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    O (Terrível) Legado de Charles Finney - Michael S. Horton


    Jerry Falwell descreveu Finney como "um de meus heróis e de mui­tos evangélicos, incluindo Billy Graham". Lembro-me de ter visita­do o Instituto Billy Graham alguns anos atrás; ali observei o lugar de honra dado a Finney na tradição evangélica. Isto foi reforçado pela recordação de minha primeira aula de teologia em uma faculdade evangéli­ca, na qual foi solicitado que lêssemos a obra de Finney. O avivalista de No­va Iorque tem sido freqüentemente citado e celebrado, como um herói, pelo famoso cantor evangélico Keith Green e pela organização Jovens Com Uma Missão. Finney é particular­mente estimado entre líderes de movimentos evangélicos conserva­dores e liberais, tanto por Jerry Falwell quanto por Jim Wallis (da re­vista Sojourner). E sua marca pode ser vista em vários movimentos que parecem ter posições diferentes, mas que na realidade são herdeiros do le­gado de Finney. Para grupos tais co­mo o movimento Vineyard e o de Crescimento de Igrejas, em campa­nhas políticas e sociais, no tele­vangelismo e no movimento Pro­mise-Keepers (Guardiões da Promes­sa), "Finney continua vivo! ", citando as palavras de um dos presidentes do Wheaton College.
    Isto acontece porque o impulso moralista de Finney idealizou uma igreja que, em grande escala, seria um agente de reforma da sociedade e do indivíduo, ao invés de uma insti­tuição onde os meios da graça, a Pa­lavra de Deus e as ordenanças, são colocados à disposição dos crentes que, em seguida, levam o evangelho ao mundo. No século XIX, o movi­mento evangélico identificou-se, de maneira crescente, com as causas políticas — a abolição da escravatu­ra, leis sobre o trabalho infantil, os direitos da mulher e a proibição de bebidas alcoólicas. Na virada do sé­culo, com a afluência de imigrantes católicos romanos, o que deixou apre­ensivos muitos protestantes ame­ricanos, o secularismo começou a minorar a influência do movimento evangélico sobre instituições (universidades, hospitais, organizações filan­trópicas) que os crentes haviam criado e mantido. Em um desesperado es­forço para reconquistar este poder institucional e a glória da "América Cristã" (um ideal que sempre tem dominado a imaginação de alguns, mas, após a desintegração da Nova Inglaterra Puritana, se tornou ilusó­rio), o protestantismo da virada do século lançou campanhas para "ame­ricanizar" imigrantes, enfatizando o ensino de valores morais e a "educa­ção do caráter". Os evangelistas mo­delaram seu evangelho em termos de utilidade prática ao indivíduo e à na­ção.
    Este é o motivo por que Finney é tão popular. Ele foi grandemente responsável pela mudança da ortodoxia reformada, evidente no Gran­de Avivamento (nos ministério de Edwards e Whitefield), para o avivalismo arminiano (na realidade, também pelagiano), evidente desde o Segundo Grande Avivamento até ao presente. Para demonstrar a dívi­da do evangelicalismo moderno para com Finney, temos de inicialmente observar seus desvios teológicos. Com base nestes desvios, ele tornou-se o pai de alguns dos grandes desafios contemporâneos dentro das próprias igrejas evangélicas, ou seja, o Movi­mento de Crescimento de Igrejas, o Pentecostalismo e o Avivalismo Po­lítico.

    Quem era Charles Finney?

    Reagindo contra o calvinismo do Grande Avivamento, os sucessores daquele grande movimento do Espí­rito afastaram-se do caminho do Senhor e seguiram o dos homens, apartaram-se da pregação de con­teúdo objetivo (ou seja, Cristo crucificado) para seguir a ênfase de levar as pessoas a "fazerem uma decisão".
    Charles Finney (1792-1875) mi­nistrou nos rastros do "Segundo Avivamento", conforme esse tem sido chamado. Era um advogado e membro da igreja presbiteriana; em certo dia, experimentou "um pode­roso batismo do Espírito Santo", que, "à semelhança de uma onda de energia", ele relatou, "percorreu todo meu ser, parecendo vir em ondas de amor líquido". Na manhã seguinte, ele informou ao seu primeiro clien­te: "Não posso mais defender sua causa; tenho um chamado para de­fender a causa do Senhor Jesus". Recusando-se a assistir aulas no Se­minário Princeton (ou qualquer outro seminário), Finney começou a pro­mover avivamentos na parte norte do Estado de Nova Iorque. Um de seus mais populares sermões era "Os Pe­cadores Estão Obrigados a Mudar Seus Próprios Corações".
