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    A Glória de Cristo como Única expressão do Deus Invisível – John Owen



    A glória de Deus procede de Sua natureza santa e das excelentes coisas que Ele faz. Todavia, só podemos ver a Sua glória apenas através de Jesus Cristo, quando olhamos para Ele (2Co 4.6). Cristo é 'o resplendor da glória do Pai" e "a imagem do Deus invisível" (Hb 1.3;Cl 1.15). Ele nos mostra a gloriosa natureza de Deus e revela a Sua vontade para nós. Sem Cristo, nunca veríamos a Deus por nenhum momento, quer aqui ou na eternidade (Jo 1.18) - Ele e o Pai são um. Quando Cristo tornou-se homem Ele revelou a glória do Seu Pai. Somente Ele torna conhecida a anjos e seres humanos a glória do Deus invisível.

    Esta revelação é a rocha na qual a Igreja está construída, o fundamento firme de todas as nossas esperanças de salvação e de vida eterna. Aqueles que não podem ver essa glória de Cristo pela fé, não conhecem a Deus. São como os judeus e gentios incrédulos de antigamente. "Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus" (1Co 1.22-24).

    Desde que começou a pregação do evangelho, o grande objetivo do maligno tem sido o de cegar os olhos das pessoas para que não possam ver a glória de Cristo. "Mas, se ainda o nosso evangelho está encoberto, para os que se perdem está encoberto. Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus" (2Co 4.3-4). Esta cegueira ou escuridão espiritual é curada naqueles que crêem pelo grande poder de Deus. "Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para a iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo" (2Co 4.6).

    Uma grande parte da miséria e castigo da humanidade, por causa da queda de Adão ao pecar, é a densa escuridão e ignorância que cobriu a mente humana desde então. Os homens e mulheres têm-se vangloriado que são sábios, mas a sua sabedoria não os trouxe até Deus. (1Co 1.12; Rm 1.21). Nem mesmo a argumentação dos filósofos sobre aquelas coisas que são invisíveis e que ultrapassam a compreensão humana livra as pessoas da idolatria e da prática de todos os tipos de pecado. Satanás é o príncipe das trevas e ele estabeleceu o seu reino tenebroso nas mente humanas, mantendo-as em ignorância de Deus. Toda a maldade e confusão entre os seres humanos vem dessas trevas e dessa ignorância. Deus podia ter deixado que perecêssemos na cegueira e ignorância dos nossos ancestrais. Todavia, Ele nos trouxe "das trevas para a sua maravilhosa luz" (1Pe 2.9)

    A glória e privilégio especiais de Israel foram as palavras de Deus. Ele "mostra a sua palavra a Jacó, os seus estatutos e os seus juízos a Israel. Não fez assim a nenhuma outra nação; e, quanto aos seus juízo a, não os conhecem" (Sl 147.19-20).
    E Deus ainda falou-lhes através da negra escuridão porque eles não podiam compreender a glória que posteriormente seria conhecida em Cristo. Quando Cristo veio, foi possível ver que "Deus é luz, e não há trevas nenhuma nEle" (1Jo 1.5). Quando o Filho de Deus apareceu na semelhança de homem, Deus mostrou que a natureza divina era uma natureza gloriosa de três pessoas em uma - a Trindade. A luz deste conhecimento brilhou na escuridão do mundo a fim de que ninguém pudesse continuar ignorante de Deus, exceto aqueles que não podiam ver (Jo 1.5; 14,17- 18; 2Co 4.3-4). A glória de Cristo é que Ele revela esta verdade sobre a natureza invisível de Deus.

    Quando nós a princípio cremos, vemos Deus Pai em Cristo. Não necessitamos do pedido de Felipe: "Senhor, mostra-nos o Pai", porque, vendo Cristo pela fé, temos também visto o Pai. (Jo 14.8,9). Davi ansiava por esta visão. "Ó quão, tu és o meu Deus; de madrugada te buscarei; a minha alma tem sede de ti; a minha carne te deseja muito em uma terra seca e cansada, onde não há água para ver a tua fortaleza e a tua glória, como te vi no santuário" (Sl 63.1-2). No tabernáculo havia apenas uma representação muito obscura da glória de Deus. Portanto, devemos valorizar a visão que podemos ter dessa glória, apesar de ainda "como em um espelho" (2Co 3.18) - Moisés havia visto muitas obras maravilhosas de Deus, mas ele sabia que a real satisfação da alma esta em ver a glória de Deus. Então ele ora: "Rogo-te que me mostres a tua glória" (Êx 33.18). É apenas em Cristo que podemos ter uma clara e distinta visão da glória de Deus e de Sua superioridade.

