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    Filipe Melanchthon - Se Deus é Por nós...






    Artigo do Blog da Eduarda - http://www.ortopraxia.com/




    - "Se Deus é por nós, quem será contra nós?"-

    Após Martinho Lutero ter afixado na porta da igreja de Wittenberg as famosas teses contra a venda de indulgências, o movimento de reforma se espalhou pela Europa. Lutero contou com importantes colaboradores e amigos, entre eles Justo Jonas, Nicolaus von Amsdorf, Georg Spalatin e Filipe Melanchthon, considerado o intelectual mais destacado entre os primeiros seguidores de Lutero.

    Na Alemanha, 1997 foi declarado o ano de Melanchthon, por causa das celebrações do aniversário de nascimento do grande reformador e humanista Filipe Melanchthon. As celebrações ocorreram sob o patrocínio do governo federal alemão, e as festividades começaram com uma cerimônia realizada em 31 de outubro de 1996, na Igreja do Castelo, em Wittenberg.

    Um discreto reformador

    Melanchthon nasceu em Bretten, na Alemanha, em 14 de feve-reiro de 1497, e seus pais eram profundamente piedosos. Na adolescência, ele ganhou uma gramática grega e uma Bíblia, que seriam os livros que o guiariam por toda a vida. Formou-se bacharel em letras, na Universidade de Heidelberg, com 14 anos, e se tornou mestre em 1514, na Universidade de Tübingen, com 16 anos de idade. Nessa universidade, assistia a palestras de teólogos, médicos e juizes. Não havia conhecimento que ele não julgasse dever ter.

    Desde cedo, demonstrou sua perícia na língua grega e estabeleceu sua reputação como excelente gramático e, depois, como humanista bíblico. Aos 21 anos, Melanchthon tornou-se catedrático na Universidade de Wittenberg, em 1518, como professor de língua e literatura grega! A princípio, ele foi desprezado, pois o que viram foi um jovem que parecia mais moço do que era, de baixa estatura e tímido. Mas, após as primeiras aulas, Lutero escreveu a seu amigo Spalatin: "Imediatamente ficamos desenganados das idéias que havíamos formado dele pelo seu exterior; elogiamos e admiramos as suas palavras e damos graças ao príncipe e a vós pelo serviço que nos haveis feito. Não peço outro mestre de grego". Nessa mesma época, Melanchthon, aos 22 anos, publicou uma gramática de grego.

    Daí em diante, Lutero e Melanchthon estiveram juntos por quase trinta anos, em estreita cooperação e amizade. Como especialista em grego, Melanchthon dedicava-se ao estudo dos textos bíblicos escritos em suas línguas originais, e podia, assim, atrair a atenção de Lutero para certas passagens bíblicas que não tinham despertado o interesse de seu amigo. Ele enfatizava muito o conhecimento das línguas originais nas quais a Bíblia foi escrita. Em seu entendimento, o estudo dos "idiomas [bíblicos] são o fundamento imprescindível para a pureza dessa doutrina".

    Como disse Merle D'Aubigné, não se pode deixar de admirar a bondade e a sabedoria de Deus, ao ver dois homens tão diferentes se unirem e, contudo, tão necessários um ao outro. O que Lutero tinha de ardente, de veemente e forte, tinha Melanchthon de manso, de prudente, de afável. Lutero animava Melanchthon, e Melanchthon moderava Lutero.

    Em 1519, Melanchthon foi com Lutero para o debate de Leipzig. Nesse mesmo ano, em 25 de setembro, este casou-se com uma jovem muito piedosa, chamada Catarina, e em lugar nenhum se julgava mais feliz do que ao lado de sua mulher e filhos.

    Lutero escreveu uma infinidade de textos. Eram escritos importantes, porém todos eles foram ocasionais. Lutero não escreveu nem um livro de teologia sistemática. Entretanto, foi exatamente isso que Melanchthon fez. Por volta de 1521, ele escreveu sua famosa obra Loci Communes (Tópicos comuns da teo¬logia), o primeiro tratado teológico da Reforma, que obteve ampla circulação, devido a seu estilo claro e tom conciliador — duas características de Melanchthon que eram típicas de seus escritos e muito úteis nos contatos com os reformados e católicos. Essa obra é uma exposição sistemática da doutrina cristã. Rejeitando a autoridade da igreja católica, da lei canônica e dos escolásticos, e apelando para o testemunho dos escritos antigos e das confissões da igreja antiga, afirmava a autoridade final das Escrituras para todas as áreas da vida dos cristãos.

