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    A Dúvida é Uma Virtude??



    A Aflição dos Pós-Modernistas no tocante à Certeza.

    A supremacia de Cristo na igreja está sendo desafiada por aqueles que integram o movimento da Igreja Emergente e sugerem que as Escrituras não são suficientemente claras para permitir que preguemos a verdade com qualquer grau de clareza, certeza ou convicção. A maioria deles jamais negaria abertamente que a Bíblia é a Palavra de Deus, mas estão fazendo isso quando insistem que ninguém tem o direito de afirmar com certeza o que a Bíblia significa.

    Brian McLaren resume essa mentalidade na introdução ao seu livro A New Type of Christian ("Um Novo Tipo de Cristão"):

    “Dirijo meu automóvel e ouço a estação de rádio cristã, algo que minha esposa sempre diz que devo parar de fazer ("porque isso só deixa você nervoso", diz ela). Ali, ouço um pregador após outro se mostrando absolutamente seguro de suas repostas, que são até à prova de bombardeio, e das suas interpretações bíblicas infalíveis... E, quanto mais seguro ele parece, tanto menos desejo ser um cristão, porque neste outro lado, distante do microfone, das antenas e do locutor, a vida não é tão simples assim; as respostas não são tão claras assim; e nada é tão seguro assim”.

    Deste modo, o pós-modernismo "evangélico" chegou a transformar em virtude sublime toda dúvida, incerteza e hesitação a respeito de quase todos os ensinos das Escrituras. Convicções fortes, afirmadas com clareza, são invariavelmente rotuladas como "arrogância" por aqueles que favorecem o diálogo pós-modernista.

    Ora, é claro que não podemos ser dogmáticos a respeito dos temas secundários de nossa fé e de assuntos de preferência pessoal. Quase ninguém acredita que devemos brigar por toda e qualquer opinião. A Escritura traça delimita este assunto com bastante clareza: somos ordenados a defender a fé uma vez por todas entregue aos santos; e somos proibidos de provocar lutas, uns com os outros, no tocante a questões secundárias (Romanos 14.1).

    No entanto, alguns estão sugerindo que a humildade exige que todos parem de tratar qualquer virtude como incontestável. Em vez disso, devemos reconsiderar tudo e "admitir que nossas formulações do passado e do presente podem ter sido limitadas ou distorcidas".

    Essa abordagem tem sido mencionada, por alguns, como "uma hermenêutica da humildade" — como se fosse inerentemente orgulhoso demais para um pregador o imaginar que ele sabe aquilo que Deus disse a respeito de alguma coisa. É claro que essa negação de toda a certeza não tem qualquer indício de verdadeira humildade. De fato, isto é realmente uma forma arrogante de incredulidade, arraigada na recusa imprudente de reconhecer que Deus foi suficientemente claro na revelação que fez de Si mesmo às suas criaturas. Essa atitude é uma forma blasfema de arrogância e, quando ela governa até a maneira como alguém maneja a Palavra de Deus, se torna outra expressão de rebeldia maligna contra a autoridade de Cristo.

    Cristo tem falado na Bíblia e nos julga responsáveis por entender, interpretar, obedecer e ensinar aquilo que Ele disse — em contraste com a atitude de destruir tudo que a Bíblia diz. Observe que Cristo repreendeu, diversas vezes os fariseus por torcerem e de¬sobedecerem às Escrituras, por deixarem-nas de lado em favor das tradições deles e por menosprezarem, de modo geral, o significado claro das Escrituras. Nenhuma vez Jesus desculpou a hipocrisia e falsa religião dos fariseus, usando como argumento a falta de clareza no Antigo Testamento.

    Jesus considerava responsáveis não somente os fariseus, mas também o povo comum, por conhecerem e entenderem as Escrituras. "Nunca lestes...?" era uma repreensão que Ele dirigia comumente àqueles que desafiavam os seus ensinos, mas não conheciam nem entendiam as Escrituras como deveriam (Mateus 12.3, 5; 19.4; 22.31; Marcos 12.26). Jesus se dirigiu aos discípulos na estrada de Emaús: "Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas dis¬seram!", por causa da ignorância deles a respeito das promessas messiânicas do Antigo Testamento (Lucas 24.25). O problema não se achava em qualquer falta de clareza nas Escrituras, e sim na fé indolente dos discípulos.

    O apóstolo Paulo, cujos escritos são os mais debatidos pelos eruditos hoje, escreveu quase todas as suas epístolas para o homem comum, e não para eruditos e intelectuais. As epístolas dirigidas às igrejas foram escritas para as igrejas predominantemente gentias, cujo entendimento do Antigo Testamento era limitado. Apesar disso, Paulo esperava que aqueles cristãos entendessem aquilo que ele escrevera (Efésios 3.3-5) é os considerava responsáveis por seguirem as suas instruções (1 Timóteo 3.14-15).

    Paulo e Cristo argumentavam, de modo consistente, que todo cristão tem o dever de estudar e interpretar corretamente as Escrituras (2 Timóteo 2.15). "Quem tem ouvidos [para ouvir], ouça" (Mateus 11.15; 13.9,16; Marcos 4.9).

    Até o Livro do Apocalipse, que pode ser considerado, nas Escrituras, uma das seções mais difíceis de ser interpretada, não é tão difícil para o leitor leigo entender de modo suficiente e com proveito. Por isso, o Apocalipse começa com a seguinte bênção: "Bem-aventurados aqueles que lêem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas, pois o tempo está próximo" (Apocalipse 1.3).

