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    A Vontade de Deus é Irresistível?




    Outra objeção dos teólogos do teísmo aberto à doutrina da preordenação exaustiva divina é que Deus, na Bíblia, nem sempre consegue tudo o que quer. Às vezes, as criaturas "frustram" a vontade de Deus. Portanto, Deus precisa se arriscar.

    Nicole mostra que, para os defensores do teísmo aberto, esses riscos são realmente grandes. Para eles, a frustração de Deus não é ocasional, mas freqüente. Ele assumiu um risco muito grande ao criar anjos livres e, junto com muitos anjos caídos, Satanás desertou, criando o "enorme problema do mal". Deus esperava que Adão e Eva permanecessem justos, mas eles não o fizeram. Num determinado momento, o mal se tornou tão desenfreado aponto de Deus se arrepender de ter feito a humanidade, tendo, então, provocado uma "quase completa aniquilação da humanidade". Deus se arriscou, salvando Noé e sua família, mas isso também não deu certo. Essas apostas se mostraram tão ruins que somente a morte do seu próprio Filho poderia salvar a situação. Porém, mesmo isso se tornou insuficiente, visto que muitas pessoas se recusam a crer e têm sofrido conseqüências devastadoras.

    Sanders admite que, num nível bastante amplo, a vontade de Deus sempre é realizada. Em resposta a passagens como Salmo 135.6 e Daniel 4.35, ele diz:

    Em termos de limites, estruturas e objetivos do projeto soberanamente estabelecido por Deus, não há dúvida alguma de que Deus consegue o que ele quer. Deus pode criar o mundo, prover para ele e conceder-lhe seu amor, sem que ninguém ou alguma coisa possa frustrar os seus desejos principais. Se Deus decide criar um mundo com pessoas que possam corresponder ao amor divino, e se Deus estabelece uma relação recíproca genuína com eles, então é próprio dizer que nada pode frustrar as intenções de Deus.

    Em níveis mais específicos, porém, Sanders acredita que a vontade de Deus pode ser frustrada:

    Se Deus não força as criaturas a corresponder ao seu amor, é introduzida a possibilidade de que pelo menos algumas delas deixarão de entrar no amor divino e, portanto, alguns dos desejos específicos de Deus podem ser frustrados. Se Deus quer um mundo em que exista a possibilidade de não conseguir tudo o que deseja, aí, em um sentido último, a vontade divina não é frustrada. É importante saber que, se em certos casos Deus não obtém o que deseja, é, no final das contas, por causa da decisão que Deus tomou de criar um tipo de mundo no qual ele não obtém tudo o que quer.

    Sanders está em solo tradicional no que diz respeito a distinguir níveis diferentes de vontades, desejos e quereres divinos. Até mesmo os teólogos calvinistas admitem haver algumas situações que Deus verdadeiramente valoriza (e, portanto, quer ou deseja), mas que não faz com que aconteçam. Por exemplo, é claro que Deus deseja, em algum sentido, que todos os seres humanos o adorem, que todos obedeçam a seus pais, que não cometam assassinatos, nem adultério, etc. Porém, esse desejo divino não é satisfeito.

    Podemos entender esses níveis de desejos por nossa própria experiência. Temos muitos tipos diferentes de desejos e prazeres, e os organizamos de acordo com as nossas prioridades. Desejamos algumas coisas mais que outras. Algumas não podemos alcançar e, assim sendo, nos concentramos em outras. Adiamos a realização de alguns desejos até que outros se concretizem. Por vezes, alguns devem ser realizados antes de outros. Alguns não são compatíveis com outros, o que nos obriga a escolher entre eles. Por essas razões, alguns dos nossos desejos não são executados, seja temporária ou permanentemente.

    Muitas vezes, a nossa priorização de desejos é devida às nossas fraquezas, mas, às vezes, não. Alguém pode desejar uma casquinha de sorvete e ter acesso fácil a ela, mas, voluntariamente, pode adiar a realização desse desejo até que parte de um trabalho seja concluída. Ele pode valorizar mais o término do trabalho do que o saborear de uma casquinha de sorvete, ou talvez não. Pode ser que ele valorize mais a casquinha de sorvete, mas crê que pode ter mais prazer nela depois de terminada a tarefa. Assim, o nosso método para tomar decisões é, freqüentemente, complicado. Os inter-relacionamentos entre nossos muitos desejos e entre as várias maneiras para alcançá-los são complexos.