    Em Loci Communes, livro nascido dos estudos da epístola de Paulo aos Romanos — que chamou de "compêndio da doutrina cristã" -, Melanchthon procurou discutir os principais tópicos comuns da ciência teológica, de forma metódica, para encorajar o povo pelas Escrituras. Em seu entendimento, o homem era limitado pelo pecado e incapaz de ajudar a si mesmo. A lei em nada ajuda, porque sua função principal é revelar o pecado e miséria do homem. E Deus quem opera a obra de salvação, pela qual o indivíduo é justificado pela graça mediante a fé em Cristo. Dessa forma, ele fazia a distinção entre Lei e Evangelho, presentes tanto no Antigo como no Novo Testamento, tão importante para o correto entendimento das Escrituras. Em suas palavras, "o supremo dom de Deus é o Espírito Santo", o qual opera as boas obras nos corações dos cristãos. As doutrinas fundamentais da epístola aos Romanos e a doutrina trinitária do evangelho de João formam, para Melanchthon, um corpo integral da doutrina eclesiástica. Lutero aprovou esse livro como o melhor resumo de suas pregações.
    Melanchthon também foi um homem de intensa piedade, que pode ser vista numa de suas orações:

    Estou enfermo e com todo o corpo coberto de chagas. Aqui estou, deitado, e meu corpo desfalece consumido pela fome. Estou como Lázaro aquela vez, agachado à porta do rico. Sem nenhum tipo de ajuda, desprezado pelo nojo [que causava]. Mas, como aquele Lázaro, ainda que rejeitado por todos, sou acolhido providencialmente em teu colo. Liberta-me também da miséria, ó Graça minha, Pai Eterno, e protege-me à sombra de tua mão.

    Educador cristão

    Em Melanchthon vemos a união íntima dos ideais bíblicos da Reforma com o interesse humanista pelos clássicos, pois ele lançou os fundamentos da escola elementar popular. O que guiava sua perspectiva do ensino era que "alguns não ensinam absolutamente nada das Sagradas Escrituras; alguns não ensinam às crianças nada além das Sagradas Escrituras; ambos os quais não se deve tolerar".

    Um caso ocorrido na casa de Lutero ilustra esse entendimento. Durante um bate-papo que se seguiu a uma refeição, certo doutor, cujo nome não foi revelado, começou a manifestar desprezo pela matemática. Melanchthon rebateu a opinião, ressaltando a importância da matemática, por exemplo, no calendário, a fim de distinguir os dias, meses e anos. "Mas, Mestre Filipe", disse o tal doutor, "os colonos lá da minha paróquia não precisam de calendário. Eles sabem muito bem quando é verão ou inverno!". Melanchthon perdeu a paciência: "O amigo me desculpe, mas isso não é conversa de doutor. Digo até que é conversa de um burro grosseiro". E partiu para a briga, que só não se consumou porque os dois foram apartados e acalmados por um espantado Lutero!

    Em 1528, os Artigos de Visitação para as escolas foram promulgados como lei na Saxônia, e sua obra como educador público passou a ser uma dimensão adicional na vida de Melanchthon. Ele propôs a divisão dos estudantes em três classes, de acordo com as faixas etárias. Na primeira divisão, as crianças estudavam o alfabeto, o Pai-Nosso e o Credo dos Apóstolos. Na segunda divisão, os adolescentes estudavam o Decálogo, o Credo e o Pai-Nosso. Os salmos mais fáceis (34, 112, 125, 128, 133) deveriam ser decorados, assim como deveriam ser estudados o evangelho de Mateus, as epístolas a Timóteo, a primeira epístola de João e os Provérbios de Salomão. Tudo isso lado a lado com o estudo de física, lógica, gramática, moral e história.

