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    O sofrimento dos mensageiros - Dietrich Bonhoeffer



    Fracasso e hostilidade não podem levar os mensageiros a duvidar de serem enviados por Jesus (Mt 10.16-25Texto no fim do artigo). Jesus repete, para forte apoio e grande conforto: "Eis que eu os envio!" Não se trata de caminho próprio, de empreendimento próprio; é missão. Assim o Senhor lhes dá a promessa de sua presença quando estiverem como ovelhas no meio de lobos, indefesos, impotentes, angustiados e em grande perigo. Nada lhes ocorrerá sem que Jesus o saiba. "Sejam, portanto, prudentes como as serpentes e símplices como as pombas." Como têm abusado dessa frase os servos de Jesus! De fato, é bem difícil, também para o mensageiro disposto, entender bem essa frase e obedecer-lhe. Quem saberia distinguir, em todos os casos, prudência espiritual da esperteza do mundo? A tendência imediata é a de renunciar a toda "prudência" e de ficar somente com a simplicidade das pombas, tornando-nos, assim, desobedientes. Quem determina o limite entre fuga do sofrimento por medo e procura do sofrimento por audácia? Quem nos mostra as linhas divisórias invisíveis?

    Não há diferença quando, uma vez, argumentamos com a prudência contra a simplicidade, e, outra, com a simplicidade contra a prudência; em ambos os casos há a mesma desobediência. Como nestas coisas nenhum coração se conhece a si mesmo e como Cristo jamais chamou seus discípulos à incerteza, mas sempre à certeza suprema, esta admoestação não pode conduzir a outra coisa senão à permanência na Palavra. Onde estiver a Palavra, aí também esteja o discípulo; esta é sua verdadeira prudência e sua verdadeira simplicidade. Se a Palavra tiver que retroceder por ter havido rejeição manifesta, retroceda também o discípulo; se a Palavra permanecer em luta declarada, permaneça também o discípulo; em ambos os casos, agirá com prudência e simplicidade, ao mesmo tempo. Jamais, porém, escolha "por prudência" um caminho com o qual não poderá subsistir perante a Palavra de Jesus. Jamais justifique com "prudência espiritual" um caminho que não corresponde à Palavra. Somente a verdade da Palavra lhe ensinará o que é prudente. Jamais, porém, poderá ser "prudente" prejudicar a verdade, por pouco que seja, em consideração de qualquer perspectiva ou esperança humana. Não é nossa análise da situação que determina o que é prudente, mas exclusivamente a verdade da Palavra de Deus. Ser prudente só pode significar a permanência na verdade de Deus. Só então há promessa de fidelidade e ajuda de Deus. Ficará comprovado, em todos os tempos, que para os discípulos não há "maior prudência", nesta era e na vindoura, do que se aterem símplices à Palavra de Deus.

    A partir da Palavra, os discípulos terão verdadeiro conhecimento dos seres humanos. "Acautelem-se dos seres humanos." Nada de temor das pessoas, nem desconfiança, muito menos ódio; mas também nada de credulidade leviana, nada de fé na bondade inata do ser humano, e sim conhecimento exato da relação Palavra-ser humano e da relação ser humano-Palavra deverão os discípulos demonstrar. Se forem sóbrios neste ponto, agüentarão o impacto das palavras de Jesus que lhes anunciam que seu caminho entre os seres humanos será caminho de sofrimento. Porém, uma força singular é inerente ao sofrimento dos discípulos. Enquanto o criminoso sofre o castigo no recolhimento, o caminho de sofrimento dos discípulos os conduzirá à presença de governadores e reis "por minha causa, para lhes servir de testemunho a eles e aos gentios". Através de sofrimento progredirá a mensagem. Isso é plano e vontade de Deus. Por isso, também os discípulos receberão força para uma boa confissão e um testemunho destemido, ao serem entregues a julgamento diante de tribunais e tronos. O próprio Espírito Santo lhes prestará assistência. Torná-los-á invencíveis. Ele lhes dará "sabedoria a que não poderão resistir nem contradizer todos quantos se opuserem a vocês" (Lc 21.15). Como os discípulos permanecem na Palavra na hora do sofrimento, a Palavra também permanecerá com eles. Martírio provocado não teria esta promissão. O sofrimento com a Palavra, porém, conta certamente com ela.

    O ódio contra a palavra dos mensageiros de Jesus continuará até o fim de todas as coisas. Declarará os discípulos culpados de toda desavença que sobrevirá às cidades e aos lares. Jesus e seus discípulos serão condenados por todos como destruidores da família, sedutores do povo, como loucos entusiastas e subversivos. Com isso, a tentação para apostasiar alcançará o auge. Mas também o fim estará próximo, então. Vale permanecer fiel, agüentar, perseverar. Entrará na bem-aventurança somente quem perseverar com Jesus e sua Palavra até o fim. Quando, po¬rém, se aproximar o fim, quando estiver flagrante em todo o mundo a hostilidade contra Jesus e seus discípulos, então, mas somente então, deverão os mensageiros fugir de cidade em cidade, só para poder pregar a Palavra onde ainda for ouvida. Nem mesmo nesta fuga separam-se desta Palavra, mas atêm-se firmes a ela.

    A promissão da proximidade da volta de Jesus nos foi conservada pela Igreja convicta de que ela é verdadeira. Seu cumprimento, porém, é obscuro, e não convém buscar explicações humanas neste caso. Uma coisa, porém, é certa, e isso é a única coisa que importa para nós hoje: que a volta de Jesus acontecerá em breve e que ela é mais certa do que a finalização de nossa missão a seu serviço, mais certa do que nossa morte. Em tudo isso, porém, não poderá haver consolo maior para os mensa¬geiros de Jesus do que a certeza de que serão iguais ao seu Senhor no seu sofrimento. Qual mestre, tal discípulo; qual Senhor, tal servo. Se Jesus for chamado Belzebu, quanto mais serão os servos de sua casa. Jesus estará com eles, e eles serão em tudo iguais a Cristo.

    Texto

    Eis que eu os envio como ovelhas para o meio de lobos; sejam, portanto, prudentes como as serpentes e símplices como as pombas. E acautelem-se dos seres humanos; porque os entregarão aos tribunais e os açoitarão nas suas sinagogas; por minha causa vocês serão levados à presença de governadores e de reis, para lhes servir de testemunho, a eles e aos gentios. E, quando os entregarem, não cuidem em como, ou o que hão de falar, porque naquela hora lhes será concedido o que hão de dizer; visto que não são vocês os que falam, mas o Espírito do seu Pai é quem fala em vocês. Um irmão entregará à morte outro irmão, e o pai ao filho; filhos haverá que se levantarão contra os progenitores e os matarão. Vocês serão odiados de todos por causa de meu nome; aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo. Quando, porém, os perseguirem numa cidade, fujam para outra; porque em verdade lhes digo que não acabarão de percorrer as cidades de Israel, até que venha o Filho do homem. O discípulo não está acima do seu mestre, nem o servo acima do seu senhor. Basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo como o seu senhor. Se chamaram Belzebu ao dono da casa, quanto mais aos seus domésticos?