    Vemos aqui algo análogo às complexidades da vontade de Deus. Deus também tem muitos desejos, valorizados e priorizados de diversas maneiras. Alguns ele realiza imediatamente. Porém, já que criou um mundo no tempo e deu a este mundo uma história e um objetivo, alguns dos seus desejos, em virtude do seu próprio plano eterno, devem aguardar a passagem do tempo. Além disso, há algumas coisas boas que, em decorrência da natureza do plano de Deus, nunca se realizarão. O plano de Deus é internamente consistente, respeitando a integridade das criaturas. Se Deus ordenou que Joe tivesse exatamente três filhos, isso exclui a possibilidade de ele vir a ter cinco, mesmo que duas crianças a mais poderiam ser (no abstrato) uma ótima coisa. E as amplas intenções de Deus para a História evidentemente excluem a bênção de um mundo em que não exista um histórico de maldade.

    Assim sendo, os teólogos fizeram várias distinções dentro do conceito mais amplo da vontade de Deus. A vontade de Deus é, certamente, uma só. Mas também é complexa. Portanto, alguns têm distinguido aspectos diferentes dela como "vontades", no plural. Precisamos ser cuidadosos com essa linguagem, mas ela torna as coisas mais fáceis para nós para que consideremos as complicações do nosso tópico.

    Vontades antecedente e conseqüente

    Alguns teólogos fazem distinção entre as vontades antecedente e conseqüente de Deus. Podemos chamar de sua vontade antecedente a avaliação geral de Deus de que algumas coisas são boas. As suas escolhas específicas entre essas coisas boas (tendo em vista a natureza geral do mundo que ele planeja fazer) podem ser chamadas de sua vontade conseqüente. Os teólogos católico-romanos, os luteranos e os arminianos têm usado a distinção antecedente-conseqüente para criar espaço para a liberdade indeterminista. Segundo o ponto de vista deles, a vontade antecedente de Deus inclui a salvação de todos os homens. Sua vontade conseqüente, no entanto, espera as decisões (indeterministas) livres dos seres humanos. Deus abençoa aqueles que escolhem crer; os que não crêem, ele condena à punição eterna. Essas bênçãos e maldições vêm de sua vontade conseqüente, a qual é reação às escolhas humanas.

    No meu ponto de vista, esses teólogos estão certos ao dizer que Deus quer antecedentemente que todos sejam salvos. A salvação universal é certamente uma situação desejável. Eles também estão certos em afirmar que, tendo em vista a situação histórica atual, Deus não concretiza esse resultado. Não há mal algum em chamar essa segunda vontade de "conseqüente". Em seu plano eterno, Deus determinou não alcançar certas coisas boas. Contudo, eu rejeito a teoria da liberdade indeterminista que é freqüentemente associada a essa distinção. Como já vimos, a escolha de Deus vem em primeiro lugar. As escolhas humanas são efeitos e reações à escolha divina.

    Vontades decretatória e normativa

    Os teólogos reformados muitas vezes têm rejeitado a distinção antecedente-conseqüente por causa da sua associação com a liberdade indeterminista. Porém, eles têm adotado uma distinção um tanto semelhante entre as vontades decretatória e normativa de Deus. A vontade decretatória de Deus (ou simplesmente o seu "decreto") é sinônimo de preordenação, a qual discutimos no capítulo 5. É seu propósito eterno, pelo qual ele preordena tudo o que acontece. A vontade normativa de Deus é sua avaliação das coisas, particularmente revelada a nós na sua Palavra (seus "preceitos"). Nada pode se opor eficazmente à vontade decretatória de Deus. O que Deus decretou certamente acontecerá. No entanto, é possível para as criaturas desobedecer à vontade normativa de Deus - e elas muitas vezes o fazem.

    Essa distinção é um tanto semelhante à distinção antecedente-conseqüente, embora as duas distinções tendam a aparecer em tradições teológicas diferentes. A vontade normativa de Deus, assim como a sua vontade antecedente, consiste na sua avaliação de toda situação possível e real das coisas. Sua vontade decretatória, como a sua vontade conseqüente, determina o que realmente vai acontecer. A diferença entre decretatória e conseqüente é que o conceito da vontade decretatória exclui o indeterminismo. As decisões de Deus sobre o que realmente acontecerá não se baseiam no seu pré-conhecimento das livres escolhas indeterministas do ser humano.

