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    O Arrependimento e a Reforma



    - A época da Reforma foi um período da História cristã em que entendeu-se bem a vida de arrependimento. A redescoberta de Lutero da justificação pela fé, baseada na obra consumada de Cristo, em sua expiação em nosso lugar, levou-o a desafiar a idéia popular de que o arrependimento nada mais era do que a formalidade da confissão e absolvição sacramental, com a execução de qualquer "penitência" que o sacerdote viesse a impor. Embora nunca oficialmente endossadas, estas noções receberam a aprovação para serem praticadas e o consenso; o desafio de Lutero foi oportuno e extremamente necessário. Como já vimos, ele afirmou que o arrependimento devia ser uma atividade constante e permanente, e argumentou que, como a fé, o arrependimento tem de ser um exercício do coração.

    Quem entendeu esta concepção e a adotou foi John Bradford que, em 1555, aos quarenta e cinco anos de idade, foi amarrado a uma estaca e queimado em Londres como parte da campanha lançada pela Rainha Maria para livrar a Inglaterra dos protestantes. Bradford só tinha seis anos de conversão. No entanto, durante esse tempo, ganhou distinção entre os reformadores ingleses como pregador e como um homem notavelmente santo, para quem o arrependimento era um modo de vida. Thomas Sampson, amigo que o levou à fé, escreveu o prefácio da segunda edição do Sermão de Arrependimento de Bradford (Em Dois Sermões..., 1574). Trazendo o seguinte cabeçalho: "Ao Leitor Cristão, Thomas Sampson deseja a felicidade de uma conversão rápida e completa ao Senhor", este prefácio compartilha um aspecto da realidade e do segredo da santidade de Bradford. "Mestre Bradford foi um modelo", escreve Sampson, "deste (...) arrependimento que (...) foi ensinado por ele, que eu, que o conheci particularmente, tenho de louvar a Deus por ele, uma vez que, entre os homens, poucos conheci como ele".

    Ele continua a explicar seu parecer com palavras que merecem ser transcritas neste livro:

    (...) aprouve a Deus, com grande rapidez, prepará-lo para o martírio no qual, por meio de Cristo, ele veio a receber a coroa da vida. No entanto, (...) a constante meditação, a prática do arrependimento e a fé em Cristo, que o guardou pela graça de Deus e foi notavelmente praticada todos os dias de sua vida, ajudaram-no muito em sua caminhada.

    (...) nosso Bradford tinha suas práticas e exercícios diários de arrependimento. Fez para si uma lista de todos os (sic) pecados terríveis que, em sua vida de ignorância, havia cometido e a colocava diante de seus olhos quando ia orar em particular para que, ao vê-la e lembrar-se dela, ele pudesse: erguer-se para oferecer a Deus o sacrifício de um coração contrito, buscar a convicção da salvação em Cristo pela fé, agradecer a Deus por tê-lo chamado das veredas da iniqüidade e pedir que a graça superabundasse em uma vida santa que fosse aceitável e agradável a Deus.

    Tamanho era o exercício contínuo da consciência que fazia em suas orações particulares que ele não se contentava com sua oração a menos que sentisse no íntimo algum peso no coração pelo pecado cometido, e a cura daquela ferida pela fé, sentindo o restabelecimento salvador de Cristo, que trazia uma mudança de mente que o levava a sentir ódio do pecado e amor em obedecer à boa vontade de Deus (...).

    (...) Vamos aprender, com o exemplo de Bradford, a orar melhor, ou seja, orar com o coração, e não apenas com os lábios (...) como disse Cipriano: "Deus ouve o coração, e não a voz". Ou seja, não apenas a voz sem o coração, porque isto não passa de um movimento dos lábios (...).