    Ao considerar qualquer assunto a ser ensinado, esta era a pergunta fundamental de Finney: "Isto é bom para converter pecadores?" Um dos resultados do avivalismo de Finney foi a divisão dos presbiterianos dos Estados de Filadélfia e de Nova Ior­que em facções calvinistas e armi­nianas. As "Novas Medidas" de Finney incluíam o "banco dos ansio­sos" (precursor do atual apelo para "vir à frente"), táticas emocionais, que levavam as pessoas a sentirem-se desesperadas e chorarem, e outros "incentivos", como ele e seus seguidores os chamavam. Finney se tor­nou mais e mais hostil ao pres­biterianismo, referindo-se de manei­ra crítica na introdução de sua obra "Teologia Sistemática" à Confissão de Westminster e a seus elaboradores, como se eles tivessem criado um "pe­riódico papal" e "elevado sua Con­fissão e Catecismo ao trono do papa e ao lugar do Espírito Santo". De maneira notável, Finney demonstra quão profundamente o avivalismo arminiano, por causa de seu apelo aos sentimentos naturais, tende a ser uma forma polida de liberalismo teológi­co, visto que ambos se renderam ao Iluminismo e seu culto do entendi­mento e da moralidade humana:
    "O fato de que a Confissão ela­borada pela Assembléia de West­minster seria reconhecida no século XIX como um padrão para a igreja ou para um grupo específico dela não é apenas surpreendente, mas também (tenho de afirmar) é bastante ridícu­lo. É tão ridículo na teologia quanto o seria em qualquer outra ciência. E melhor ter um papa vivo do que um morto".

    O que estava errado na teo­logia de Finney?

    Não precisamos ir além do índi­ce de sua Teologia Sistemática para reconhecer que toda a teologia de Finney girava em torno da mora­lidade humana. Os capítulos 1 a 5 falam sobre o governo, a obrigação e a unidade de ação moral. Os capí­tulos 6 e 7 referem-se à "Obediência Completa"; os capítulos 8 a 14 dis­cursam sobre o amor, o egoísmo, virtudes e pecados em geral. Somen­te no capítulo 21, o leitor acha algu­ma coisa especificamente cristã, re­portando-se à expiação. A este capítulo segue um discurso sobre a regeneração, o arrependimento e a fé. Existe um capítulo sobre a justificação acompanhado por seis sobre a santificação. Em outras palavras, Finney realmente não escreveu uma Teolo­gia Sistemática, e sim uma coletânea de ensaios a respeito de moralidade.
    Entretanto, não estamos afirman­do que a obra de Finney não possui algumas declarações teológicas sig­nificativas. Respondendo à pergunta: "O crente deixa de ser crente sempre que comete um pecado?", Finney disse: "Sempre que comete pecado, o crente deixa de ser santo. Isto é evi­dente. Sempre que peca, ele precisa ser condenado; tem de incorrer na penalidade da lei de Deus. Se alguém disser que o preceito da lei ainda vi­gora, mas que, no caso do crente, a penalidade foi anulada para sempre, eu respondo afirmando que anular a penalidade da lei é cancelar seu pre­ceito, pois, se o preceito não de­manda punição, não existe lei, e sim apenas uma advertência ou conse­lho. Por conseguinte, o crente é justificado em proporção à sua obedi­ência e precisa ser condenado, quan­do pecar; de outra forma, o anti­nomianismo se torna verdadeiro... Neste sentido, o crente que peca e o incrédulo encontram-se exatamente na mesma situação" (p. 46).
    Finney acreditava que Deus exi­ge perfeição absoluta, mas, ao invés de levar as pessoas a buscarem a per­feita justiça em Cristo, ele concluiu que "...a plena obediência no presen­te é a condição da justificação. Po­rém, quanto à pergunta: o homem pode ser justificado enquanto o pe­cado permanece nele?, respondemos: é certo que não, quer seja com base em princípios da lei ou do evange­lho, a menos que a lei seja anulada. Ele pode ser perdoado, aceito e jus­tificado, no sentido evangélico, en­quanto o pecado, em qualquer grau, permanece nele? Absolutamente, não" (p. 57).
