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    A eleição estimula à santidade - A. Booth - (1734-1806)


    Humildade, amor e gratidão são três elementos essenciais da verdadeira religião. O ensino bíblico a respeito da eleição promove esses três elementos.
    A graça discriminativa, certamente, ocasiona a humil­dade. Todos os homens estão igualmente arruinados. Os pecadores não são salvos porque merecem, porém, tão--somente pela misericordiosa escolha de Deus. Daí ninguém ter razão alguma para orgulhar-se. A salvação "não vem das obras para que ninguém se glorie" (Ef. 2:9). Por isso, a graça discriminativa torna os crentes humildes. Eles são obrigados a reconhecer que não têm mais direito de ser salvo do que o maior miserável que já está no inferno. E como Paulo escreve: "...quem te diferencia? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?" (1 Cor. 4:7).
    Além disso, a eleição dos filhos de Deus cria neles um grande amor para com Ele. Quando eles tomam consciência das bênçãos da salvação que Deus graciosamente lhes deu, ainda que não a merecessem mais que quaisquer outros homens, hão de ficar cheios de amor e admiração. Deus podia, com justiça, tê-los mandado para o inferno, mas ao invés disso, os elevou para o céu. Não deverão eles amá-10 por isso?
    E esse amor se expressará por meio da gratidão. Se Deus fez tanto por nós, sem que o merecêssemos, não deveríamos nos entregar totalmente a Ele, em serviço de gratidão? Com Paulo, dizemos: "Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais, em Cristo; como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor" (Ef. 1:3-4).
    Humildade para com os nossos semelhantes, amor e gratidão para com Deus - são esses os frutos de uma compreensão da graça discriminativa de Deus. A eleição, portanto, influencia-nos para nos tornar melhores crentes.
    Ao mesmo tempo, por mais cheia de auxílio que esta verdade possa parecer àqueles que já são crentes, será que ela não vai desencorajar os que ainda não o são? Os que buscam tornar-se crentes poderão argüir: "Se eu não estiver entre os eleitos de Deus, então não importa o quanto eu deseje ser salvo, pois jamais o serei".
    Esse pode parecer um argumento plausível, mas na verdade é um grande erro. Deixe-me ilustrar o que quero dizer. Suponhamos que um alimento é repentinamente apresentado a um homem faminto. Teria sentido ele dizer: "Não sei se Deus pretende que eu seja alimentado por este determinado alimento. Por isso, não importa o quanto eu o deseje, não posso comê-lo". Não seria muito mais sensato dizer: "Tenho um forte apetite. O alimento é o meio de satisfazer o meu apetite. Portanto, eu comerei este alimento".
    Ora, Cristo é o pão da vida, o alimento das nossas almas. Este alimento celestial é provido pela graça oferecida no evangelho e livremente apresentado a todos os que têm fome, sem exceção. Que teria de fazer, então, o pecador espiritualmente despertado senão, sendo habilitado pelo Senhor, tomar, comer e viver para sempre? Os pecadores não são encorajados a crer em Jesus em troca de saberem que são eleitos. Não, as novas da misericórdia de Deus são dirigidas aos pecadores considerados como prontos para perecerem. Todos, sem exceção, que conhecem sua situação perigosa e sentem sua incapacidade, são convidados, sem demora, a aceitarem as bênçãos espirituais, antes mesmo de pensarem a respeito de sua eleição. Assim, esta verdade não deve aterrorizar um despertado ou qualquer pessoa que tenha consciência de seu pecado. Os que estão indiferentes a respeito de suas almas, ou têm elevada opinião sobre sua própria bondade, de qualquer maneira jamais se inco­modarão com a eleição!
    No entanto, não poderia alguém dizer: "Se eu estou entre os eleitos, então necessariamente serei salvo, não importa como eu me comporte". Por acaso este ensino das Escrituras referente à graça discriminativa não encoraja o crente a viver descuidadamente?
    Às vezes, você pode encontrar pessoas que dizem crer na eleição e cujas vidas são cheias de impiedade. Tais pessoas, porém, estão enganando a si mesmas. A eleição não significa meramente que um certo número de pessoas irá, seguramente, para o céu. A razão da eleição é que o povo de Deus fosse santo e irrepreensível diante dEle (Ef. 1:4),
    ou seja, a eleição significa que um certo número de santos alcançará o céu.
    Deus não indicou apenas o lugar (o céu) para onde os eleitos irão, porém, mostrou também o caminho pelo qual eles chegarão lá. Paulo escreve: "Devemos sempre dar graças a Deus... por vos ter elegido desde o princípio, para a salvação, pela santificação do Espírito, e fé na verdade" (2 Tess. 2:13). Assim, uma parte essencial da experiência espiritual dos eleitos deve ser a "santificação" e a "fé na verdade". Onde esses elementos não estiverem presentes, não há eleição.
    Há um outro argumento semelhante a esse último, o qual se costuma apresentar contra a verdade da eleição. E o seguinte: qual é a utilidade da pregação, da oração e da auto--negação? Se os eleitos já estão certamente escolhidos, não há necessidade dessas coisas. A resposta a esse argumento é a mesma que demos ao argumento anterior, ou seja, Deus usa deliberadamente a pregação, a oração e a auto-negação para efetuar aquele viver santo para o qual Ele escolheu o Seu povo. Posso mostrar o absurdo desse argumento por meio de outra ilustração.
