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    No pecado original há algo exclusivo e algo absoluto – Thomas Watson


    a. Algo exclusivo

    A falta de justiça que deveria ser nossa. Perdemos aquela excelente e aprimorada estrutura da alma que um dia tivemos. O pecado eliminou a estabilidade da pureza original, sobre a qual repousava a nossa força.

    b. Algo absoluto

    O pecado original contaminou e corrompeu nossa natureza virginal. O envenenamento dos mananciais causou morte entre os romanos, o pecado original envenenou o manancial de nossa natureza, tornou beleza em lepra, transformou o brilho límpido de nossa alma em escuridão.

    O pecado original se tornou co-natural para nós. O homem natural não pode fazer outra coisa senão pecar. Embora não tenha sido dado a ele esse direito ou maus exemplos para serem imitados, ainda assim há no homem um princípio inato e não pode se abster de pecar (2Pe 2.14). Aquele que não pode parar de pecar é como um cavalo coxo que não pode trotar sem mancar. No pecado original há:

    i. Uma aversão ao bem. O homem tem o desejo de ser feliz, ainda que se oponha ao que promoveria sua felicidade. Ele tem repugnância à santidade, odeia ser corrigido. Desde que caímos da presença de Deus, não temos nos preocupado em voltar para ele.

    ii. Uma inclinação para o mal. Se, como dizem os seguidores de Pelágio, há tanta bondade em nós desde a queda, por que não há tanta propensão para o bem como há para o mal? Nossa experiência demonstra que a inclinação natural da alma é para o que é mau. O próprio ímpio, à luz da natureza, percebeu isso. Hierocles, o filósofo, disse: "pecar é algo que foi enxertado em nós pela natureza". Os homens brincam com o pecado como brincam com o mel na boca. Eles bebem "a iniqüidade como água" (Jó 15.16). Como um hidrópico, que tem sede e nunca se satisfaz, eles têm em si uma espécie de seca que os faz sedentos pelo pecado. Ainda que estejam cansados de pecar, continuam pecando: "... se entregaram... para cometerem toda sorte de impureza" (Ef 4.19). Como o homem que coninua seu jogo, mesmo estando cansado, tem prazer nele e não pode deixá-lo (Jr 9.5). Embora Deus tenha colocado tantas espadas flamejantes no caminho para deter os homens em seu pecado, eles permanecem nele, demonstrando que grande apetite eles têm pelo fruto proibido.

    2. Algumas características do pecado original

    Dado que podemos ver além da natureza do pecado original, consideremos algumas de suas características:

    a. A universalidade do pecado original

    Como um veneno, ele tem se espalhado por todas as partes e todas as potencialidades da alma: "Toda a cabeça está doente, e todo o coração, enfermo" (Is 1.5). Como um paciente doente, que não tem nada sadio: seu fígado está inchado, seus pés estão gangrenados, seus pulmões estão deteriorados. Assim está nosso espírito, tão infectado e tão gangrenado, até que Cristo, que fez um remédio com seu sangue, nos cure.

    i. O pecado original perverteu o intelecto. Como na criação, "havia trevas sobre a face do abismo" (Gn 1.2), o mesmo sucede com o entendimento: a escuridão está sobre a face desse abismo. Assim como há sal em cada gota d'água do oceano, amargor em cada galho do absinto, assim há pecado em toda faculdade humana. A mente está escurecida, por isso sabemos pouco de Deus. Desde que Adão comeu da árvore do conhecimento e seus olhos foram abertos, perdemos nossa faculdade de ver.