    Este era mais um de seus exercícios: ele costumava fazer uma efemérides (ou seja, um diário) ou um registro, no qual escrevia todas as coisas notáveis que ouvia ou via a cada dia que passava. No entanto, (...) ele escrevia de tal forma que uma pessoa podia observar naquele livro os sinais de um coração impressionado. Pois se via ou ouvia algo bom sobre uma pessoa, por meio daquela percepção, ele queria ver aquilo se concretizar em sua própria vida, e acrescentava uma pequena oração em que pedia misericórdia e graça para ser aperfeiçoado. Se ouvia ou via algum mal ou miséria, ele anotava isso como uma coisa que seus próprios pecados procuravam, e ainda (ou melhor, sempre) adicionava (...) "Senhor, tenha misericórdia de mim".

    [Este exercício parece ser a origem de uma história posterior que não foi confirmada de que Bradford, quando via criminosos sendo levados para a execução, dizia: "Ali segue, senão pela graça de Deus, John Bradford".!

    Ele costumava anotar no mesmo livro pensamentos maus que apareciam em sua mente; desde a inveja que sentia do bem que tinham outros homens, pensamentos de ingratidão, de não dar a Deus toda a glória pelas coisas que ele fazia à dureza e insensibilidade de coração quando via outros em dores e aflições. E assim, ele fez para si, e a seu respeito, um livro de práticas diárias de arrependimento (...)?

    De acordo com Sampson, o arrependimento foi o tema central de Bradford durante os seis anos de sua vida cristã. Ele o pregou e viveu (suas últimas palavras, segundo nos conta Sampson, como "chamas de fogo a brotar de seus olhos" foram "Arrepende-te, Inglaterra"3). Por seu envolvimento, como um dos membros da equipe do Sir John Harríngton, em um ato de fraude "para o detrimento do rei" nos dias que antecederam a sua conversão, Bradford insistiu na restituição: "Ele jamais poderia se calar até que, pelo conselho de Mestre Latimer [Hugh Latimer, que foi bispo de Worcester, cujo sermão sobre restituição foi o primeiro a mexer com a sua consciência] fosse feita uma restituição. Isso teria de acontecer" - embora a fraude tivesse sido cometida por Harrington, e não por ele, e foi Harrington, no final, que teve de pagar- "ele, de boa vontade, abriu mão e absteve-se de todo o patrimônio particular que tinha na terra." Assim, "sua vida foi uma prática e um exemplo, uma provocação ao arrependimento."

    Então, Bradford, em seu ministério, insistiu na necessidade do arrependimento não somente na pregação pública, mas também em assuntos particulares e com seus companheiros. Pois com quem quer que estivesse, ele livremente reprovaria qualquer pecado e má conduta que viesse de uma pessoa, principalmente dos blasfemadores, obscenos (...). E, em fazendo isto com muita graça e majestade cristã, ele sempre conseguia fechar a boca dos contraditores. Uma vez que falava com poder, mas com tamanha doçura, eles podiam enxergar o mal que praticavam como algo ruim e prejudicial para eles mesmos, e entender que ele fazia o bem ao lutar para conduzi-los a Deus.

    A descrição que Sampson faz de Bradford, escrita dezenove anos após o reformador ter sido queimado, é fascinante em muitos aspectos. Em primeiro lugar, ela narra o que parece ter sido a primeira aparição de um diário pessoal espiritual, que revela Bradford como o pioneiro de um tipo de escrita que, mais tarde, se tornou uma especialidade dos puritanos - ou seja, uma escrita que, com efeito, faz do diário um confessionário particular, cujo objetivo é fazer com que uma pessoa seja sincera consigo mesma e com Deus. (E difícil ser sincero quando os nossos próprios pecados e tolices estão em foco, como já observamos; fazer um diário, como fez Bradford, pode ser de grande ajuda aqui. Isto era um fato nos dias dele, e ainda o é nos nossos dias.) Em segundo lugar, há um grande fascínio pela luz que as palavras de Sampson lançam sobre o próprio Bradford, e seu senso vivido da santidade e graciosidade de Deus.

     J. I. Packer