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    O amor é o atributo mais importante de Deus? – John Frame




    As qualidades de Deus, que geralmente são chamadas de atributos, são idéias expressas por substantivos (como eternidade) ou adjetivos (como eterno) por meio dos quais descrevemos Deus. Na teologia tradicional, alguns desses atributos são: infinitude, eternidade, imutabilidade, onipotência, onisciência, onipresença, sabedoria, bondade, justiça, santidade, verdade e amor.

    Alguns teólogos têm tentado mostrar que um atributo de Deus (ou um conjunto de atributos) descreve de maneira única a sua essência, sendo portanto mais fundamental que os outros atributos. Em alguns casos, tentaram deduzir alguns ou todos os outros atributos a partir do atributo básico. Para Tomás de Aquino, o nome apropriado para Deus é Ser. Assim, ele deduz muitos, talvez todos, os atributos de Deus a partir da premissa de que a essência de Deus é idêntica a esse Ser (esse, "existência"). Herman Bavinck analisa outras tentativas dessa natureza na história da teologia: para Duns Scotus, por exemplo, o atributo fundamental de Deus é sua infinitude; para alguns teólogos reformados, é a asseidade [atributo divino fundamental de existir por si mesmo -N.T.]; para Cornelius Jansenius, a veracidade; para Saint-Cyran, a onipotência; para os socinianos, a vontade; para Hegel, a razão; para Jacobi, Lotze, Dorner e outros, a personalidade absoluta; para Ritschl, o amor. Podemos ainda observar, entre os teólogos posteriores a Bavinck, a ênfase de Barth sobre o "amor na liberdade", a "pessoa" de Buber e Brunner e a "futuridade" de Moltmann.

    A respeito dessa questão, os teólogos do teísmo aberto adotam a posição de Ritschl, considerando o amor como o atributo fundamental de Deus. Essa posição é, certamente, tentadora, por causa da afirmação "Deus é amor", encontrada em 1 João 4.8 e 16, e por causa da centralidade da ética bíblica desse amor que imita o amor de Deus (Êx 20.1-3; Dt 6.4-9; Jo 13.34,35; ICo 13; Fl 2.1-11; Uo 3.16; 4.10). Porém, será que "Deus é amor" descreve algo mais fundamental em Deus do que a afirmação "Deus é luz" (1Jo 1.5) ou "Deus é espírito" (Jo 4.24)? Ou será que ela descreve a natureza de Deus com mais perfeição do que a exposição do nome de Deus (em termos tanto de amor quanto de ira) em Êxodo 34.6,7? E o que podemos dizer com respeito a "o nome do SENHOR é Zeloso" em Êxodo 34.14 (cf. 20.5)? Ou, "o Santo de Israel" (SI 71.22; 78.41; 89.18; Is 1.4 e muitas outras vezes em Isaías; note a sua repetição tríplice em Is 6.3)? Ou onipotência, o atributo dado a Deus no nome patriarcal El Shaddai? E o que devemos pensar sobre Êxodo 33.19, em que Deus expõe o seu nome em termos da soberania de sua misericórdia ("terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer")? É mais fácil argumentar pela centralidade de um atributo sem fazer comparações específicas com outros atributos. Porém, centralidade e importância são termos comparativos. Para demonstrar a importância relativa de um atributo divino, precisamente tais comparações são requeridas.

    Oo título "Senhor" toma uma posição central. O nome mais fundamental de Deus nas Escrituras é, certamente, Senhor, e toda a revelação bíblica expõe esse fato. Deus executa seus atos majestosos para que as pessoas "saibam que eu sou o SENHOR" (ÊX 6.7; cf. 7.5,17; 8.22, e muitos outros versículos ao longo das Escrituras). Portanto, o seu senhorio é o atributo mais mencionado nas Escrituras, pelo uso constante da palavra hebraica yahweh e adon e do termo grego kyrios. Para propósitos pedagógicos e propósitos de edificação, é muito importante começar onde a Escritura começa e enfatizar o que a Escritura enfatiza, especialmente uma vez que o senhorio de Deus nos leva, com muita facilidade, à consideração de outros tópicos. No entanto, não quero afirmar que o senhorio é metafisicamente central à natureza de Deus de uma maneira que a santidade, o amor, a eternidade e a justiça não o são. Esses outros conceitos também podem ser centrais em contextos bíblicos específicos. Eles também podem denominar Deus e até mesmo descrevê-lo, como em 1 João 1.5 e 4.8.

    Em vez de tornar central qualquer atributo de Deus, a teologia clássica ensina que todos os atributos descritivos de Deus são modos de descrever a sua absoluta essência. Portanto, os atributos de Deus não são partes ou divisões encontradas na sua natureza, mas cada atributo é necessário ao seu ser.

    Cada um deles é essencial a Deus e, portanto, a sua essência inclui todos eles. Deus não pode ser Deus sem a sua bondade, a sua sabedoria, a sua eternidade ou o seu amor. Em outras palavras, ele é necessariamente bom, sábio, eterno e amoroso. Nenhum dos seus atributos pode ser tirado dele, e nenhum atributo " novo lhe pode ser acrescentado. Nenhum atributo pode existir sem os outros. Portanto, cada atributo tem atributos divinos; cada um é qualificado pelos Outros. A sabedoria de Deus é uma sabedoria eterna; a sua bondade é uma bondade sábia e uma bondade justa.

