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    Confusão Espiritual - Afeições Santas - Jonathan Edwards



    Há dois mil e trezentos anos o autor de Eclesiastes escreveu: "Nada há, pois, novo debaixo do sol. Há alguma cousa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Não! Já foi nos séculos que foram antes de nós" (Ec 1.9-10).

    A confusão espiritual não é algo novo. Desde os tempos bíblicos até hoje as pessoas estiveram confusas quanto ao que é religião verdadeira. Os cristãos do tempo colonial na América não foram diferentes. Eles tinham dificuldade para decidir qual entre tantos tipos de espiritualidade estava mais perto do cristianismo verdadeiro. Em termos gerais, havia duas opiniões majoritárias. Uma proclamava que a emoção religiosa é a essência da verdadeira espiritualidade. Seus proponentes diziam que não é tão importante em que você crê ou o que faz, desde que sinta o amor de Deus por sua alma. A maioria dessas pessoas apoiou o Grande Avivamento, um despertar poderoso que varreu a costa leste na década de 1740.

    Esse lado tem sua contrapartida no evangelicalismo de hoje. Os carismáticos tendem a enfatizar a experiência à custa da doutrina. Acham que nossa crença não tem tanto peso, desde que tenhamos a experiência emocional do “batismo do Espírito Santo” com suas manifestações... Alguns fundamentalistas (com certeza não todos) parecem crer que os cristãos precisam deixar seu intelecto de fora para poder crer. Tais pessoas desencorajam que se adore a Deus com a mente ou que se use a mente para tentar compreender o que aconteceu na experiência espiritual. Naturalmente não são só os cristãos conservadores que enfatizam demais as emoções na espiritualidade. Um ramo grande e significativo da tradição cristã liberal, que vem da influência do teólogo alemão Friedrich Schleiermacher (1768-1834), põe doutrina e teologia de lado, pois são bem menos importantes (para alguns, nada importantes) do que o "sentimento de dependência absoluta".

    O outro lado no Grande Avivamento ensinava que o cerne da religião verdadeira é pensar corretamente. Os defensores desse ponto de vista afirmavam que as emoções são bem menos importantes que a doutrina e a atitude mental. Porque, enquanto as convicções certas conservam a alma ancorada num fundamento de verdade, as emoções são instáveis e muitas vezes levam os desavisados a perseguir o vento. Como muitos que foram alcançados pelo Grande Avivamento tinham experiências emocionais, esse grupo concluiu que o despertamento não podia vir de Deus.

    A contrapartida moderna para tal opinião abrange diversas igrejas fundamentalistas e evangélicas cujos cultos dominicais (e, de resto, toda a sua programação religiosa) giram em torno da exposição cuidadosa da Escritura. Em algumas dessas igrejas, a espiritualidade é intelectualizada, sem emoção nem entusiasmo genuíno. "Culto" é cantar hinos arrastados e sem paixão. As pessoas estão "salvas" se concordam mentalmente com a doutrina de que Jesus morreu por seus pecados. A expressão de emoções no culto é vista com desconfian¬ça. Algumas igrejas grandes também têm afinidades com essa tendên¬cia. Em diversas dessas igrejas considera-se que a verdadeira religião é a simples adoção da tradição, não importa por que motivo ("Creio que minha igreja está mais próxima da verdade", ou "Estou nessa denominação porque é a que conheço e onde me sinto bem"). Às vezes segue-se a tradição só nominalmente, sem entender de coração as verdades para as quais ela aponta. Ou a religião torna-se meramente a declaração de que Jesus é o melhor modelo de vida que a cultura ocidental produziu. Em algumas dessas igrejas há pouca paixão por Jesus; poucos são movidos por um amor de todo o coração a Deus. Considera-se importante não a vida cristã calorosa, mas a crença em doutrinas, na denominação ou no programa social.

    Jonathan Edwards, que defendeu e também criticou o avivamento, afirmava que os dois lados tinham uma definição superficial do que seja espiritualidade. Ele declarou que é uma ilusão achar que a religião verdadeira está fundamentada ou em emoções ou em convicções. Nem a mente nem o coração são mais importantes um que o outro; ambos são essenciais à verdadeira espiritualidade. O ser humano é uma unidade, e por isso a espiritualidade envolve todas as dimensões do ser — emoções, pensamentos e ações. Opor pensamentos e sentimentos, ou mente e coração, significa dividir uma pessoa em compartimentos desconexos — o que não encontra base nem na psicologia humana nem na experiência.

    Em vez disso, Edwards insistia que a experiência religiosa fundamenta-se no que ele chamava de "afeições". Estas residem num nível mais profundo da pessoa humana do que pensamentos ou emoções, e na verdade são a fonte e o poder motivador destes. No fundo elas estão na origem de toda experiência espiritual, tanto da verdadeira como da falsa. Afeições santas são a fonte da espiritualidade verdadeira, e outros tipos de afeições são a fonte das espiritualidades falsas.

    O QUE SÁO AS AFEIÇÕES?