    Posteriormente falaremos mais sobre a doutrina da justificação ensi­nada por Finney, mas agora já po­demos ressaltar que ela está funda­mentada sobre a negação da doutrina do pecado original. Afirmado tanto por católicos quando por evangélicos, este ensino bíblico repete com insis­tência que todos somos nascidos em pecado e herdamos a corrupção e a culpa de Adão. Estamos, portanto, em escravidão a uma natureza peca­minosa. Conforme alguém disse: "Nós pecamos porque somos peca­dores"; a condição de pecado de­termina nossos atos pecaminosos, e não vice-versa. Finney, entretanto, seguiu os ensinos de Pelágio, o here­ge do quinto século, que, por negar essa doutrina, foi condenado pelos concílios da igreja, mais do que qualquer outra pessoa na história eclesiástica.
    Ao contrário da doutrina do pe­cado original, Finney acreditava que os seres humanos são capazes de es­colher se desejam ser corruptos por natureza ou redimidos, referindo-se à doutrina do pecado original como "um dogma sem lógica e fundamen­to bíblico" (p. 179). Em termos claros, ele negou a idéia de que os homens possuem uma natureza pe­caminosa (ibid.). Por conseguinte, se Adão nos leva ao pecado e isto ocor­re não porque herdamos a sua culpa ou corrupção, e sim porque seguimos o seu triste exemplo, tal idéia nos conduz a pensar logicamente que Cristo, o Segundo Adão, nos salva por meio de seu exemplo. Este é exa­tamente o ponto aonde Finney che­gou, ao explicar a doutrina da expia­ção.
    A primeira coisa que temos de observar sobre a expiação, dizia Finney, é que Cristo não poderia ter morrido em favor do pecado de qual­quer outra pessoa, exceto o dele mesmo. Sua obediência à lei e sua perfeita justiça eram suficientes para salvar somente a Si mesmo, mas não podiam ser aceitas em favor de ou­tros. O fato de que toda a teologia de Finney resultou de uma intensa pai­xão por aperfeiçoamento moral pode ser visto nesta afirmativa: "Se Cris­to tivesse obedecido a lei como nosso Substituto, por que a insistência bí­blica sobre nosso retorno à obediência pessoal, apresentando esta obediên­cia como um requisito fundamental para nossa salvação?" (p. 206). Em outras palavras, por que Deus insiste em salvar-nos por meio de nossa obe­diência, se a obra de Cristo foi su­ficiente? O leitor recordará as pala­vras do apóstolo Paulo, no que con­cerne a este assunto: "Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão" (Gl 2.21). A respos­ta de Finney parece concordar com este versículo. A diferença é esta: ele não tinha dificuldade para aceitar ambas as premissas.
    É evidente que essa não é toda a verdade, pois Finney acreditava que Cristo havia morrido por algum mo­tivo — não por alguém, mas por alguma coisa. Em outras palavras, Cristo morreu por um objetivo e não por um povo. O objetivo da morte dEle foi reafirmar o governo moral de Deus e conduzir-nos à vida eterna por meio de seu exemplo, assim como o exemplo de Adão nos incita ao pe­cado. Por que Cristo morreu? Deus sabia que "a expiação ofereceria às criaturas os mais elevados motivos a serem imitados. O exemplo é a mais poderosa influência moral que pode ser praticada... Se a benevolência manifestada na expiação não subjuga o egoísmo dos pecadores, a situação destes é desesperadora" (p. 209). Portanto, não somos pecadores desesperados que precisam ser re­dimidos, e sim pecadores desorien­tados que necessitam de uma de­monstração de altruísmo tão co­movente, que seremos motivados a abandonar o egoísmo. Finney não apenas acreditava que a teoria de uma expiação de "influência moral" era a principal maneira de se entender a cruz; ele explicitamente negava a expiação vicária, pois esta "admite que a expiação foi literalmente o pagamento de um débito, que, con­forme vimos, não é coerente com a natureza da expiação... E verdade que a expiação, por si mesma, não assegura a salvação de qualquer pes­soa" (p. 217).