    No último nível — o equivalente à faculdade —, os estudantes deveriam estudar latim, gramática, dialética, retórica, filosofia, matemática, física e ética. Aqueles que estavam sendo preparados para ensinar na igreja, além dessas matérias, deveriam aprender grego e hebraico, pois, para Melanchthon, esse conhecimento deveria servir ao estudo e à pregação do Evangelho. Ele entendia ainda que Cristo colocou toda a cultura sob seu controle, acreditando que esse entendimento impediria os cristãos de viverem vidas grosseiras, enquanto, ao mesmo tempo, os impediam de atribuir mais importância à cultura humana do que à fé cristã. O estudo das letras devia estar subordinado ao estudo das Escrituras, mas ele disse:

    Aplico-me a uma coisa, à defesa das letras. Convém que com o nosso exemplo se inflame a mocidade de admiração pelas letras, e que as ame por amor delas, e não pelo proveito que delas possa tirar. A ruína das letras traz consigo a desolação de tudo o que é bom: a religião, os costumes, coisas divinas e coisas humanas. [...] Quanto melhor é um homem tanto maior é o ardor que tem por salvar as letras; porquanto sabe que das pestes a mais perniciosa é a ignorância. [...] Uma escuridão terrível cairá em nossa sociedade, se o estudo das ciências for negligenciado.

    O ensino abrangente tinha por objetivo tornar os cristãos ativos no mundo, dissipando as trevas de uma fé corrompida e supersticiosa e da ignorância. Ele tem sido considerado o fundador do ensino controlado e sustentado pelo Estado, tendo tirado as escolas do controle privado. Pelo menos cinqüenta e seis cidades procuraram sua ajuda na reforma de suas escolas. Ele ajudou a reformar oito universidades e a fundar outras quatro. Escreveu numerosos livros didáticos para uso nas escolas e, mais tarde, foi chamado o Instrutor da Alemanha.

    Melanchthon também foi um professor muito popular. Dizem que ele reunia até 600 alunos em suas aulas, contra cerca de 400 que vinham aprender com Lutero, na Universidade de Wittenberg. A profundidade e a clareza de seu ensino eram as responsáveis por tamanha audiência. Segundo Ricardo Rieth Melanchthon também gostava de contar piadas e casos engraçados durante suas aulas. Certa vez, por exemplo, ele contou o caso de um homem muito falador, que se gabava a um grupo de pessoas das viagens que fizera por toda a Europa. Considerava-se um grande conhecedor, especialmente da Itália. Foi quando lhe perguntaram a respeito das belezas da cidade de Veneza. "Pois olha", respondeu, "para dizer a verdade, vi muito pouco de Veneza. Quando estive lá, o dia ainda não tinha amanhecido, e cruzei rapidamente a cidade a cavalo". Uma pessoa do grupo reagiu indignada: "Mas isso é impossível!" "Bem", disse o homem, "se bem lembro, era inverno. Foi isso! O problema foi a neblina".

    "Falarei dos teus testemunhos na presença dos reis, e não me envergonharei"
    Em 1530, Melanchthon escreveu a Confissão de Augsburgo. Essa confissão nasceu pela convocação, por parte do imperador Carlos V, de uma dieta — que era a assembléia dos representantes do clero, da nobreza e das cidades que ajudavam o imperador no governo da Alemanha — que se reuniria em Augsburgo. Sendo católico, o objetivo do imperador era tornar o império novamente leal a Roma. Ao exigir união religiosa para combater os turcos que tentavam invadir a Alemanha, ele requisitou uma declaração de fé dos príncipes luteranos.

    Por estar legalmente impedido de sair da Saxônia, pelo Decreto de Worms, de 1521, Lutero não poderia comparecer à dieta. João, o Constante, príncipe eleitor da Saxônia — onde Lutero residia e que tinha na cidade de Wittenberg sua capital — pediu ajuda a Melanchthon. Em maio de 1530, o texto foi enviado a Lutero, que disse:

    Eu li a Apologia de Melanchthon, a qual me satisfaz e eu nada sei como melhorá-la ou modificá-la, o que não conviria, já que eu não consigo manifestar-me de modo tão manso e suave. Cristo, nosso Senhor, ajude que ela traga grandes frutos, como nós esperamos e pedimos.

    A doutrina da confissão é claramente a do próprio reformador.

