• Puro conteúdo Reformado!

    ReformedSound

    .

    .

    A verdadeira oração – Dietrich Bonhoeffer – (1906 – 1945)



    - Jesus ensina os discípulos a orar. Sem dúvida, a oração é uma necessidade natural do coração humano, mas isso ainda não lhe empresta validade perante Deus. Mesmo quando praticada com disciplina e experiência, pode ser estéril e sem promessa. Os discípulos podem orar porque Jesus o diz a eles, ele que conhece o Pai. Dá-lhes a promissão de serem ouvidos por Deus. Assim os discípulos oram unicamente porque estão em comunhão com Jesus, em seu discipulado. Quem, no discipulado, está em comunhão com Jesus tem por ele acesso ao Pai. Assim, toda oração verdadeira é oração mediada. Nem mesmo na oração há acesso imediato ao Pai. Somente por meio de Jesus Cristo podemos, na oração, encontrar o Pai. O pressuposto para orar é a fé, a comunhão com Cristo. Ele é o único mediador de nossa oração. Oramos com base em sua palavra. Assim nossa oração será sempre oração vinculada à sua palavra.

    “E, quando orarem, vocês não serão como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos seres humanos. Em verdade lhes digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, e, fechada a porta, orarás a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. E, orando, não usem de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos. Não se assemelhem, pois, a eles; porque Deus, o seu Pai, sabe o de que vocês têm necessidade, antes que lho peçam”. (Mt 6.5-8).

    Oramos a Deus no qual cremos por Cristo. Por isso, a oração ja-mais será uma conjuração de Deus; não nos precisamos mais apresentar diante dele. Podemos confiar que ele sabe do que necessitamos antes que o pecamos. É isso que dá à oração confiança e alegre certeza. Não a fórmula, nem o número de palavras, e sim a fé tange o coração paterno de Deus, que há muito nos conhece.

    A oração verdadeira não é uma obra, um exercício, uma atitude piedosa, mas simplesmente o pedido do filho ao coração do Pai. Por isso, uma oração jamais é demonstrativa nem perante Deus, nem perante nós mesmos, nem perante terceiros. Se Deus já não soubesse do que necessito, eu teria de ficar refletindo sobre como dizê-lo a Deus, o que dizer e até mesmo se vou dizê-lo a ele. Mas a fé na qual oro exclui qualquer reflexão, exclui qualquer demonstração.

    A oração é o secreto absoluto. É totalmente oposta à publicidade. Quem ora já não conhece a si mesmo, mas somente a Deus a quem invoca. Como a oração não influi sobre o mundo, mas é dirigida unicamente a Deus, ela é a ação antidemonstrativa por excelência.

    Entretanto, existe também a oração transformada na demonstração que revela o que está em secreto. Isto acontece não somente na oração pública que se transforma em palavreado. Tal fato será raro em nossos dias. Mas não há diferença, ao contrário, é bem mais pernicioso se me transformo eu mesmo em espectador de minha oração, quando oro diante de mim mesmo, seja desfrutando este estado como espectador satisfeito, seja surpreendendo a mim mesmo espantado ou envergonha¬do neste estado. A publicidade de rua não passa de uma forma mais ingênua da publicidade que eu mesmo me preparo. Também no recolhimento do quarto posso encenar-me uma vistosa demonstração. Até esse ponto é possível distorcer a palavra de Jesus! A publicidade que procuro consiste então no seguinte: eu sou o que ora e o espectador ao mesmo tempo. Sou meu próprio espectador, eu me ouço a mim mesmo. Por não querer esperar até que Deus me ouça, por não querer que, algum dia, Deus me revele que me ouviu, cuido eu mesmo do atendimento de minha oração. Constato que orei piedosamente, e nesta constatação consiste a satisfação do atendimento. Minha oração foi atendida. Já tenho a recompensa. Porque atendi a mim mesmo, Deus já não me atenderá; porque eu mesmo preparei a recompensa da publicidade, Deus já não me recompensará.

    O que é o quarto a que Jesus se refere, se não estou seguro nem diante de mim mesmo? Como fechá-lo de tal forma que nenhum espectador venha perturbar o segredo da oração, levando-me a recompensa da oração em secreto? Como proteger-me contra mim mesmo, contra a tentação da reflexão? Como matar a reflexão pela reflexão? Está aí a palavra: a vontade própria de impor-se através da oração precisa morrer. Quando a vontade de Jesus reina exclusivamente em mim, e toda a minha vontade se resume na dele, na comunhão com Jesus, no discipulado, então morre a vontade própria. Posso então orar que se faça a vontade daquele que sabe do que necessito antes que eu o peça. Minha oração só será certeira, forte e pura quando emanar da vontade de Jesus. Então orar será realmente pedir. O filho pede ao pai, o qual conhece. Não a adoração geral, mas a prece é a essência da oração cristã. Isso corresponde à atitude do ser humano perante Deus, pedindo de mão estendida àquele que ele sabe ter um coração paternal.

    A verdadeira oração é assunto secreto; isso não exclui, todavia, a comunhão de oração, mesmo conhecendo os perigos que esta encerra. A publicidade de rua e o quartinho, orações longas ou curtas, seja na litania da oração da Igreja, seja o suspiro de oração de quem não sabe o que orar, o indivíduo ou a congregação, nada disso é decisivo. O que importa unicamente é o reconhecimento: seu Pai sabe do que vocês necessitam. Isso orienta a oração exclusivamente para Deus. Isso livra o discípulo da hipocrisia das obras.

    Portanto, vocês orarão assim: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino, faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia dá-nos hoje; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal, pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém. Porque se vocês perdoarem aos seres humanos as suas ofensas, também seu Pai celeste lhes perdoará; se, porém, não perdoarem aos seres humanos as suas ofensas, tampouco seu Pai lhes perdoará as suas ofensas. (Mt 6.9-15).

    Jesus ensinou aos discípulos não somente como orar, mas também o que orar. O Pai-Nosso não é apenas um exemplo de oração para os discípulos. Jesus quer que eles orem como ele lhes ensinou. O Pai-Nosso é a oração por excelência. Toda oração dos discípulos tem nele sua substância e seus limites. Jesus não deixa os discípulos na incerteza; o Pai-Nosso lhes dá clareza total em assuntos de oração.