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    A natureza maligna do pecado – Thomas Watson (1620-1686)


    O pecado é maligno em sua natureza. Considere o seguinte em relação a ele:

    i. O pecado é algo que corrompe. O pecado não é somente uma apostasia, mas uma corrupção. É para o espírito como a ferrugem para o ouro, e como uma mancha para a beleza. Ele deixa a alma rubra com a culpa e negra com a torpeza. O pecado, nas Escrituras, é comparado a uma "coisa imunda" (Is 30.22) e a uma "chaga do seu coração" (lRs 8.38). As vestes sujas de Josué, com as quais se apresentou diante do anjo, eram nada mais que um tipo e um hieróglifo do pecado (Zc 3.3). O pecado tem desonrado a imagem de Deus, além de macular o brilho precioso da alma. Ele faz Deus abominar o pecador (Zc 11.8) e quando um pecador percebe seu pecado ele abomina a si próprio (Ez 20.43).

    O pecado verte veneno em nossas boas obras e infecta nossas orações. O sumo sacerdote deveria fazer a expiação dos pecados no altar, tipificando que nossos cultos mais sagrados precisam de Cristo para expiá-los (Êx 29.36). As obrigações da religião, por si mesmas, são boas, porém o pecado as corrompe, assim como a água mais pura é contaminada ao correr sobre um solo barrento. Se o leproso, sob a lei, tocasse o altar, não ficaria limpo, mas ele teria profanado o altar. O apóstolo chama o pecado de "impureza, tanto da carne como do espírito" (2Co 7.1). O pecado imprime a imagem do diabo no homem. A malícia é o olho do diabo; a hipocrisia, seus pés fétidos. Ele transforma o homem em um diabo: "Não vos escolhi eu em número de doze? Contudo, um de vós é diabo" (Jo 6.70).

    ii. O pecado entristece o Espírito. O pecado entristece o Espírito de Deus: "E não entristeçais o Espírito de Deus" (Ef 4.30). Entristecer é mais do que enraivecer.

    Como o Espírito pode dizer que está entristecido? Porque, sabendo que ele é Deus, não pode estar sujeito a nenhuma paixão.

    Isso é uma metáfora. O pecado entristece o Espírito porque é uma injúria causada ao Espírito, este não a recebe bondosamente e, por assim dizer, deposita-a no coração. Isso não é mais que entristecer o Espírito? O Espírito Santo desceu na forma de uma pomba e o pecado causou o lamento dessa pomba abençoada. Ainda que fosse somente um anjo, não deveríamos entristecê-lo, muito menos o Espírito de Deus. Não é lamentável entristecermos nosso Consolador?

    iii. O pecado é rebeldia contra Deus. E um ato rebelde contra o Criador, um caminhar em direção oposta ao céu: "Se... andardes contrariamente comigo" (Lv 26.27). Um pecador tripudia sobre a lei de Deus, contraria a sua vontade, faz tudo que pode para afrontar, sim, para ofender a Deus. A palavra hebraica para pecado, pasha, significa rebelião. Em todo pecado existe um cerne de rebeldia: "Antes, certamente toda a palavra que saiu da nossa boca, isto é, queimaremos incenso à Rainha dos Céus... temos feito" (Jr 44.17). O pecado atenta contra a verdadeira divindade: o pecado é o hipotético assassino de Deus. O pecado não só gostaria de desentronizar Deus, mas de desdivinizá-lo. Se o pecador pudesse fazê-lo, Deus não seria mais Deus.

    iv. O pecado é um ato cruel de falsidade. O pecado é um ato de falsidade e de crueldade. Deus alimenta o pecador, mantém os demônios longe dele, realiza nele milagres com misericórdia. Porém, o pecador não somente esquece as misericórdias de Deus como, ainda, as condena. Ele é o que há de pior para a misericórdia, como Absalão que, na condição de filho de Davi, havia beijado o pai, obtendo, assim, seu favor, e planejou traí-lo (2Sm 15.10). Como a mula, que escoiceia a própria mãe após mamar o leite: "É assim a tua fidelidade para com o teu amigo?" (2Sm 16.17). Deus pode repreender o pecador. "Dei-te", ele pode dizer, "saúde, força e posição; mas retribuíste mal por bem, feriste-me com minhas próprias misericórdias; é esta a tua fidelidade para com teu amigo? Dei-te vida para que pecasses? Dei-te recompensas para que servísses ao diabo?"

    v. O pecado é uma doença terrível. O pecado é uma doença: "Toda a cabeça está doente" (Is 1.5). Alguns estão doentes de orgulho, outros de luxúria, outros de inveja. O pecado causa indisposição à parte intelectual, é como uma lepra na cabeça, ele envenena os órgãos vitais: Porque a consciência deles está corrompida (Tt 1.15). Acontece com o pecador o mesmo que com uma pessoa doente: seu paladar fica indisposto: as coisas mais doces têm sabor amargo. A expressão "mais doces do que o mel" (SI 19.10) tem sabor amargo para ele, troca "o doce, por amargo" (Is 5.20). Isso é uma doença e nada pode curá-la, a não ser o sangue do médico (Jesus).

    vi. O pecado é uma coisa irracional. Ele não somente faz o homem agir perversamente, mas também loucamente. É absurdo e irracional preferir o menos ao mais, os prazeres da vida aos rios de prazeres à mão direita de Deus perpetuamente. Não é irracional perder o céu pela satisfação da luxúria? Como Lisímaco, que perdeu um reino por causa de um gole d'água. Não é irracional contentar um inimigo? No pecado, fazemos tudo isso. Quando a luxúria ou a ira imprudente queimam na alma, o próprio Satanás se aquece nessas chamas. Os pecados dos homens são um banquete para o diabo.

    vii. O pecado é algo doloroso. Custa muito trabalho aos homens andar atrás de seus pecados. Como se cansam servindo ao diabo. "Cansam-se de praticar a iniqüidade" (Jr 9.5). Quanta dor Judas teve de suportar por sua traição. Ele vai ao sumo sacerdote, depois segue atrás do bando de soldados, e, então, finalmente volta ao jardim. Crisóstomo diz: "A virtude é mais suave que o vício". É mais doloroso para alguns seguirem após os próprios pecados do que, para outros, adorarem a Deus. Enquanto sofre dores de parto com seu pecado, o pecador dá à luz com pesar, como dito em Tito 3.3: "escravos de toda a sorte de paixões". Não têm prazer, mas servem. Por quê? Não só por causa da escravidão do pecado, mas também pelo grande labor, é isso que significa "escravos de toda a sorte de paixões". Muitos homens vão para o inferno com o suor da testa.

    viii. O pecado é odiado por Deus. Pecado é a única coisa contra a qual Deus tem antipatia. Deus não odeia o homem porque ele é pobre ou desprezado no mundo, da mesma maneira como não podemos odiar nosso amigo porque ele está doente. Porém, o que aguça o ódio de Deus é o pecado. "Não façais esta coisa abominável que aborreço" (Jr 44.4). E, certamente, se o pecador morrer sob a ira de Deus, não será admitido nas mansões celestiais. Deus deixará o homem viver com ele, este a quem abomina? Deus jamais colocará uma víbora em seu colo. As penas da águia não se misturarão com as penas de outras aves; da mesma maneira, Deus não se misturará ou se associará com um pecador. Até que o pecado seja tirado, não há como chegar onde Deus está.