    Sabedoria infinita é parte da natureza divina e fonte de todas as obras gloriosas de Deus. "Mas onde se achará a sabedoria? E onde está o lugar da inteligência" (Jó 28.12). Podemos ver a sabedoria pelos seus efeitos, cujo maior deles é a salvação da Igreja. O apóstolo Paulo foi chamado "A demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou; para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus" (Ef 3.9-10). A sabedoria divina que vemos ao nosso redor no mundo criado, mesmo sendo grande como é, ainda pe pequena se for comparada com a sabedoria de Deus tornada conhecida a nós através de Jesus Cristo. Mas, apenas os crentes vêem a sabedoria de Deus em Cristo; ela não é vista poelos incrédulos (1Co 1.22-24). Se formos bastante sábios para ver essa sabedoria claramente, teremos um "gozo inefável e gloriosa" (1Pe 1.8).

    Devemos, também considerar o amor de Deus como parte da natureza divina, "porque Deus é amor" ( 1Jo 4.8). As melhores idéias dos homens são imperfeitas e afetadas pelo pecado. Pensam que Deus é indolente ou alguém que é simplesmente como eles mesmos (veja o Salmo 50.21). Aqueles que não reconhecem a Cristo não imaginam que apesar de Deus ser amor, Sua ira "se manifesta do céu sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça" (Rm 1.18). Como, então, podemos conhecer o amor de Deus e ver a Sua glória nele? O apóstolo nos diz: "Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: que Deus enviou o seu filho unigênito ao mundo para que por ele vivamos" (1Jo 4.9). Esta é a única evidência dada a nós de que Deus não tivesse vindo para nos mostrar a verdadeira natureza e atividade do amor divino. Aqui vemos como Cristo é belo, gloriosa, e desejável, porque Ele é quem mostra que Deus é amor.

    Ver essa glória é a única maneira possível para obermos santidade, conforto e preparação para a glória eterna. Considerem, então, o que Deus tornou conhecido sobre Si mesmo por meio do Seu Filho, especialmente a Sua sabedoria, amor, bondade, graça e perdão. A vida de nossas almas depende destas coisas. Como o Senhor Jesus é único caminho para essas bençaos. Ele deve ser sumamente glorioso aos olhos dos crentes!

    Há aqueles que olham para Cristo como um grande professor, mas não como a única expressão do Deus invisível. Mas se vocês têm um desejo por coisas celestiais, eu lhes pergunto: "Por que amam e confiam em Cristo? Podem dar uma razão para a esperança que existe em vocês? A razão seria porque vocês vêem a glória de Deus manifestada através de Cristo e as bençãos da salvação que de outra forma estariam escondidas eternamente de vocês?" - Há uma promessa para os dias do Novo Testamento que "Os teus olhos verão o Rei na sua formosura, e verão a terra que está longe" (Is 33.17). O que é esta beleza de Cristo? Ela significa que Deus está nEle e que Ele é único representante da glória de Deus em nós. Quem pode descrever a glória deste privilégio que nós, nascidos nas trevas, e destinados a ser jogados nas mais profundas trevas, pudéssemos ser trazidos até essa maravilhosa luz? "Porque Deus, que disse das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo" (2Co 4.6).

    Incredulidade cega os olhos do entendimento das pessoas. Mesmo entre aqueles que dizem ter um conhecimento das pessoas. mesmo entre aqueles que dizem ter um conhecimento de Cristo, há apenas alguns que realmente entendem a Sua glória e que são transformados em Sua semelhança. Ninguém jamais se tornará semelhante a Cristo simplesmente por imitar as Suas ações. Somente uma experiência da glória de Cristo é capaz de tornar um crente semelhante a Cristo. A triste verdade é que os melhores de nós não desejam gastar o seu tempo pensando seriamente neste assunto. Pensamentos a respeito da glória de Cristo são muito elevados e muito difíceis para nós. Não conseguimos nos deleitar por muito tempo neles sem que fiquemos tristes e nos desviemos deles. Não somos espirituais e os nossos pensamentos e desejos estão misturados com outras coisas. Se apenas nos despertássemos para crer nas "coisas que os anjos desejam prescrutar", a nossa força e entendimento espirituais estariam crescendo diariamente. Então demonstraríamos mais da glória de Cristo pela nossa maneira de viver e até a morte seria bem vinda a nós!!

