaria tão perturbada quanto o mar revolto que não pode descansar; e, em vez desses doces deleites em Deus, seu orgulho o encherá com perpétua inquietação. É a alma humilde que não se esquece de Deus, e Deus não se esquecerá do humilde. Deus, portanto, habita com ele que é humilde e contrito e vivifica o espírito dele com sua presença.