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    O Compromisso Puritano com as Escrituras



    As Escrituras constituíam a peça central do pensamento e da vida puritana.

    O puritanismo foi, acima de tudo, um movimento bíblico. Para o puritano, a Bíblia era, na verdade, o bem mais precioso que há neste mundo. Sua profunda convicção era de que a reverência para com Deus implicava em reverência para com as Escrituras, e servir a Deus significava obedecer às Escrituras. Para ele, portanto, não haveria maior insulto ao Criador que negligenciar Sua Palavra escrita: e, de maneira contrária, não poderia haver ato de homenagem mais genuíno para com Deus que valorizá-la e atentar para o que ela diz, e assim viver e repassar seus ensinamentos. A intensa veneração das Escrituras, como Palavra viva do Deus vivo e uma dedicada solicitude quanto a conhecer e fazer tudo que ela prescreve, constituía marca registrada do puritanismo.

    Para os puritanos, a Bíblia era suprema em tudo, inclusive na prática do aconselhamento.

    E a base bíblica para o aconselhamento puritano repousava sobre a doutrina da inspiração divina. O método de inspiração, conforme enxergavam os puritanos, foi por meio do divino superintender do Espírito Santo na escolha das palavras, sem violar o conhecimento ou a personalidade do autor humano.6 O resultado foi uma inspiração do texto entendida como sendo verbal, plenária, infalível, e inerrante.

    Embora muitos evangélicos contemporâneos concordem com essa visão de inspiração, os puritanos foram além de um simples concordar verbal com a doutrina. Os teólogos puritanos enfatizaram a perspicácia, a clareza e o proveito das Escrituras. Até a forma literária do texto inspirado tornou as Escrituras particularmente relevante à condição humana.

    Quanto à forma de expressão, as Escrituras não explicam a vontade de Deus por meio de regras universais e científicas, mas sim por intermédio de histórias, exemplos, preceitos, exortações, advertências e promessas. Este estilo se adequava melhor no dia-a-dia do homem comum, além de influenciar grandemente a vontade, mexendo com as motivações piedosas que se constituem no alvo principal da teologia.

    Por seu próprio propósito, as Escrituras visam comunicar a verdade de tal modo que o leitor seja direcionado rumo a Deus. A Bíblia não é, tão somente, apenas clara naquilo que afirma; ela também autentica a si mesma. Nesse sentido, William Ames afirmou: "As Escrituras não precisam de nenhuma explicação proveniente de luz exterior, especialmente quanto às coisas necessárias. Elas se auto-iluminam, e cabe ao homem ser diligente nessa descoberta". Essa importante declaração revela a recusa do puritano em introduzir teorias psicológicas estranhas em sua interpretação do texto. A Bíblia era vista como fonte de toda direção, instrução, consolo, exortação e encorajamento divinos. O resultado disso foi um método de aconselhamento centrado nas Escrituras, em lugar de uma teoria carregada.

    Um resultado direto da inspiração da Bíblia é sua autoridade implícita. Carregando a marca daquilo que é divino, a autoridade da Bíblia era considerada como final e absoluta. O que quer que a Bíblia dissesse, Deus disse. Conforme Thomas Watson observou: "Em cada linha que você lê, imagine Deus falando com você". Isto significa que a Bíblia permanecia como prumo de juízo na consciência do indivíduo, quanto a todos os seus mandamentos e promessas. Em tudo o que diz, era como se o próprio Deus estivesse exortando, encorajando, dirigindo, consolando, instando, trazendo convicção [de pecado], e instruindo.

    Já que a Palavra de Deus consiste das próprias palavras de Deus, sua autoridade é exaustiva, estendendo-se por toda área da fé e da prática, incluindo tudo o que é necessário para a vida e a piedade. Conforme declarou Richard Sibbes: "Não há qualquer coisa ou qualquer condição que aconteça ao cristão nesta vida sem que exista uma regra geral na Bíblia para tal, e essa regra é estimulada por meio do exemplo. Em outras palavras, os puritanos possuíam uma perspectiva teológica holística arraigada nas Escrituras, levando William Ames a concluir: "Não há qualquer preceito de verdade universal pertinente ao bem viver quanto à economia doméstica, a moralidade, ávida política, ou a criação de leis que não pertença, por direito, à teologia".' Para os puritanos ingleses, toda necessidade psicológica concebível poderia ser satisfeita e todo problema psicológico imaginável poderia ser resolvido por uma aplicação direta de verdade bíblica.

    A aplicação das Escrituras era feita de forma mais consistente por meio da pregação expositiva. Conforme explicou Ames: "o dever do pregador comum é destacar a vontade de Deus a partir da Palavra, para a edificação dos ouvintes". O sermão servia como meio de aconselhar, de forma coletiva, edificando o corpo dos cristãos ali reunidos. Pela perspectiva puritana, se os santos não eram edificados, então a Palavra não foi pregada. Falando aos pregadores, contemporâneos seus, Ames advertiu: "Pecam, portanto, os que aderem à descoberta e à explicação nua da verdade, mas que negligenciam o uso e a prática em que consistem a religião e a bem-aventurança. Esses pregadores pouco ou quase nada edificam a consciência". A pregação puritana, portanto, constituía-se em uma forma de aconselhamento preventivo, à medida que as verdades das Escrituras eram aplicadas à consciência. Para atingir esse propósito, cada sermão foi dividido em duas partes principais: doutrina e prática. O resultado era que a pregação se tornava tanto profundamente teológica quanto intensamente prática.

    A passagem das Escrituras a ser pregada era analisada à luz da gramática, da lógica, e contextualmente, e aí relacionada a outros textos de forma a assegurar sua importância doutrinária. Então, "cada doutrina, quando suficientemente explicada, deveria ser aplicada imediatamente". O uso da doutrina estava relacionado tanto ao discernimento quanto ao direcionamento. O discernimento inclui ou a informação dada à mente ou reforma feita ao entendimento (informação é a revelação de alguma verdade enquanto reforma é o refutar de algum erro). O direcionamento consiste em instrução e correção: instrução é o expor da vida que deve ser seguida, enquanto correção é a condenação da vida que deve ser evitada. A forma que o pastor deveria aplicar a verdade bíblica à congregação foi delineada por Ames: "Aplicar uma doutrina quanto a seu uso é afiar e tornar alguma verdade geral especialmente pertinente, com efeito tal, a ponto de penetrar a mente do ouvinte, despertando disposições piedosas". Os puritanos leigos estavam completamente aparelhados com motivações adequadas, quanto ao viver para Deus, por meio da instrução prática a partir da Palavra de Deus. O fundamento no qual eles alicerçaram suas vidas foi a Bíblia.
    Ken Sarles