    Agora consideremos a opinião de Finney a respeito de como se aplica a expiação. Rejeitando o calvinismo ortodoxo dos antigos presbiterianos e congregacionais, Finney argumentou tenazmente contra a crença de que o novo nascimento é um dom de Deus, insistindo que "a regeneração consiste na atitu­de do próprio pecador mudar sua intenção, sua preferência e sua esco­lha definitiva; ou mudar do egoísmo para o amor e a benevolência", im­pulsionado pela influência moral do comovente exemplo de Cristo (p. 224). "A pecaminosidade original, a regeneração física e todos os dog­mas resultantes e similares a estes opõem-se ao evangelho e são repul­sivos à inteligência humana" (p. 236).
    Não levando em conta o pecado original, a expiação vicária e o cará­ter sobrenatural do novo nascimento, Finney prosseguiu adiante e atacou "o artigo pelo qual a igreja mantém‑se de pé ou cai" — a justificação gra­tuita exclusivamente pela fé.
    Os reformadores protestantes in­sistiam, com base em evidentes textos bíblicos, que a justificação (no gre­go, "declarar justo", ao invés de "tornar justo") era um veredicto fo­rense (isto é, "judicial"). Em outras palavras, enquanto o catolicismo ro­mano sustentava que a justificação era um processo para tornar melhor uma pessoa má, os reformadores argumen­tavam que a justificação era um pro­nunciamento ou uma declaração de que alguém possuía a retidão de ou­tra pessoa (ou seja, Cristo). Portan­to, a justificação era um ver edito perfeito, outorgado de uma vez por todas, declarando que alguém permanecia íntegro desde o início da vida cristã, e não em qualquer outra etapa desta.
    As palavras chaves da doutrina evangélica eram "forense" (significando "judicial") e "impu­tação" (lançar na conta de alguém; opondo-se à idéia de "infusão" de jus­tiça na alma da pessoa). Sabendo tudo isso, Finney declarou:
    "É impossível e absurdo que os pecadores sejam declarados legalmen­te justos... Conforme veremos, há várias condições, mas apenas um fun­damento, para a justificação dos pe­cadores. Já dissemos que não existe uma justificação no sentido forense ou judicial, e sim uma justificação fundamentada na ininterrupta, perfei­ta e universal obediência à lei. Isto, sem dúvida, é negado por aqueles que asseveram que a justificação evangé­lica, ou a justificação de pecadores arrependidos, possui o caráter de uma justificação forense ou judicial. Eles se apegam à máxima judicial de que aquilo que um homem faz através de um outro é considerado como sendo feito por ele mesmo; portanto, a lei considera a obediência de Cristo co­mo nossa, com base no fato de que Ele a obedeceu por nós".
    A isto o próprio Finney respondeu: "A doutrina de uma justiça imputada, ou se­ja, que a obedi­ência de Cristo à lei foi reputada como nossa, fun­damenta-se em uma suposição fal­sa e sem lógica". Afinal de contas, a justiça de Cris­to "poderia jus­tificar somente a Ele mesmo. Ja­mais poderia ser imputada a nós... Era naturalmente impossível para Ele obedecer a lei em nosso favor". Esta "interpretação da expiação como base da justificação dos pecadores tem sido uma ocasião de tropeço para muitos" (pp. 320-322).
    O conceito de que a fé é a única condição da justificação expressa "um ponto de vista antinomiano", disse Finney. "Veremos que a perseveran­ça na obediência até ao fim é também uma condição para a justificação." Além disso, a "santificação presente, no sentido de plena consagração a Deus, é outra condição... da justifi­cação. Alguns teólogos transfor­maram a justificação em uma condi­ção para a santificação, ao invés de fazerem da santificação uma condi­ção para a justificação. Porém, con­forme observaremos, este é um con­ceito errado sobre a justificação" (pp. 326-327). Cada ato de pecado exige "uma nova justificação" (p. 321). Referindo-se "aos elaboradores da Confissão de Fé de Westminster" e ao ponto de vista de uma justiça im­putada, Finney admirou-se, afir­mando: "Se isto não é antino­mianismo, não sei o que é" (p. 332). Essa imputação legal era irracional para ele, por isso concluiu: "Consi­dero estes dogmas como fantasiosos, descrevendo mais um romance do que um sistema teológico" (p. 333). Na seção em que falou contra a Assem­bléia de Westminster, ele finalizou dizendo:
    "As relações entre o antigo pon­to de vista da justificação e o ponto de vista da depravação é óbvio. Os membros da Assembléia sustentam, conforme já vimos, que a constitui­ção do homem, em todas as suas partes e faculdades, é pecaminosa. Naturalmente, um retorno à santida­de pessoal, no presente, no sentido de uma completa conformidade à lei de Deus, na opinião deles, não pode ser uma condição para justificação. Eles precisam ter uma justificação enquanto ainda permanecem em cer­to grau de pecado. Isto tem de ser realizado por meio da justificação im­putada. O intelecto se revolta diante de uma justificação em pecado. Por­tanto, um método foi inventado para que os olhos da lei e de seu Doador sejam retirados do pecador e focali­zados em seu Substituto, que obe­deceu perfeitamente a lei" (p.339).