    No entanto, mesmo do ponto de vista reformado, as escolhas soberanas de Deus levam em conta a natureza do mundo que ele escolheu criar. Como com os filhos de Joe, Deus não fará com que um acontecimento ocorra de modo inconsistente com outro acontecimento que ordenou. Assim, Deus respeita a integridade de cada acontecimento, cada pessoa e cada coisa no seu plano eterno. Portanto, cada parte do seu plano exclui dela outras situações possíveis, mesmo que algumas delas sejam boas em si mesmas. Desse modo, Deus avalia genuinamente muitos acontecimentos não compatíveis com a história específica que ele escolheu contar na História. Em certo sentido, portanto, o plano de Deus é limitado pela natureza das criaturas incluídas no plano. Porém, isso é o mesmo que dizer que o plano de Deus é limitado por sua própria consistência e integridade.

    Embora eu vá argumentar, mais adiante, que os pensamentos de Deus são, em última instância, eternos, em vez de ocorrerem numa continuidade temporal, é de grande ajuda descrever o pensamento de Deus como se ocorresse em dois estágios. Primeiro, Deus avalia cada situação possível (antecedente, normativa). Em segundo lugar, ele escolhe entre essas avaliações (decretatória, conseqüente), rejeitando algumas e aceitando outras por causa de seu plano histórico.

    As Escrituras autorizam essa distinção? Aqui estão algumas passagens que usam as palavras pensamento, intento, agrado, desígnio, propósito, conselho e vontade para se referir à vontade decretatória de Deus:

    Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida. (Gn 50.20)
    Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. (Mt 11.25,26)

    Sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos. (At 2.23)

    Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz. Tu, porém, me dirás: De que se queixa ele ainda? Pois quem jamais resistiu à sua vontade? (Rm 9.18,19)

    Nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade. (Ef 1.11)

    (Compare com SI. 51.18; 115.3; Is 46.10; Jr 49.20; 50.45; Dn 4.17; Tg 1.18; Ap 4.11.) Eu diria ainda que os "caminhos" de Deus, em Romanos 11.33, também deveriam ser tomados no sentido decretatorio, mesmo que em outras partes o termo seja quase sempre normativo.

    Temos aqui algumas passagens em que esses termos são usados no sentido normativo:

    Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. (Mt 7.21)

    Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor. (Ef 5.17; cf. 6.6)6

    (Compare com SI 5.4; 103.21; Mt 12.50; Jo 4.34; 7.17; Rm 12.2; lTs 4.3; 5.18; Hb 13.21;lPe 4.2.) Essas passagens se referem literalmente aos preceitos de Deus.

    As passagens que se seguem referem-se, não aos preceitos em si, mas a acontecimentos desejáveis que Deus não ordena acontecimentos que incluo na categoria geral da vontade normativa de Deus:

    Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? - diz o SENHOR Deus; não desejo eu, antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva? (Ez 18.23)

    Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento. (2Pe 3.9)

    Há ainda outras passagens em que Deus expressa um desejo pelo arrependimento de seres humanos, que pode vir a acontecer ou não (Is 30.18; 65.2; Lm3.31-36;Ez33.11;Os 11.7,8).

    A distinção de Sanders

    A perspectiva de Sanders é semelhante à distinção tradicional entre antecedente e conseqüente, na qual a vontade de Deus é limitada pela livre escolha humana. Mas Sanders vai além disso. Lembremo-nos, Sanders nega que as condições climáticas venham de Deus. Portanto, para Sanders, é evidente que não é somente a liberdade humana indeterminista que limita o controle de Deus sobre o mundo. Ele ainda acredita que o mundo natural, por si mesmo, tem certa autonomia, fazendo com que acontecimentos na natureza, assim como as escolhas humanas, possam pegar Deus de surpresa.

    Sanders está correto ao dizer que, num certo sentido, a vontade de Deus não pode ser frustrada, mas, em outro sentido, pode. Também concordo com ele que a frustração da vontade de Deus aparece em casos mais ou menos específicos, e não no grande delineamento dos seus planos. Ainda concordo com ele que Deus permite que a sua vontade seja frustrada por causa da natu¬reza das criaturas que criou, e também por causa da integridade delas e da integridade do seu plano.

    Integridade, porém, é uma coisa e autonomia é outra. Se Deus, provoca todos os acontecimentos, não há espaço para autonomia, quer seja na natureza quer nos seres humanos. Deus planejou e preordenou tudo o que acontece, portanto nada o toma de surpresa.