    Os teólogos erram ao pensar que a centralidade do seu atributo favorito exclui a centralidade de outros atributos. Esses escritores estão (como muitas vezes acontece com os teólogos) certos no que afirmam, mas errados nas coisas que negam. Ritschl está certo ao dizer que amor é a essência de Deus, mas errado ao dizer que santidade não o é. E esse tipo de erro geralmente vem ligado a outros erros teológicos. Na maioria das vezes, quando um teólogo centraliza o amor de Deus em contraste com outros atributos, a sua intenção é, contrariando as Escrituras, lançar dúvida sobre a realidade ou intensidade da ira e do julgamento de Deus. Esse foi o caso de Ritschl e é o caso de alguns evangélicos modernos.

    Não estou afirmando que todos os atributos de Deus são igualmente importantes para a nossa compreensão de Deus. Um escritor diz que Deus é um "tecelão" no Salmo 139.15. Bem, suponho que, com base nisso, teríamos que reconhecer a "capacidade de tecer" como um atributo divino. Mas esse atributo, com certeza, não seria tão importante quanto o amor ou a onipotência de Deus. Ele seria apenas uma perspectiva sobre todos os atributos de Deus, pois todo trabalho de Deus é o bordado de uma tapeçaria para expor a sua glória. Porém, essa não é a perspectiva mais importante de Deus que temos na Escritura.

    Portanto, deveríamos nos perguntar se a primazia do amor não poderia ser entendida num sentido mais brando, ou seja, que o amor não é metafisicamente primário, mas é fundamental para o nosso entendimento de Deus. Aqui, não estamos perguntando se somente o amor é a essência de Deus, mas se a Escritura enfatiza a qualidade do amor como mais proeminente que outras qualidades de Deus. No entanto, defender essa conclusão é muito difícil, em vista dos outros candidatos bíblicos ao papel central, atributos estes vistos anteriormente: luz, Espírito, ciúme, santidade, onipotência, misericórdia soberana, senhorio. Para estabelecer a conclusão do teísmo aberto, seria necessário mostrar não só que o amor é importante, não só que ele é a perspectiva central, como já vimos da discussão acima, mas que ele é, de algum modo, mais importante para a revelação bíblica do que cada um dos outros candidatos a essa posição. Pelo que eu sei, nenhum teólogo do teísmo aberto jamais ao menos começou essa árdua tarefa.

    Richard Rice resume muita evidência bíblica sobre a importância do amor divino (p. ex., 1Jo 4.8-10,15,16; SI 103.8; Is 54.8; Dt 7.8; Jr 31.3; Is 63.9; Rm 8.32; 5.8; Jo 3.16), citando Heschel, Barth, Brunner, Kasper e Pannenberg para apoiá-lo. Certamente esses textos mostram que o amor de Deus é importante. Porém, Rice quer ir mais além, e argumenta que o amor "é mais importante que todos os outros atributos de Deus", até mesmo "mais fundamental". Ele diz: "O amor é a essência da realidade divina, a fonte básica da qual se originam todos os atributos de Deus". Mas, ele, na verdade, nunca apresenta qualquer comparação entre o amor e outro atributo divino. Apenas mostrar a importância do amor nas Escrituras não justifica essa conclusão. É preciso também mostrar que outros atributos são menos importantes e menos centrais do que o amor. Porém, os argumentos de Rice nunca tocam em outro atributo divino, exceto o amor.

    Em particular, é difícil justificar pelas Escrituras que o amor de Deus é mais importante que o seu senhorio. Para dar apenas uma pequena ilustração da importância do termo, a NVI usa a palavra Senhor cerca de 7.484 vezes. "SENHOR" é a tradução do nome pactuai que Deus deu a Moisés em Êxodo 3.13-15. Deus regularmente executa atos poderosos para que as pessoas possam "saber que eu sou o SENHOR" (ÊX 6.7; 7.5,17; 8.22; 10.2; 14.4,18, e muitas vezes ao longo de todo o Antigo Testamento). A confissão cristã fundamental é "Jesus Cristo é Senhor" (Rm 10.9; ICo 12.3; Fl 2.1 l;cf. Jo 20.28; At 2.36). É óbvio que o senhorio de Deus nas Escrituras não está em oposição ao seu amor. Na verdade, o inclui, como também todos os outros atributos de Deus.

    Mesmo que os teólogos do teísmo aberto pudessem mostrar que o amor de Deus é o seu atributo mais importante, deveriam então fazer a pergunta seguinte: o que é o amor? Pois já vimos que cada atributo descritivo de Deus inclui todos os outros. O amor de Deus é um amor justo, um amor eterno, um amor soberano. Os teólogos do teísmo aberto mantêm, em parte, sua posição com respeito à primazia do amor porque querem negar a primazia de atributos como onipotência e imutabilidade, para não mencionar justiça e ira. Porém, se o amor inclui esses outros atributos, se o amor de Deus é onipotente e imutável, então os teólogos do teísmo aberto não ganham quase nada ao tornar o amor o atributo principal de Deus.