    Finney chamou essa doutrina de "outro evangelho". Insistindo que a descrição realística de Paulo em Ro­manos 7 realmente se refere à vida do apóstolo antes que ele houvesse atingido a "perfeita santificação", Finney ultrapassou Wesley ao argu­mentar em favor da possibilidade da santificação completa nesta vida. John Wesley dizia que é possível para o crente atingir a plena santificação, mas, quando reconheceu que o me­lhor dos crentes peca, ele aco­modou-se à realidade dos fatos, afir­mando que a experiência da "per­feição cristã" era uma questão de co­ração e não de ações. Em outras palavras, um crente pode ser aper­feiçoado em amor, de modo que este amor se torne a única motivação para as suas atitudes, enquanto ocasional­mente comete erros. Finney rejeitou esta opinião e insistiu que a justifica­ção está condicionada à perfeição completa e total — ou seja, a "inteira conformidade à lei de Deus", e o crente pode fazer isso; mas, quando ele transgride em algum ponto, uma nova justificação é exigida.
    Conforme ressaltou eloqüente­mente B. B. Warfield, o teólogo de Princeton, há duas religiões na his­tória da raça humana: o paganismo — da qual o pelagianismo é uma ex­pressão — e a redenção sobrenatural. Juntamente com Warfield e outros que com seriedade advertiram seus irmãos sobre os erros de Finney e seus sucessores, também temos de avaliar as idéias amplamente heterodoxas dos protestantes americanos. Com suas raízes no avivalismo de Finney, tal­vez o protestantismo liberal e o pro­testantismo evangélico, afinal de con­tas, não estejam tão afastados um do outro! As "Novas Medidas" de Finney, semelhantes às do moderno Movimento de Crescimento de Igrejas, tornaram a escolha do homem e as emoções o centro do ministério da igreja, ridicularizaram a teologia e substituíram a pregação de Cristo por uma prega­ção voltada a conversões.
    Com base no moralismo natural advogado por Finney, as campanhas políticas e sociais dos cristãos ali­cerçaram sua fé na humanidade e em seus próprios recursos para a salva­ção de si mesma. Ecoando um pouco de deísmo, Finney declarou: "Na vida espiritual nada existe além das capacidades naturais; ela consiste to­talmente no correto exercício dessas capacidades. É apenas isto e nada mais. Quando a humanidade se torna verdadeiramente religiosa, as pesso­as são capacitadas a demonstrar es­forços que eram incapazes de mani­festar antes. Exercem apenas capa­cidades que tinham antes, e utiliza­vam de maneira errônea, e agora as empregam para a glória de Deus". Deste modo, visto que o novo nasci­mento é um fenômeno natural, o mesmo ocorre ao avivamento: "Uma avivamento não é um milagre, tam­pouco depende deste, em qualquer sentido; é simplesmente um resulta­do filosófico da correta utilização dos meios estabelecidos, assim como qualquer outro resultado produzido pelo emprego destes meios". A cren­ça de que o novo nascimento e uma avivamento dependem necessariamente da atividade divina era perniciosa para Finney. Ele disse: "Nenhuma doutrina é mais perigosa do que esta para o progresso da igreja, e nada pode ser mais absurdo" (Revivais of Religião [Avivamentos da Religião], Revell, pp. 4-5). Quan­do os líderes do Movimento de Cres­cimento de Igreja reivindicam que a teologia impede o crescimento da igreja e insistem que, não importan­do o que determinada igreja acredita em particular, o crescimento é uma questão de seguir os princípios ade­quados, estes líderes estão de­monstrando seu débito a Finney. Quando os líderes do movimento Vineyard exaltam a iniciativa subcris­tã de Finney, bem como o gritar, a desordem, o falar alto, o rir e outros, fenômenos estranhos, com base na idéia de que "isto funciona" e que devemos julgar a verdade destas coi­sas pelos frutos produzidos, esses líderes estão seguindo as idéias de Finney e de William James, o pai do pragmatismo americano. Este último declarou que uma verdade precisa ser julgada de acordo com "seu valor na prática".