    Há aqueles que dizem não entender estas coisas. De qualquer forma, dizem eles, tal entendimento não é necessário para vivermos uma vida cristã prática. A minha resposta
    a esta objeção é a seguinte:

    1. Não há nada que seja mais claro e plenamente revelado no evangelho de que Jesus Cristo é a expressão do Deus invisível, de modo que, vendo-O, vemos também o Pai. Se esta verdade essencial não é recebida e aceita, todas as outras verdades bíblicas se tornam inúteis para as nossas almas. O evangelho inteiro é transformado numa fábula se apenas aceitarmos Cristo como um grande professor e não aceitarmos a verdade do Seu caráter único.

    2. A principal razão porque a fé nos é dada é para que possamos ver a glória de Deus em Cristo e meditar em todos os seus feitos. Se não tivermos esse entendimento, que é dado pelo poder de Deus àqueles que crêem, não saberemos nada a respeito do mistério do evangelho (Ef 1.17-19; 2Co 4.3-6).

    3. Cristo é infinitamente mais glorioso, acima de toda a criação, porque apenas através dEle que a glória do Deus invisível é-nos revelada integralmente, sempre por meio dEle é que a imagem de Deus é renovada em nós.

    4. Fé em Cristo, como reveladora da glória de Deus, é a raiz da qual toda a prática cristã brota e se desenvolve. Todo aquele que não possui este tipo de fé não pode ser um verdadeiro cristão.

    Àqueles que acham que este ensinamento sobre fé é um tanto estranho, mas gostariam de saber mais a respeito, eu dou os seguintes conselhos:

    i. O maior privilégio desta vida é o de ver a glória de Deus, o Pai, em toda a Sua santidade, demonstrada em Cristo. "E esta é a vida eterna: que te conheçam a ti só, por único verdadeiro,e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (Jo 17.3). A não ser que vocês valorizem isto como um grande privilégio, não aproveitarão.

    ii. O nosso conhecimento de Cristo é um grande mistério que requer muita sabedoria espiritual para entender e para torná-lo de valor prático. A argumentação humana de nada nos adiantará; devemos ser ensinados por Deus mesmo. (Jo 1.12-14; Mc 16.16,17). Assim como o artífice deve estar bem treinado nas habilidades de sua arte, nós também devemos usar os meios estabelecidos por Deus para que sejamos crentes hábeis. O principal destes meios é a oração fervorosa. Orem como Paulo: "Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo,o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação" (Ef 1.17). Almas preguiçosas nunca obtêm experiência dessa glória, mas é agradável procurar essas coisas da maneira que Deus ordena.

    iii. Atentem para os ímpios - quão decididamente eles perseguem os seus desejos pecaminosos e neles meditam continuamente. Será que nós seremos preguiçosos em meditar na glória que um dia esperamos ver na sua plenitude?

    iv. Os céus declaram a glória de Deus, mas neles aprendemos sobre essa glória face ao conhecimento dela a nós revelada em Cristo Jesus. As pessoas mais inteligentes e os maiores pensadores são cegos se comparados com aqueles que são os menores no reino dos céus, mas que conhecem a glória de Cristo.

    O que deveríamos desejar, realmente, é conhecer o poder desta verdade em nossos corações. Queríamos ter a mesma alegria, descanso, prazer e satisfação indescritível como os santos que estão nas alturas? O nosso presente conhecimento da glória de Cristo é o início destas bênçãos e mediante experiências posteriores descobriremos uma mudança para melhor em nossas almas. Estas coisas invisíveis são preciosas àqueles que continuam meditar nelas, cujo deleite é caminhar nas veredas da fé e do amor.

    Três pontos finais seguem daquilo que estamos considerando.

    1. Sabemos que a sabedoria, bondade, amor, graça, perdão e poder de Deus são infinitamente gloriosos porque existem nEle. Todavia, só podemos entendê-los quando temos uma visão satisfatória e calorosa deles e os vemos operando para a redenção da Igreja. Então a glória deles brilha sobre nós, trazendo-nos refrigério e alegria indescritíveis. "Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória pois a Ele eternamente. Amém! (Rm 11.33-36).

    2. É por meio de Jesus que cremos em Deus (1Pe 1.21). Assim, o objetivo final de nossa fé é Deus mesmo; mas vemos a Sua glória através de Cristo, o qual é o caminho divinamente designada para revelar a glória de Deus.

    3. Cristo é o único caminho pelo qual os homens podem obter um conhecimento salvador de Deus. Os maiores pensadores religiosos do mundo estão apenas tateando nas trevas da compreensão limitada humana. Como um raio de luz numa noite escura ofusca a visão ao invés de mostrar o caminho ao viajante, assim a luz do conhecimento de Deus em Cristo brilha sobre o incrédulo mergulhado em trevas, e mesmo assim ele não vê o caminho por causa de sua incredulidade. Porventura não tornou Deus louca a sabedoria desse mundo?..."mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus" (1Co 1.20-24).