    Além da ignorância da mente, há erro e engano; não fazemos um julgamento honesto das coisas, trocamos o amargo pelo doce, e vice-versa (Is 5.20). Mais ainda, há muito orgulho, arrogância e preconceito, além de muito raciocínio carnal: "Até quando hospedarás contigo os teus maus pensamentos?" (Jr 4.14).

    ii. O pecado original corrompeu o coração. O coração é extremamente perverso (Jr 17.9). É um pequeno inferno. No coração há legiões de concupiscências, de obstinação, de infídelidade, de hipocrisia e de comoções pecaminosas que, à semelhança do mar, agitam-se com ira e com vingança: "o coração dos homens está cheio de maldade, nele há desvarios enquanto vivem" (Ec 9.3). O coração é a oficina do diabo, em que toda a maldade é planejada.

    iii. O pecado original corrompeu a vontade. A desobediência é o trono da rebelião. O pecador contraria a vontade de Deus para cumprir a sua própria. "Queimaremos incenso à Rainha dos Céus" (Jr 44.17). Há, na vontade, uma inimizade enraizada contra a santidade; é como um tendão de aço que recusa se dobrar diante de Deus. Onde está, então, a liberdade da vontade, pois está cheia não somente de indisposição, mas de oposição ao que é espiritual?

    iv. O pecado original corrompeu os afetos. Estes, como as cordas de uma harpa, estão desafinados. Eles são as pequenas engrenagens, levadas com força pela vontade, a engrenagem principal. Nossos afetos se estabelecem sobre alicerces errados. Nosso amor está alicerçado sobre o pecado, nossa alegria sobre a criatura. Nossos afetos são tão naturais como o apetite de um homem doente, que deseja coisas que lhe são prejudiciais e nocivas; febril, ele pede vinho. Temos luxúria em lugar de santos anseios.
    b.      A aderência do pecado original.

     Ele adere em nós como o negror à pele do etíope, de tal modo que não podemos nos livrar dele. Paulo pôde sacudir a víbora de sua mão, mas não foi capaz de se livrar dessa corrupção engendrada. Pode ser comparada à figueira brava crescendo pela parede, que mesmo com as raízes arrancadas ainda brota pelas pequenas fibras nas juntas dos tijolos e que não sumirá até a parede ser destroçada. A concupiscência original não é como um convidado que passa a noite, mas um morador: "o pecado que habita em mim" (Rm 7.17).

    O pecado é "um espírito maligno" que nos persegue aonde quer que vamos: "os cananeus persistiam em habitar nessa terra" (Js 17.12).

    c.       O pecado original põe obstáculo à adoração

    O pecado nos atrasa e atrapalha no exercício da adoração a Deus. De onde vêm toda essa apatia e falta de vida na religião? É o fruto do pecado original. Isso é o que nos faz adormecer nos deveres: "Porque não faço o bem que prefiro" (Rm 7.19). O pecado é comparado a um peso (Hb 12.1). Um homem que tem pesos amarrados às suas pernas não pode correr rapidamente. É como aquele peixe, de que Plínio fala, uma lampreia marítima, que se gruda à quilha do navio e atrapalha seu deslocamento ao navegar.

    d. O pecado original mostra sua força repentinamente

    Embora esteja latente na alma, o pecado original é como uma fonte subterrânea, que sempre explode inesperadamente. Cristão, creia que o mal que está no teu coração pode romper repentinamente, caso Deus permita. Veja o caso de Hazael, que disse: "Pois que é teu servo, este cão, para fazer tão grandes coisas?" (2Rs 8.13), ele não podia acreditar que tinha tal raiz de amargura em seu coração, tanto que seria capaz de rasgar o ventre de mulheres grávidas. É teu servo um cão? Sim, e ainda pior que um cão, quando a corrupção original dentro de nós é provocada. Se alguém tivesse dito a Pedro: "Pedro, dentro de algumas horas você vai negar Cristo", ele teria dito: "É teu servo um cão?" Porém, que impressionante. Pedro não conhecia o próprio coração, nem por quanto tempo aquela depravação prevaleceria sobre ele. O mar pode estar calmo e até parecer límpido, mas quando o vento sopra, ele esbraveja e espuma. Assim é o teu coração, embora agora ele pareça bom, quando a tentação sopra, como o pecado original se revela, ele te faz espumar com concupiscência e com cólera. Quem pensaria encontrar adultério em Davi, bebedeira em Noé e blasfêmia em Jó? Se Deus deixasse o homem por si mesmo, quão rápido e escandalosamente o pecado original romperia nos homens mais santos da terra.