    O dicionário Webster define affection como "atração carinhosa, devoção, amor" e affections como "emoções, sentimentos, ternura, esfera emocional do amor". Edwards tinha em mente algo mais forte que a primeira definição e mais abrangente que a segunda. Para ele as afeições são as motivações mais fortes do ser humano, que no fundo determinam tudo o que a pessoa é e faz. "Atração carinhosa" é muito fraco e limitado para descrever estas fontes poderosas do comporta¬mento humano. A segunda definição restringe as afeições aos sentimentos do amor, porém, como já dissemos, as afeições de Edwards não geram só as emoções mas também pensamentos e ações. Eu defino as "afeições" conforme Edwards as descreveu como inclinações fortes da alma que se manifestam em pensamentos, sentimentos e ações. Uso o termo "alma" para designar a parte mais profunda e essencial da pessoa humana — o que a Bíblia chama de "coração". Por "inclinação" entendo a atração para um objeto ou o desprazer que nos afasta do objeto. Podemos chamá-lo de gostar ou não gostar, aprovar ou rejeitar. Por exemplo, eu sinto uma atração forte pelo mar. Adoro sentir o aroma do ar salgado, olhar a maré subir e descer, deslizar de prancha pelas ondas e andar pela praia de manhã bem cedo. A inclinação forte da minha alma me atrai para o mar — para pensar nele, ir à praia e alegrar-me nele quando estou lá. Essa inclinação forte da minha alma é uma afeição.

    Por outro lado, detesto galerias de lojas. Às vezes penso que o inferno é um imenso shopping center sem saída. Andar pelos corredores sempre me causa dor de cabeça e me deixa exausto. Faço o possível para ficar longe dos shoppings. Quando sou obrigado a ir a algum, vou rangendo os dentes e aproveito a primeira oportunidade para fugir. A inclinação da minha alma que me faz evitar as lojas e desperta pensamentos e sensações desagradáveis quando tenho de ir às compras é o que eu chamo de afeição.

    Portanto, há dois tipos de afeições — aquelas que atraem a alma para um objeto e as que levam a alma a resistir a um objeto e evitá-lo. Afeições do primeiro tipo são amor, simpatia, alegria e gratidão (entre outras); as do segundo tipo são ódio, medo, raiva e tristeza (entre outras).

    As afeições podem ser boas ou más. No campo da religião, há afeições que nos levam para Deus e outras que nos afastam de Deus. As primeiras são chamadas de afeições santas, as outras de afeições profanas. Veja as tabelas no fim do capítulo para exemplos tanto de afeições santas como de profanas.

    Nem todas as inclinações são afeições. As inclinações que não passam de preferências leves, que mal movem a alma do ponto de indiferença, não são afeições. As afeições são inclinações fortes e vigorosas da alma. Por serem fortes, elas não só afetam os pensamentos da pessoa mas também suas emoções e ações.

    Como muitas vezes as afeições são confundidas com emoções, e às vezes com leves preferências, será útil estudarmos as distinções com um pouco mais de profundidade.

    As afeições não são simplesmente emoções. As afeições muitas vezes envolvem emoções (sentimentos), mas elas não podem ser definidas por sensações emocionais. Algumas emoções estão dissociadas das nossas inclinações mais fortes. Por exemplo, uma jovem que sai de casa para ingressar na universidade pode sentir-se insegura e temerosa. Provavelmente ela sentirá falta das suas amigas e da sua família em casa. Uma parte dela talvez até tente convencê-la a voltar para casa. Ela, porém, irá descartar essas emoções agitadas por serem nada mais que isso — sensações que não foram geradas por sua convicção básica de que está na hora de começar um novo capítulo em sua vida. As afeições podem ser comparadas à convicção básica da moça de que deve ir à universidade, apesar das emoções momentâ¬neas que querem mantê-la em casa. As afeições são inclinações fortes que às vezes podem estar em conflito com emoções mais momentâneas e superficiais.

    Se as afeições não podem ser equiparadas às emoções porque estas são pouco profundas, será que podem ser identificadas com as emoções violentas que chamamos de "paixões"? Não se as paixões são emoções repentinas e violentas que atropelam a mente. Este tipo de paixão temporária, repentina e forte, mas em guerra com a mente, não é o que entendemos por afeição. A afeição é mais permanente e, compatível com as convicções básicas da pessoa.

    As afeições não são simplesmente preferências da mente. As preferências da mente podem redundar em ações ou não. Eu posso preferir que as pastas no meu arquivo estejam mais bem organizadas do que estão, mas não tenho esse sentimento com força suficiente para investir o tempo necessário para arrumá-las. Por outro lado, meu filho mais velho prefere escalar penhascos e montanhas a qualquer outra atividade, só que sua preferência está arraigada tão firmemente que redunda em ação.

    As afeições, portanto, são suficientemente fortes para levar à ação. As afeições envolvem a cooperação coordenada de mente, vontade e emoções. Por serem as inclinações mais fortes da alma humana, as afeições se manifestam em todas as partes da pessoa: pensamentos, sentimentos e conduta.