    O cristianismo protestante sempre afirmou a perspicuidade das Escrituras. Isso significa que cremos que Deus falou de modo distinto em sua Palavra. Nem tudo que lemos nas Escrituras é igualmente claro (2 Pedro 3.16). Mas a Palavra de Deus é suficientemente clara para o leitor comum saber e compreender tudo que é necessário para que ele tenha o conhecimento salvífico de Cristo. As Escrituras são, também, suficientemente claras para nos capacitar a obedecer à Grande Comissão, que requer expressamente que ensinemos às outras pessoas "todas as coisas" que Cristo ordenou (Mateus 28.18-20).

    A erudição cristã acumulada durante dois mil anos tem sido consistente no tocante aos principais assuntos: A Bíblia é a Palavra de Deus, revestida de autoridade, que contém todas as verdades espirituais e essenciais para a glória de Deus, para a nossa salvação, fé e vida eterna. As Escrituras nos dizem que toda a humanidade caiu na pessoa de Adão e que o nosso pecado é uma escravidão completa, da qual não podemos nos livrar. Jesus é Deus encarnado, que tomou sobre Si a carne humana, a fim de pagar o preço do pecado e redimir da escravidão do pecado homens e mulheres que crêem. A salvação é pela graça mediante a fé, e não o resultado de quaisquer obras que realizemos. Cristo é o único Salvador para todo o mundo, e, à parte da fé nEle, não existe esperança alguma para nenhum pecador. Por isso, a mensagem do evangelho precisa ser levada até aos confins da terra. Os cristãos verdadeiros sempre estiveram em pleno acordo, quanto a todos esses assuntos vitais da verdade bíblica.

    Na realidade, a noção pós-moderna de que tudo deve ser colocado perpetuamente em debate e de que nada é certo ou estabelecido é uma negação evidente e simples da clareza das Escrituras e do testemunho unânime que o povo de Deus tem prestado no decorrer da história da redenção. Em certo sentido, a negação contemporânea da clareza da Bíblia representa um retorno à maneira de pensar medieval, quando a hierarquia católica insistia que a Bíblia era demasiadamente obscura para que os leigos a interpretassem por conta própria. (Esta crença suscitou grande e violenta oposição contra aqueles que trabalhavam para traduzir a Bíblia aos idiomas comuns.)

    Em outro sentido, a negação pós-moderna da clareza das Escrituras é pior do que as trevas da superstição religiosa da Idade Média, porque o pós-modernismo diz, com efeito, que ninguém pode entender, de modo confiável, o que a Bíblia significa. O pós-modernismo deixa as pessoas permanentemente nas trevas a respeito de quase tudo.

    Essa atitude também é uma negação do senhorio de Cristo sobre a igreja. Como Ele pode exercer a sua soberania sobre a igreja, se o seu próprio povo nunca sabe o significado daquilo que Ele disse? O próprio Jesus solucionou a questão referente à suficiência de clareza em sua verdade, ao dizer: "As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão." em João 10.27-28.

    Outras modas e novidades teológicas. Muitos outros desafios à supremacia de Cristo sobre a igreja estão se infiltrando no movimento evangélico. Alguns anulam o senhorio de Cristo mediante sua doutrina falha. O teísmo aberto, por exemplo, sugere que Deus não sabe o futuro de modo infalível. Essa idéia diminui a verdade da soberania divina e, assim, subverte toda a base do senhorio de Cristo.

    Outros desejariam afirmar formalmente a soberania de Cristo e sua supremacia espiritual sobre a igreja, mas resistem, na prática, à autoridade dEle. Citaremos apenas um exemplo de como isso acontece: muitas igrejas têm colocado várias formas de psicologia humana, de terapia de auto-ajuda, bem como a idéia de "restauração", no lugar dos ensinos bíblicos a respeito do pecado e da santificação. Deste modo, a supremacia de Cristo sobre a igreja é subjugada a terapeutas profissionais. No entanto, o desígnio divino para a santificação é que esta ser realize por meio da Palavra de Deus (João 15.3; 17,17). Portanto, sempre que a obra da Palavra de Deus está sendo substituída por programas de doze passos ou outros substitutos, a supremacia de Cristo sobre a igreja está sendo negada na prática.

    Os estilos populares de liderança eclesiástica do tipo empresarial (nos quais o pastor desempenha o papel de presidente de uma grande corporação, e não o papel de pastor fiel do rebanho de Cristo,) também subvertem a supremacia de Cristo sobre a igreja. Esses empreendimentos podem ser rotulados de "igreja", mas freqüentemente são meros produtos da engenhosidade humana e da energia carnal. São obras de "madeira, feno, palha", nas palavras de 1 Coríntios 3.12 — não têm valor eterno; estão) destinadas a serem totalmente reprovadas no tribunal de Cristo. Ele está edificando a igreja verdadeira (Mateus 16.18); e somente Ele é o verdadeiro Cabeça da igreja (Efésios 5.23). O governo de Cristo não é mediado pela esperteza e habilidade de administradores, mas tão somente por meio da sua verdade revelada, à medida que ela é corretamente pregada, explicada, aplicada e sustentada.

    Infelizmente, para onde quer que olharmos no movimento evangélico contemporâneo, a supremacia de Cristo sobre a igreja está sendo desafiada, rejeitada, desconsiderada, anulada ou disputada, de uma maneira ou de outra. Um entendimento correto da igreja começa com esse reconhecimento. Cristo é o único e verdadeiro Cabeça da igreja; tudo que interfere nesta supremacia contém as sementes da apostasia. Por outro lado, toda forma de apostasia é uma negação implícita de "nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo" (Judas 4) e, portanto, uma forma de rebelião contra o único e verdadeiro Cabeça da igreja.

    John MacArthur