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    Socinianismo: o elo perdido do teísmo aberto.


    Além do indeterminismo, outra idéia central do teísmo aberto é particularmente antiga: sua rejeição da total presciência de Deus. Essa rejeição também tem um antecedente histórico importante. Depois de comentar os conceitos de Armínio em sua análise histórica, Sanders salta para o século 20 e fala sobre o pensamento de Paulo Tillich e de outros. Porém, ao fazer isso, ele deixa de fora um movimento importante para a história das idéias dos teólogos do teísmo aberto: o socinianismo. Os italianos Lelio Socino (1525-1562) e seu sobrinho Fausto Socino (1539-1604) foram considerados heréticos tanto pelos protestantes como pelos católicos. Eles negavam a divindade plena de Cristo, a sua expiação substitutiva e a justificação pela justiça imputada de Cristo. Robert Strimple registra esses pontos de vista e depois acrescenta:

    Porém, o socinianismo também se apegava a uma doutrina herética de Deus. A doutrina sociniana pode ser declarada de modo bem resumido, e precisa ser contrastada tanto com o calvinismo como com o arminianismo. O calvinismo (ou agostinianismo) ensina que o Deus soberano preordenou tudo quanto vem a acontecer e, portanto, ele tem presciência de tudo quanto há de se suceder. O arminianismo nega que Deus tenha preordenado tudo quanto vem a ocorrer mas, no entanto, deseja afirmar a presciência de Deus com respeito a tudo o que vier a suceder. Contra os arminianos, os socinianos insistiam que os calvinistas, na lógica, estavam corretos em insistir que a única base real para se acreditar que Deus sabe o que você está para fazer é acreditar que ele preordenou o que você irá fazer a seguir. De que outra maneira Deus poderia saber de antemão quais seriam as suas decisões? No entanto, assim como os arminianos, os socinianos insistem que é uma negação da liberdade humana acreditar na preordenação soberana de Deus. Por isso, eles foram "até o fim" (pela lógica) e negaram, não somente que Deus preordenou as decisões livres de agentes livres, mas também que Deus sabe de antemão quais serão essas decisões. Esse é precisamente o ensino do "teísmo do livre-arbítrio" de Pinnock, Rice e de outros "evangélicos do novo modelo" que pensam de modo semelhante. Eles querem que essa sua doutrina de Deus soe bastante "nova", bastante moderna, revestindo-a com referências ao princípio da incerteza de Heisenberg na física e também da compreensão da teologia do processo (embora eles rejeitem a teologia do processo como um todo...). Porém, acaba sendo simplesmente o antigo socinianismo herético que foi rejeitado pela Igreja há séculos.

    Strimple acrescenta que o paralelo entre socinianismo e o teísmo aberto se estende até mesmo aos seus "argumentos mais básicos". Os partidários do teísmo aberto argumentam que onisciência significa conhecer tudo o que se pode conhecer e, visto que as decisões livres das criaturas não são cognoscíveis, a ignorância desses fatos não milita contra a onisciência de Deus. Strimple ressalta o fato de que isso é "um claro eco do argumento sociniano".

    É notável que nenhum dos teólogos do teísmo aberto se refira ao socinianismo como uma raiz de sua doutrina. Sanders a omite em sua análise histórica, do mesmo modo que Pinnock o faz na descrição de sua peregrinação histórica. Porém, a visão deles sobre o conhecimento de Deus é claramente sociniana.

    Desejo somente chamar a nossa atenção para o fato de que sua posição (do Teísmo Aberto) não é absolutamente nova e que faz parte de um sistema cujos dogmas principais seriam condenados pela maioria dos cristãos através da História.

    Por que isso é importante? Strimple comenta que essa perspectiva nova ajuda a nos resguardar da noção falsa de que... talvez, se os nossos antepassados, os pais da Reforma, ao menos tivessem conhecido algo sobre essas idéias, teriam repensado sua doutrina de Deus. Ao contrário, os nossos antepassados da Reforma conheciam os argumentos modernos de Rice e Pinnock sob a forma do socinianismo, e claramente os rejeitaram. Lelio Socino incomodou Calvino e Melancton com muitas cartas nas quais expunha esses pontos de vista, e os Reformadores rejeitaram as opiniões de Socínio, por considerá-las infiéis ao testemunho bíblico.

    E nós que, como os Reformadores, acreditamos num Deus que conhece o futuro exaustivamente, podemos traçar a rejeição dessa doutrina ainda mais profundamente na História, muito além dos tempos dos socinianos. Lembramo-nos dos zombadores citados no Salmo 73.11 que dizem: "Como sabe Deus? Acaso, há conhecimento no Altíssimo?". E recordamos os idólatras dos dias de Isaías, que ignoraram o fato de que o verdadeiro Deus demonstra sua divindade contra os deuses falsos declarando as "coisas que hão de acontecer" (Is 41.22; cf.vs. 21 -29). Do mesmo modo que a incredulidade gravita na direção do indeterminismo, como vimos anteriormente, ela também tende a negar o conhecimento de Deus com respeito ao futuro. A razão, em ambos os casos, é a mesma. Os incrédulos querem viver de modo autônomo, e um Deus que controla o mundo e conhece o futuro é uma barreira a essa autonomia.

    O objetivo da minha argumentação aqui é mostrar que, em lugar de serem contemporâneas, as posições centrais do teísmo aberto são antiqüíssimas. Precisamos ser cautelosos ao examinarmos as idéias do teísmo aberto, pelo fato de elas terem se colocado, por vezes, a serviço da incredulidade.


    John Frame