    Demonstrarei em outro artigo por que acredito que a liberdade indeterminista não é bíblica. Com respeito à autonomia do mundo natural, as Escrituras nunca falam sobre essa autonomia. A visão de mundo dos escritores bíblicos é profundamente personalista. Para eles, os acontecimentos da natureza são obra de Deus.

    Sanders e outros defensores do teísmo aberto acreditam, evidentemente, que, já que a vontade de Deus é algumas vezes frustrada, de acordo com as Escrituras, o mundo natural deve ser até certo ponto autônomo e os seres humanos devem ser livres num sentido indeterminista. Porém, essa conclusão não procede. Há uma explicação perfeitamente adequada para o fato de a vontade de Deus nem sempre se cumprir, e ela não tem nada a ver com teorias de autonomia ou indeterminismo. A explicação é simplesmente esta: a vontade de Deus é algumas vezes frustrada porque ele decidiu assim, pois deu a alguns de seus desejos prioridade sobre outros.

    A eficácia da vontade de Deus

    Entretanto, a pergunta realmente crucial em relação ao teísmo aberto não é se o desejo de Deus se cumpre sempre, em todo sentido do desejo divino. Antes, a pergunta é se Deus pode falhar em alguma coisa que ele pretendia fazer. Em outras palavras, as criaturas podem frustrar a vontade decretatória de Deus? Quanto a isso, a Escritura é totalmente clara e unânime. Em termos simples, o poder de Deus sempre executa os seus propósitos. Deus não pretende fazer acontecer tudo o que ele valoriza, mas nunca falha no que pretende fazer. É verdade que as criaturas podem se opor a ele, mas elas não prevalecerão.

    Devemos lembrar que Deus decreta não somente o fim da História, mas também os acontecimentos em cada momento da História. Pelos seus próprios motivos, ele escolheu retardar o cumprimento de suas intenções para o fim do mundo e decidiu cumprir essas intenções mediante uma seqüência de acontecimentos históricos complicados. Nessa seqüência, os seus propósitos aparentam, por vezes, sofrer derrota e, em outras vezes, atingir os seus objetivos. Contudo, cada derrota aparente, na verdade, torna a sua vitória final mais gloriosa. A cruz de Jesus é claramente o exemplo maior desse princípio. Portanto, Deus planeja não somente o seu triunfo final, como também a sua aparente derrota na História. Ele planejou que a História fosse exatamente como ela é. Sendo assim, todos os seus decretos, tanto na História como na consumação da História, hão de ocorrer.

    Assim sendo, repetidamente a Escritura afirma que os propósitos de Deus prevalecerão. E eles prevalecem não somente no final da História e também não somente no seu esquema mais extenso, como também prevalecem ao longo da História em todas as situações específicas. Eles prevalecem em tudo o que acontece. Nada é muito difícil para Deus (Jr 32.27); nada parece ser maravilhoso demais para ele (Zc 8.6); para ele nada é impossível (Gn 18.14; Mt 19.26; Lc 1.37). Portanto, os seus desígnios sempre prevalecerão. Contra a Assíria, ele diz:

    Como pensei, assim sucederá, e,
    como determinei, assim se efetuará.
    Quebrantarei a Assíria...
    Este é o desígnio que se formou concernente a toda a terra;
    e esta é a mão que está estendida sobre todas as nações.
    Porque o SENHOR dos Exércitos o determinou;
    quem, pois, o invalidará?
    A sua mão está estendida; quem, pois, a fará voltar atrás?
    (Is 14.24-27; cf. Jó 42.2; Jr 23.20)

    Quando Deus expressa o seu desejo eterno por meio de palavras, ditas pelos seus profetas, essas profecias ocorrerão sem falta (Dt 18.21,22; Is 31.2).7 Deus, de vez em quando, coloca sua palavra como seu agente ativo, que inevitavelmente cumprirá sua determinação:

    [Como a chuva molha a terra] assim será a palavra que sair da minha boca:
    não voltará para mim vazia,
    mas fará o que me apraz e
    prosperará naquilo para que a designei.
    (Is 55.11; cf. Zc 1.6)
    Assim, o mestre sábio nos ensina:
    Não há sabedoria, nem inteligência, nem mesmo conselho contra o SENHOR. (Pv 21.30; cf. 16.9; 19.21)

    As Escrituras falam muitas vezes dos propósitos de Deus em termos de "o que o agrada" ou "sua boa vontade". A vontade de Deus certamente se realizará:

    Digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade. (Is 46.10)

    Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada;
    e, segundo a sua vontade,
    ele opera com o exército do céu e os moradores da terra;
    não há quem lhe possa deter a mão,
    nem lhe dizer: Que fazes? (Dn 4.35)

    Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. (Mt 11.25,26)
    Em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade. (Ef 1.4,5; cf. v. 9)

    Para ilustrar a eficácia do propósito de Deus na nossa vida, as Escrituras usam a imagem do oleiro e do barro (Is 29.16; 45.9; 64.8; Jr 18.1-10; Rm 9.19-24). Deus lida com as pessoas com a mesma facilidade com que o oleiro molda o barro, fazendo um vaso para um propósito e outro vaso para outro propósito. Seu propósito prevalecerá e o barro não tem direito algum de reclamar do oleiro quanto a isso. Sanders concorda que, nessas passagens, o barro não tem direito algum de reclamar do oleiro, mas ele acredita que o oleiro rejeita algumas peças de barro não por causa do seu propósito soberano, mas porque "essa peça de barro rejeitou o projeto divino". Então, ele diz que "a metáfora do oleiro com o barro deve ser compreendida com base no relacionamento de reciprocidade que Deus estabeleceu de modo soberano. Isso não deve ser compreendido como um ensinamento do controle divino sobre todas as coisas".8 Contudo, o poder total do oleiro sobre o barro está implícito na própria metáfora e explícito em Romanos 9.19-21, em que há a iniciativa do oleiro "para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra". Em Romanos 9, é muito claro, tanto no nível de metáfora, quanto no nível da História o relacionamento entre judeus e cristãos -, que o próprio Deus é a última fonte da distinção.

    A eficácia geral do propósito de Deus forma o pano de fundo da doutrina reformada que conhecemos como "graça irresistível". Como mencionamos anteriormente, os pecadores resistem aos propósitos de Deus; este é, sem dúvida, um tema significativo na Escritura (Is 65.12; Mt 23.37-39; Lc 7.30; At 7.51; Ef 4.30; lTs 5.19; Hb 4.2; 12.25). Porém, o ponto principal dessa doutrina é que a resistência deles não subsiste contra o Senhor. Quando Deus determina levar alguém à fé em Cristo, ele não falhará, mesmo que, por razões próprias, ele escolha lutar com essa pessoa por um longo período de tempo antes de alcançar o seu propósito.

    Portanto, as Escrituras ensinam de modo consistente que quando Deus elege, chama e regenera alguém em Cristo, pelo Espírito, essa obra alcança os seus propósitos salvíficos. Quando Deus dá a seu povo um coração novo, é certo que eles "andarão nos meus estatutos, e guardarão os meus juízos" (Ez 11.20; cf. 36.26,27). Quando Deus dá vida nova (Jo 5.21), não podemos devolvê-la. Jesus disse: "Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim" (Jo 6.37). Se Deus pré-conhece (i.é., favorece) alguém, ele certamente o predestinará a ser conforme a semelhança de Cristo, a ser chamado, a ser justificado e a ser glorifícado no céu (Rm 8.29,30). Deus "tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz" (Rm 9.18, referindo-se a Ex 33.19). O salmista diz:

    Bem-aventurado aquele a quem escolhes e aproximas de ti, para que assista nos teus átrios; ficaremos satisfeitos com a bondade de tua casa — o teu santo templo. (SI 65.4)

    Paulo acrescenta: "Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo" (lTs 5.9).

    Como a sua palavra, portanto, a graça de Deus nunca retornará para ele vazia.
    Podemos resumir o ensino bíblico sobre a eficácia do reinado de Deus nas seguintes passagens, que falam por si mesmas:

    O conselho do SENHOR dura para sempre;
    os desígnios do seu coração, por todas as gerações.
    (S133.ll)
    No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada. (SI 115.3)

    Tudo quanto aprouve ao SENHOR, ele o fez,
    nos céus e na terra,
    no mar e em todos os abismos.
    (SI 135.6)

    Eu anunciei salvação, realizei-a eafíz ouvir;
    deus estranho não houve entre vós,
    pois vós sois as minhas testemunhas, diz o SENHOR; eu sou Deus.
    Ainda antes que houvesse dia, eu era;
    e nenhum há que possa livrar alguém das minhas mãos;
    agindo eu, quem o impedirá?
    (Is 43.12,13; cf. Dt 32.39)

    Estas coisas diz o santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, que abre, e ninguém fechará, e que fecha, e ninguém abrirá. (Ap 3.7)


    Autor: John Frame