    Em 15 de junho de 1530, o imperador Carlos V entrou em Augsburgo, e queria que o documento fosse simplesmente entregue, porém os príncipes — que já se tinham negado a participar da procissão de Corpus Christi — conseguiram que ela fosse lida perante toda a dieta. Essa leitura ocorreu no dia 25 de junho de 1530, às 15 horas. O texto foi lido em latim e em alemão pelo chanceler Christian Beyer, da Saxônia Eleitoral. A Confissão de Augsburgo foi assinada por sete príncipes e pelos representantes de duas cidades independentes. Eles criam que a doutrina ensinada nela era bíblica e verdadeira, e declarava aquilo que estava sendo ensinado nas igrejas daquelas regiões da Alemanha.

    O imperador não aceitou o documento, mas ele veio a ser a base para as igrejas luteranas na Alemanha. Segundo Klaus Engelhardt, as confissões são imprescindíveis para nossa igreja porque continuamos dependendo de convicções básicas em questões de fé pelas quais responde-mos em conjunto. A fé cristã não pode abrir mão de prestar contas da fé de maneira refletida. Isso exige o esforço do raciocínio e da reflexão. As confissões preservam a igreja da irrelevância ou insignificância intelectual. O dano interior da igreja na Alemanha não consiste primordialmente em que tivéssemos cristianismo intelectual em demasia. O que ocorre é o contrário. Tornamo-nos, em grande parte, uma igreja insignificante. Sem um conhecimento teológico elementar, as pessoas se alheiam do cristianismo.

    A inteligência a serviço de Cristo

    O testemunho de Lutero e o ensino de Melanchthon foram considerados complementares. Nas palavras de Lutero: "Meu espírito é tosco, barulhento e tempestuoso. Sou o rude derrubador de mato, que precisa abrir picada. O mestre Filipe, no entanto, passa por ali de maneira refinada e calma, semeia e irriga com prazer".

    Melanchthon sempre se disse agradecido a Lutero, porque, como afirmava, "dele tinha aprendido o evangelho". Ele assimilou rapidamente os principais temas da pregação de Lutero, também par¬ticipando, com ele, da tradução da Bíblia para o alemão.

    Durante a cerimônia fúnebre de Lutero, em 22 de fevereiro de 1546, e num discurso acadêmico, em 11 de novembro de 1548, Melanchthon falou do significado do amigo. Disse ter sido Lutero um elo na corrente de testemunhas da verdade, por meio do qual "Deus chamou sua igreja de volta às fontes cristãs".

    Após a morte de Lutero, porém, as interpretações de suas idéias por Melanchthon foram contestadas. Seus últimos anos foram gastos em controvérsias, e muitos luteranos o consideravam com suspeita — apesar de ele ficar tremendamente irritado quando se colocava em dúvida a ortodoxia de seu ensino.

    A mente brilhante, o amor ao humanismo cristão, a clareza de expressão e o comportamento manso fizeram de Melanchthon um cooperador ideal de Lutero, mas também precipitaram boa parte da controvérsia que ele enfrentou em seus últimos anos de vida. Apesar disso, as contribuições que fez ao movimento evangélico são monumentais.

    Melanchthon morreu em 1560, em Wittenberg. Escreveu, entre outros, gramáticas e livros didáticos, manuais de lógica, comentários bíblicos — os principais são das epístolas de Romanos e Colossenses — e edições de textos bíblicos, manuais de ética, política e direito, obras de doutrina cristã, discursos acadêmicos, cartas e poesia. Sua inconformidade com as divisões da igreja, sua abertura para o diálogo — o lema de Melanchthon era: nascido para o diálogo —, sua capacidade de firmar acordos sem abrir mão do que era central à fé evangélica devem servir-nos de estímulo hoje. Certa vez pediram-lhe que explicasse João 15.5, e ele respondeu:

    Essa passagem significa que é preciso que nós sejamos absorvidos por Cristo, de sorte que nós não obremos mais, mas que Cristo viva em nós. Como a natureza divina foi incorporada ao homem Jesus Cristo, assim convém que o homem seja incorporado a Jesus Cristo pela fé.

    Esse é o testemunho de sua vida.

    Franklin Ferreira