    Deste modo, na teologia de Fin­ney, Deus não é soberano, o homem não é pecador por natureza, a expia­ção realmente não é um pagamento pelo pecado, a justificação por meio da imputação é um insulto à razão e à moralidade, o novo nascimento é apenas o resultado da utilização de técnicas bem-sucedidas, e o aviva­mento é o resultado natural de campanhas inteligentes. Em sua re­cente introdução à edição do bi­centenário da Teologia Sistemática de Finney, Harry Conn recomenda o pragmatismo de Finney: "Muitos ser­vos de Deus procuram um evangelho que 'funciona'; sinto-me feliz em declarar que o acharão nesta obra". Conforme Whitney R. Cross cuidadosamente documentou em seu livro, The Burned-Over District, The Social and Intellectual History of Enthusiastic Religion in Western New York, 1800-­1850 (Cornell University Press, 1950), todo o território em que com mais freqüência se realizavam os avi­vamentos de Finney era também o berço dos cultos perfeccionistas que infestaram aquele século. Um evan­gelho que "funciona" hoje, para os zelosos perfeccionistas, apenas cria os supercrentes iludidos e esgotados de amanhã.
    E desnecessário dizer que a men­sagem de Finney é radicalmente contrária à fé evangélica, assim como as diretrizes fundamentais de movi­mentos vistos ao nosso redor, que demonstram as marcas de Finney: o avivalismo (ou seu representante moderno, "o Movimento de Cresci­mento de Igreja"), o perfeccionismo e o emocionalismo pentecostal, e as tendências anti-intelectuais e anti-doutrinárias do fundamentalismo e evangelicalismo moderno. Foi por intermédio do "Movimento da Vida Superior" (Higher Life Movement), do final do século XIX e início do século XX, que o perfeccionismo de Finney chegou a dominar o recém-nascido movimento dispensacionalista através de Lewis Sperry Chafer, fundador do Seminário de Dallas e autor de He That Is Spiritual (Aquele que é Espiritual). Finney, entretanto, não é o único responsável; ele é mais um produto do que um produtor. Apesar disso, a influência que ele exerceu e conti­nua exercendo é abrangente.
    O avivalista não apenas abando­nou o princípio fundamental da Re­forma (a justificação), tornando-se um rebelde contra o cristianismo evangélico, como também rejeitou as doutrinas que têm sido acreditadas por católicos e protestantes (tais como o pecado original e a expiação vicá­ria). Por isso, Finney não é simples­mente um arminiano, mas um pela­giano. Ele não é apenas um inimigo do protestantismo evangélico mas também do cristianismo histórico, no mais abrangente sentido da palavra.
    Não enfatizo estas coisas com satisfação, como se desejasse regozi­jar-me em denunciar os heróis dos evangélicos americanos. Porém, sem­pre é bom, especialmente quando perdemos algo de valor, retroceder nossos passos, a fim de determinar onde ou quando, pela última vez, o tínhamos em nossa possessão. O pro­pósito deste artigo é focalizar, com sinceridade, o grave afastamento do cristianismo bíblico promovido atra­vés do avivalismo americano. Até que sejamos capazes de encarar este afas­tamento, estaremos perpetuando um caminho perigoso e distorcido. Em uma afirmativa, Finney estava abso­lutamente correto: o evangelho afirmado e defendido pelos teólogos de Westminster (os quais ele atacou di­retamente) e por todos os evangélicos é "outro evangelho", no sentido de ser distinto daquele que Finney pro­clamava. A grande questão do mo­mento é: Qual destes é o nosso evan­gelho?
    Todas as citações de Finney fo­ram retiradas de seu livro Teologia Sistemática ("Systematic Theology", Bethany, 1976