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    Ir Além da Lei – Dan Doriani


    Muitas pessoas caem na pregação previsível quando se concentram no dever ou na lei - o que as pessoas devem fazer - negligenciando outras perspectivas sobre a vida cristã. Deparei com o problema de uma mente legalista certa vez quando tentava ajudar um casal a salvar um casamento que estava naufragando. Calado e exausto depois de uma sessão dolorosa, o marido de repente teve uma idéia: "Dan, por que você simplesmente não me diz o que devo fazer? Mandamentos específicos para mim como marido e pai. Escreva-os num cartão. Algo como 'Dez mandamentos para o marido e pai cristão'. Depois, se ela aceitar, faça o mesmo para a minha mulher". Eu não sabia se aplaudia a sua disposição de tentar de novo ou debochava da sua ingenuidade. Depois de uma década de brigas constantes, o que fez com que ele achasse que um novo conjunto de regras, as quais ouvira muitas vezes, poderia renovar o seu casamento? No entanto, o meu amigo me fez pensar. De onde ele tinha tirado uma idéia dessas? Da cultura? Da sua própria mentalidade ativista? De outro professor no passado? De mim?

    Poucos líderes atenderiam a um pedido legalista desses. Contudo, desde a época de Jesus, muitos mestres religiosos pensam que poderiam levar as pessoas à justiça por meio de preceitos detalhados sobre o que fazer em cada situação. Os rabinos da época dos apóstolos especificavam os limites do trabalho no sábado nos mínimos detalhes: quanto eles poderiam andar (mil metros), quanto eles poderiam escrever (uma palavra) e quanto leite poderiam tirar do armário (um gole).

    O desafio para o líder cristão é promover a obediência à lei ao mesmo tempo em que resiste ao legalismo. Quando necessário, Jesus comparou os discípulos a servos que fazem o que lhes é mandado (Lc 17.7-20; cf. Tg 1.22). No entanto, ele repreendeu os fariseus por transformar a lei num fardo pesado. É muito fácil perder o equilíbrio.

    Ao combater o antinomianismo, mesmo teólogos respeitados têm enfatizado tanto a obediência aos mandamentos que eliminam outras perspectivas. Harry Blamires disse: "Como o Cristianismo é uma religião de revelação... segue-se que a linha de ação moral dos cristãos deve ser a obediência". O centro da moral cristã é "submissão aos mandamentos" de modo que "Deus chama e o homem obedece". John Murray, sem negar a doutrina da justificação pela fé, declarou: "O critério da nossa posição no reino... nada mais é que observação meticulosa dos manda-mentos de Deus nos mínimos detalhes da sua prescrição".

    O que diremos? Sim, é bom nos submeter às exigências de Deus. Porém, a vida cristã é muito mais que a submissão meticulosa aos manda-mentos divinos. Os crentes devem também buscar nutrir o fruto do Espírito, desenvolver os seus dons, dedicar-se aos projetos do reino, tornar-se mais maduro quanto ao caráter.

    Para ver os limites da lei, consideremos as opções que temos para uma tarde de domingo. Podemos tirar uma soneca, sair para uma caminhada, telefonar para um membro da família, meditar na Escritura ou visitar um amigo. Como cada uma dessas opções é igualmente legal, uma consulta meticulosa à lei não nos levará à escolha certa. Provavelmente escolheremos de acordo com o objetivo mais desejável - descanso, comunhão ou crescimento espiritual. Assim, a lei coloca parâmetros com os quais tomamos uma boa decisão, mas para fazer essa decisão é necessário consultar mais do que apenas a lei.

    A ética cristã consiste em mais do que guardar a lei. Destacando o mesmo aspecto, John Frame resume a ética como "aplicação de uma norma a uma situação por uma pessoa". Frame concorda, então, que a obediência a normas (deveres) é apenas um aspecto da vida cristã. As normas ressaltam as escolhas que as pessoas devem fazer, mas devemos também considerar o caráter da pessoa que faz as escolhas. Ela é capaz de fazer a escolha certa? É capaz de ver claramente a situação a fim de aplicar a norma a ela? O caráter nos lembra que para se fazer o bem, é necessário ser bom. Ou seja, boas obras fluem espontaneamente da pessoa transformada pela graça salvadora de Deus. Os objetivos são essenciais também, pois nos levam a reconhecer os obstáculos e encontrar o melhor meio de alcançar aquilo que é bom. Finalmente, o uso do discernimento nos faz aprender a ver a situação como é, como Deus a vê, de modo a saber quais as normas a aplicar. Assim, para liderar bem devemos usar as quatro perspectivas da vida cristã: o dever, o caráter, os objetivos e o discernimento.