    Vamos concordar que há um Deus que governa todos os nossos negócios humanos por Sua providência. Se Ele planejou tudo aquilo que fará, então a objeção de que "se alguém é eleito, esse alguém não precisa ser santo" também se aplica a todos os negócios da vida diária. Se Deus planejou todos os negócios humanos, então quer com saúde ou doentes, quer bem sucedidos ou falhos em nossos negócios, quer habilidosos ou não na execução de nossas tarefas, tudo é governado pela providência. Contudo, quem será tão insensato para dizer; "Não importa se eu como, durmo ou estudo, desde que as circunstâncias de minha vida já foram determinadas pela providência!" Uma vez que não racio­cinamos tão absurdamente em relação aos afazeres de nossa vida natural, por que o faríamos em relação aos interesses de nossa vida espiritual?
    O perfeito conhecimento de Deus inclui todos os detalhes de nossas vidas, tanto quanto o nosso destino final. Não podemos separar os pormenores do fim. Deus prevê que chegarão aos céus somente aqueles que, segundo Sua previsão, se tornam santos por esforço espiritual diário; e ninguém Ele prevê no inferno, exceto aqueles pecadores que diaria­mente rejeitam Sua verdade.
    Alguns, porém, acrescentam o argumento: "Este ensino torna Deus injusto, desde que Ele é misericordioso para com alguns e não para com todos. Deus Se tornou desleal". Eu respondo: a injustiça só pode estar presente quando a recompensa proveniente de um compromisso assumido deixa de ser dada. Se um magistrado aplica a lei rigorosamente no caso de um pobre e indulgentemente no caso de um rico, ele é injusto. Todavia, se ele como um benfeitor é generoso para com os necessitados entre seus vizinhos, nunca diríamos que é obrigado a ser generoso para com todos os necessitados. Isso seria impertinência de nossa parte! Se é apenas um problema de doação graciosa, não pode haver injustiça -mesmo que todos não recebam. E isto é ainda mais verdadeiro com relação a Deus, pois Ele é o Criador que tem o direito absoluto de fazer o que quiser com o que é Seu - e Sua natureza perfeita nos assegura que Ele nada faz de errado.
    Deixe-me perguntar-lhe: todos os homens pecaram ou não? Se pecaram, então todos são culpados perante Deus. Se admitimos isso, então mesmo que todos perecessem Deus seria justo. E a eleição de alguns para a salvação não causa dano aos não eleitos. Assim, a "não-eleição" não é uma punição injusta. Dizer que Deus não pode deixar ninguém se perder é dizer que todos têm direito à salvação. No entanto, ninguém tem direito à salvação. Ela é somente pela graça.
    A verdade é que o argumento "Deus é injusto ao eleger alguns e não todos" procede da auto-estima que nós, errada­mente, temos de nós mesmos e da visão míope que temos de Deus. Será o altíssimo e sublime Deus tão limitado que não possa fazer o que Lhe agrada?
    Deixe-me, agora, mostrar-lhe o valor real e prático da eleição para nós. Primeiro, a verdade tem algo a dizer ao pecador descuidado. Você já viu que todos são culpados aos olhos de Deus, e que Ele escolheu alguns para a salvação, deixando outros sofrerem as justas conseqüências de seus pecados. Como você pode saber que esse não é o seu caso? Ser rejeitado por Deus é estar perdido para sempre. Você ainda está desinteressado? Ora, você está nas mãos de um Deus ofendido e, contudo, não tem idéia certa daquilo que Ele fará com você! Se você teme a possibilidade do inferno, deve saber que é exatamente isso que merece. Você tem boas razões para tremer. Medite sobre estes fatos terríveis! Que o Senhor possa ajudá-lo a "fugir da ira vindoura" (Mat. 3:7).
    Assim, a partir disso, é claro que o ensino de que o amor de Deus é geral e igual para com toda a humanidade, e de que Cristo morreu por todos, pode entorpecer as consciências. Se todos são igualmente amados e salvos, por que devo me preocupar? Somente as verdades bíblicas, isto é, a graça discriminativa e Cristo como o substituto dos eleitos, têm poder para despertar o pecador descuidado.
    Segundo, a verdade da graça discriminativa tem algo a dizer ao crente. Você é um verdadeiro crente? Nesse caso, a graça lhe mostra a quem deve louvar e lhe diz que você deve ser humilde! Essa verdade também lhe dá a certeza de que aqueles que recebem essa graça estão seguros para a eternidade, pois coisa alguma pode derrotar a graça de Deus. Ela reina! Quão importante, então, é "fazer firme a vossa vocação e eleição" (2 Ped. 1:10). Você está convencido de que esta verdade da eleição é uma verdade bíblica? Então, tome posse de todos os seus benefícios. Sem dúvida, de todos os nomes que são dados na Bíblia ao povo de Deus, o de "eleito de Deus" é o mais marcante. Ele significa que você está autorizado a desfrutar de todos os imensos privilégios que a graça oferece. "Uma geração escolhida, um sacerdócio real, uma nação santa, um povo adquirido para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz" (1 Ped. 2:9).
    Terceiro, esta verdade da graça discriminativa tem algo a dizer ao que é crente só de nome, que fala muito a respeito de doutrina, mas em cuja vida se vêem, freqüentemente, a falta de santidade, o orgulho e a malícia. Você é desse tipo? Então, você pode falar quanto quiser a respeito de doutrina; isso não lhe fará bem algum. A sua vida torna claro que você é um inimigo da graça. Você obedece realmente aos seus apetites pecaminosos. Você realmente não ama a Deus! Que a graça da qual fala - sem nenhuma experiência dela -possa livrá-lo misericordiosamente do seu pecado. Seria difícil encontrar um caso mais deplorável do que o de uma pessoa que finge conhecer aquilo que realmente não experimenta.