    A vida cristã se conforma à lei e ao dever, mas há mais. Acima de tudo, a regeneração, a fé e o arrependimento antecedem as boas obras. A regeneração, o dom de um novo coração, uma nova mente e novos sentimentos em Cristo, é a raiz da obediência, especialmente se definimos a obediência como fazer a coisa certa na hora certa com a atitude certa. O regenerado recebe a iluminação do Espírito Santo para ver Deus e o mundo como realmente são, a fim de viver para Deus no presente século. A regeneração e a iluminação são precondições para a obediência à lei. Em linguagem bíblica, porque morremos para o pecado e ressuscitamos com Cristo, podemos crucificar a carne com a sua concupiscência (Rm 6.1-12). Porque Deus está operando em nós, podemos desenvolver a nossa salvação com temor e tremor (Fp 2.12,13). Não há proveito, portanto, em reagir à falta de lei seguindo um legalismo indulgente que diz que ganhamos o favor de Deus pela graça mediante a fé, mas conservamos esse favor mediante a observância da lei.

    Além do mais, o interesse pelos detalhes das prescrições e das exigências da lei dificilmente se encaixam no modo em que o crente geralmente obtém santidade. Não nos é típico conseguir maturidade ao atender leis e exigências. Primeiro, é impossível declarar as exigências legais com detalhes suficientes para cobrir todas as situações. Segundo, mesmo se isso fosse possível, não há garantia de que pudéssemos nos lembrar de todas. Ao enfrentar algumas situações morais, o crente pergunta: "Qual será a decisão moral certa aqui?" Porém, também entramos com características, percepções, valores e hábitos de caráter que nos predispõem fortemente a uma ou outra opção. Se alguém prende o nosso dedo na porta, não ponderamos se um leve vulgarismo é ou não é legal. O que dizemos depende principalmente de nossos hábitos, aquilo que está dentro de nós.

    Para maior clareza, e talvez simplificando demais, resumimos a seguir os quatro modos de ver as situações morais. Novamente, o mestre sábio usa todas as quatro perspectivas:

    O dever diz: "Quando as pessoas, talvez cristãs, enfrentam uma situação moral...".

            Elas precisam de conselho. Precisam saber - talvez seja necessário que lhes digam - o que fazer.

            As perguntas-chave são: "Qual é o nosso dever? O que a Bíblia nos ensina a fazer nesta situação?"

            Não se sabe o que elas farão. Elas tanto podem fazer o certo como o errado. Cada situação é nova, e qualquer coisa pode acontecer, depen¬dendo de como as pessoas resolvem responder à lei.

    O caráter diz: "Quando pessoas, talvez cristãs, enfrentam uma situa-ção moral...".

            O que elas fazem é provavelmente determinado antes pela natureza, pelas habilidades e pelas predisposições morais delas que foram formadas no decorrer dos anos.

            As perguntas-chave são: "Como devo mudar se quiser ser santo? Quem sou eu agora, em Cristo? Como posso tornar-me mais como ele?"

            O que elas fazem é previsível. Agentes morais maduros são como vendedores, atletas ou conselheiros sábios. Há pouca novidade para eles; eles enxergam modelos conhecidos e fazem uso de habilidades antigas.

    O objetivo diz: "Quando as pessoas, talvez cristãs, enfrentam uma situação moral...".

            O que elas fazem depende de para onde estão indo, o que elas querem realizar.

            As perguntas-chave são: "Onde eu consigo um sentido de direção? Quais os melhores meios de alcançar fins piedosos? Como posso mudar o mundo para que ele se conforme mais com o plano de Deus?"

            O que elas fazem depende de onde querem chegar e o que querem alcançar.

    O discernimento diz: "Quando as pessoas, talvez cristãs, enfrentam uma situação moral...".

            O que elas fazem depende de como enxergam a situação.

            As perguntas-chave são: "Como obter discernimento? Como posso resistir ao que é falso no pensamento e nos costumes deste mundo? Como obter sabedoria de Deus e da igreja?"

    .        O que elas fazem depende das opções que vêem. Isso, por sua vez, depende do conhecimento que elas têm da Escritura e da capacidade de sua comunidade cristã de pensar e viver de modo cristão.

    Fica claro que apenas começamos a encontrar a relevância da Escritura quando formulamos os deveres. Devemos usar as quatro perguntas para aprofundar a nossa aplicação da Escritura.